O resto do dia passou arrastado para Mariana, como se cada minuto tivesse peso próprio, como se o tempo tivesse decidido provocar ela de propósito. Não importava o que fizesse — arrumar a cozinha, organizar os utensílios, revisar tarefas simples — a cabeça voltava sempre para o mesmo lugar: o quarto dele, o corpo dele perto demais, a forma como ele olhou pra ela naquela manhã como se nada do que ela dissesse fosse suficiente pra afastar o que já estava entre eles. E o pior não era nem o desejo em si, era a sensação de que aquilo não tinha acabado, de que só tinha sido interrompido.
Ela tentou manter distância o dia inteiro. Evitou passar pelos mesmos corredores, demorou mais do que precisava em tarefas simples, até fingiu estar ocupada quando ouviu a voz dele em algum cômodo próximo. Era ridículo, ela sabia, mas era a única forma que encontrou de não ceder de novo. Porque agora não era mais só atração — era risco. Era algo que podia custar tudo.
No final da tarde, quando o sol já começava a cair e a casa ficava mais silenciosa, ela decidiu subir até o quarto só para respirar um pouco longe de tudo. Precisava de alguns minutos sem tensão, sem olhar, sem aquele peso constante no peito. Assim que fechou a porta, encostou nela, soltando o ar devagar, tentando se convencer de que ainda tinha controle da situação, de que ainda podia colocar um limite antes que fosse tarde demais.
Mas o controle durou pouco.
A batida na porta veio alguns minutos depois. Não foi forte, nem insistente, mas foi suficiente para o corpo dela reagir na hora, como se já soubesse quem era antes mesmo de pensar. Mariana fechou os olhos por um segundo, respirou fundo e tentou ignorar, mas a segunda batida veio logo em seguida, um pouco mais firme, mais decidida.
— Mariana — a voz dele veio baixa, do outro lado.
Ela passou a mão pelo rosto, claramente irritada consigo mesma por ainda reagir daquele jeito, e abriu a porta sem muita paciência.
— O que foi agora?
Miguel estava ali, encostado no batente, com a mesma calma de sempre, mas o olhar dele não era calmo. Era atento, direto, como se estivesse avaliando cada reação dela desde o momento em que a viu.
— A gente precisa parar de fingir que tá tudo normal — ele disse, sem rodeio.
Mariana soltou uma risada curta, cruzando os braços.
— Eu não tô fingindo nada. Eu tô tentando resolver o problema.
— Evitar não resolve.
— E continuar resolve?
Ele não respondeu na hora, apenas entrou no quarto, fechando a porta atrás de si com naturalidade demais, como se aquele espaço já fosse compartilhado, como se não houvesse mais barreira entre eles.
— A gente não terminou aquela conversa.
— Terminou sim — ela rebateu, virando de costas, tentando criar distância. — Eu disse que não pode continuar.
— Você disse que precisa parar. Não é a mesma coisa.
Mariana virou na hora, irritada.
— É exatamente a mesma coisa.
Miguel se aproximou alguns passos, diminuindo o espaço entre eles com aquela calma que só deixava tudo mais tenso.
— Não é, porque você não quer parar.
Aquilo acertou.
Ela abriu a boca pra responder, mas não saiu nada no primeiro segundo, e esse pequeno atraso foi suficiente pra ele perceber.
— Viu?
— Isso não muda nada — ela disse, mais firme agora. — Querer não significa que dá pra fazer.
— Mas significa que não acabou.
O silêncio que se formou foi pesado, cheio de coisa não dita, cheio de verdade que nenhum dos dois queria assumir completamente.
Mariana passou a mão pelo cabelo, claramente tentando manter o controle.
— Você tá complicando uma situação que já tá r**m.
— Não fui eu que comecei isso.
— Mas pode ser você que termina.
Miguel parou na frente dela, perto demais de novo, o olhar preso no dela com uma intensidade que fazia difícil até respirar direito.
— E você quer que eu termine?
A pergunta veio baixa, direta, sem espaço pra fuga.
Mariana sentiu o coração disparar, mas sustentou o olhar.
— Quero.
Mas a resposta saiu fraca.
E ele percebeu.
Claro que percebeu.
O canto da boca dele quase se mexeu, não em deboche, mas em algo mais perigoso — certeza.
— Você mente muito m*l.
Ela deu um passo pra trás, incomodada.
— Eu não tô mentindo.
— Tá tentando se convencer.
— E você devia fazer o mesmo.
— Eu não vejo motivo.
Aquilo irritou.
De verdade.
— Você tem uma noiva, Miguel. Isso já é motivo suficiente.
Ele ficou em silêncio por um segundo, analisando, como se aquilo fosse mais complexo do que parecia.
— Eu vou resolver isso.
Mariana franziu a testa.
— Resolver como?
— Do jeito que precisar.
— Isso não é resposta.
— É a única que você precisa agora.
Ela balançou a cabeça, impaciente.
— Você fala como se tudo fosse simples.
— Pra mim, é.
— Pra mim não é — ela rebateu, agora mais intensa. — Eu não posso simplesmente ignorar tudo e fingir que não tem consequência.
— E você acha que eu posso?
— Acho que você já faz isso.
O silêncio voltou.
Mas dessa vez mais carregado.
Mais pessoal.
Miguel deu mais um passo, e agora não tinha mais espaço nenhum entre eles, o calor do corpo dele próximo de novo, aquela presença que parecia sempre puxar ela de volta pro mesmo lugar.
— Eu não tô ignorando — ele disse, mais baixo — eu tô escolhendo.
Aquilo mexeu.
Muito.
Porque ela sabia exatamente o que ele estava dizendo.
E isso era o problema.
Mariana desviou o olhar por um segundo, respirando fundo, tentando não se deixar levar de novo.
— Você não pode escolher sozinho.
— Mas você também tá escolhendo.
Ela voltou a olhar pra ele.
— Eu tô tentando não escolher.
— Já escolheu ontem.
O ar ficou pesado.
De novo.
E o pior é que ela não tinha como negar.
Porque no fundo… ele estava certo.
Mariana fechou os olhos por um segundo, como se aquilo ajudasse a organizar alguma coisa dentro dela, mas não ajudava. Nada ajudava.
Quando abriu de novo, o olhar estava diferente.
Ainda confuso.
Mas mais sincero.
— Isso vai dar errado.
— Provavelmente.
— Vai machucar alguém.
— Já está machucando.
Ela engoliu seco.
— E mesmo assim você quer continuar?
Miguel não hesitou.
— Quero.
A resposta veio firme.
Sem dúvida.
Sem pausa.
E aquilo foi o que mais abalou ela.
Porque não tinha jogo ali.
Não tinha manipulação.
Era escolha.
E ela não sabia lidar com isso.
O silêncio se estendeu entre os dois, pesado, denso, cheio de uma tensão que já não era só física, era emocional, era inevitável.
E pela primeira vez, Mariana percebeu que talvez o maior problema não fosse ele.
Fosse ela não conseguir mais se afastar.
E isso…
era muito mais perigoso.