Perigoso demais

1168 Words
O resto do dia passou arrastado para Mariana, como se cada minuto tivesse peso próprio, como se o tempo tivesse decidido provocar ela de propósito. Não importava o que fizesse — arrumar a cozinha, organizar os utensílios, revisar tarefas simples — a cabeça voltava sempre para o mesmo lugar: o quarto dele, o corpo dele perto demais, a forma como ele olhou pra ela naquela manhã como se nada do que ela dissesse fosse suficiente pra afastar o que já estava entre eles. E o pior não era nem o desejo em si, era a sensação de que aquilo não tinha acabado, de que só tinha sido interrompido. Ela tentou manter distância o dia inteiro. Evitou passar pelos mesmos corredores, demorou mais do que precisava em tarefas simples, até fingiu estar ocupada quando ouviu a voz dele em algum cômodo próximo. Era ridículo, ela sabia, mas era a única forma que encontrou de não ceder de novo. Porque agora não era mais só atração — era risco. Era algo que podia custar tudo. No final da tarde, quando o sol já começava a cair e a casa ficava mais silenciosa, ela decidiu subir até o quarto só para respirar um pouco longe de tudo. Precisava de alguns minutos sem tensão, sem olhar, sem aquele peso constante no peito. Assim que fechou a porta, encostou nela, soltando o ar devagar, tentando se convencer de que ainda tinha controle da situação, de que ainda podia colocar um limite antes que fosse tarde demais. Mas o controle durou pouco. A batida na porta veio alguns minutos depois. Não foi forte, nem insistente, mas foi suficiente para o corpo dela reagir na hora, como se já soubesse quem era antes mesmo de pensar. Mariana fechou os olhos por um segundo, respirou fundo e tentou ignorar, mas a segunda batida veio logo em seguida, um pouco mais firme, mais decidida. — Mariana — a voz dele veio baixa, do outro lado. Ela passou a mão pelo rosto, claramente irritada consigo mesma por ainda reagir daquele jeito, e abriu a porta sem muita paciência. — O que foi agora? Miguel estava ali, encostado no batente, com a mesma calma de sempre, mas o olhar dele não era calmo. Era atento, direto, como se estivesse avaliando cada reação dela desde o momento em que a viu. — A gente precisa parar de fingir que tá tudo normal — ele disse, sem rodeio. Mariana soltou uma risada curta, cruzando os braços. — Eu não tô fingindo nada. Eu tô tentando resolver o problema. — Evitar não resolve. — E continuar resolve? Ele não respondeu na hora, apenas entrou no quarto, fechando a porta atrás de si com naturalidade demais, como se aquele espaço já fosse compartilhado, como se não houvesse mais barreira entre eles. — A gente não terminou aquela conversa. — Terminou sim — ela rebateu, virando de costas, tentando criar distância. — Eu disse que não pode continuar. — Você disse que precisa parar. Não é a mesma coisa. Mariana virou na hora, irritada. — É exatamente a mesma coisa. Miguel se aproximou alguns passos, diminuindo o espaço entre eles com aquela calma que só deixava tudo mais tenso. — Não é, porque você não quer parar. Aquilo acertou. Ela abriu a boca pra responder, mas não saiu nada no primeiro segundo, e esse pequeno atraso foi suficiente pra ele perceber. — Viu? — Isso não muda nada — ela disse, mais firme agora. — Querer não significa que dá pra fazer. — Mas significa que não acabou. O silêncio que se formou foi pesado, cheio de coisa não dita, cheio de verdade que nenhum dos dois queria assumir completamente. Mariana passou a mão pelo cabelo, claramente tentando manter o controle. — Você tá complicando uma situação que já tá r**m. — Não fui eu que comecei isso. — Mas pode ser você que termina. Miguel parou na frente dela, perto demais de novo, o olhar preso no dela com uma intensidade que fazia difícil até respirar direito. — E você quer que eu termine? A pergunta veio baixa, direta, sem espaço pra fuga. Mariana sentiu o coração disparar, mas sustentou o olhar. — Quero. Mas a resposta saiu fraca. E ele percebeu. Claro que percebeu. O canto da boca dele quase se mexeu, não em deboche, mas em algo mais perigoso — certeza. — Você mente muito m*l. Ela deu um passo pra trás, incomodada. — Eu não tô mentindo. — Tá tentando se convencer. — E você devia fazer o mesmo. — Eu não vejo motivo. Aquilo irritou. De verdade. — Você tem uma noiva, Miguel. Isso já é motivo suficiente. Ele ficou em silêncio por um segundo, analisando, como se aquilo fosse mais complexo do que parecia. — Eu vou resolver isso. Mariana franziu a testa. — Resolver como? — Do jeito que precisar. — Isso não é resposta. — É a única que você precisa agora. Ela balançou a cabeça, impaciente. — Você fala como se tudo fosse simples. — Pra mim, é. — Pra mim não é — ela rebateu, agora mais intensa. — Eu não posso simplesmente ignorar tudo e fingir que não tem consequência. — E você acha que eu posso? — Acho que você já faz isso. O silêncio voltou. Mas dessa vez mais carregado. Mais pessoal. Miguel deu mais um passo, e agora não tinha mais espaço nenhum entre eles, o calor do corpo dele próximo de novo, aquela presença que parecia sempre puxar ela de volta pro mesmo lugar. — Eu não tô ignorando — ele disse, mais baixo — eu tô escolhendo. Aquilo mexeu. Muito. Porque ela sabia exatamente o que ele estava dizendo. E isso era o problema. Mariana desviou o olhar por um segundo, respirando fundo, tentando não se deixar levar de novo. — Você não pode escolher sozinho. — Mas você também tá escolhendo. Ela voltou a olhar pra ele. — Eu tô tentando não escolher. — Já escolheu ontem. O ar ficou pesado. De novo. E o pior é que ela não tinha como negar. Porque no fundo… ele estava certo. Mariana fechou os olhos por um segundo, como se aquilo ajudasse a organizar alguma coisa dentro dela, mas não ajudava. Nada ajudava. Quando abriu de novo, o olhar estava diferente. Ainda confuso. Mas mais sincero. — Isso vai dar errado. — Provavelmente. — Vai machucar alguém. — Já está machucando. Ela engoliu seco. — E mesmo assim você quer continuar? Miguel não hesitou. — Quero. A resposta veio firme. Sem dúvida. Sem pausa. E aquilo foi o que mais abalou ela. Porque não tinha jogo ali. Não tinha manipulação. Era escolha. E ela não sabia lidar com isso. O silêncio se estendeu entre os dois, pesado, denso, cheio de uma tensão que já não era só física, era emocional, era inevitável. E pela primeira vez, Mariana percebeu que talvez o maior problema não fosse ele. Fosse ela não conseguir mais se afastar. E isso… era muito mais perigoso.
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