Mariana acordou devagar, ainda envolvida por uma sensação quente e estranha que não fazia parte da rotina dela, como se o corpo estivesse demorando a lembrar onde estava antes mesmo da mente conseguir acompanhar. Por alguns segundos, ficou ali, de olhos fechados, sentindo o peso do próprio corpo contra o colchão macio demais, o silêncio diferente daquele quarto, o cheiro que não era o dela… até que percebeu. O braço de Miguel estava sobre a sua barriga, firme, pesado, possessivo até no descanso, e o corpo dele colado ao dela pelas costas, a respiração calma encostando na sua pele de um jeito que fez um arrepio lento subir pela espinha. Foi nesse momento que a memória da noite anterior voltou inteira, sem aviso, sem filtro, sem chance de fingir que não tinha acontecido.
O coração acelerou na mesma hora, não pelo toque em si, mas pelo peso da realidade. Ela estava na cama dele. Na casa dele. Depois de tudo. Depois de cruzar uma linha que ela sabia, desde o começo, que não deveria nem ter chegado perto. E o pior não era nem o que tinha acontecido… era o quanto ela não se arrependia do jeito que deveria.
Com cuidado, ela segurou o braço dele, tentando afastar devagar, mas Miguel se mexeu antes que ela conseguisse, puxando ela de volta contra o corpo dele de forma automática, ainda sonolento, como se aquilo já fosse natural, como se ela já pertencesse ali. O gesto foi simples, mas mexeu com ela de um jeito perigoso, porque por um segundo… ela quis ficar. E foi exatamente isso que fez com que ela se afastasse de vez, levantando rápido demais da cama, como se precisasse colocar distância antes que esquecesse completamente quem era e o lugar que ocupava naquela casa.
Miguel abriu os olhos com o movimento, ainda meio perdido, passando a mão no rosto enquanto tentava focar nela, que já estava recolhendo as próprias roupas com pressa, evitando olhar pra ele como se o simples contato visual fosse suficiente pra fazer ela desistir da decisão que ainda nem tinha conseguido formular direito.
— Já vai fugir assim? — ele perguntou, a voz rouca, arrastada, carregada de um sono que não combinava com a intensidade da noite anterior.
Mariana soltou um suspiro curto, vestindo a camisa sem parar.
— Isso não pode acontecer de novo, Miguel. A gente sabe disso.
Ele se apoiou na cama, observando ela com mais atenção agora, o olhar já mais desperto, mais atento a cada palavra, a cada movimento.
— Ontem não parecia tão errado assim.
Ela virou na hora, o olhar carregado, mas sem levantar a voz.
— Ontem eu não tava pensando direito. Hoje eu tô.
Miguel levantou devagar, sem desviar o olhar, caminhando na direção dela com aquela calma que só deixava tudo mais tenso, mais difícil de ignorar.
— E o que você decidiu?
Mariana cruzou os braços, como se aquilo pudesse proteger ela de alguma coisa.
— Que isso não pode continuar. Você tem uma noiva, Miguel. E eu trabalho aqui. Isso já passou do limite faz tempo.
Ele parou na frente dela, perto o suficiente pra que ela sentisse o calor do corpo dele de novo, o que só tornava tudo mais confuso.
— E mesmo assim você não se arrepende.
Aquilo não foi uma pergunta.
Foi uma afirmação.
E ela não respondeu.
Porque não tinha resposta que resolvesse.
O silêncio entre eles se estendeu, pesado, cheio de coisas não ditas, até que o som distante de passos no corredor trouxe a realidade de volta de uma vez. Mariana se afastou na mesma hora, como se tivesse sido puxada de volta pro lugar dela, e passou a mão pelo cabelo, tentando se recompor rápido demais pra quem ainda estava completamente bagunçada por dentro.
— Eu preciso sair daqui antes que alguém veja — ela disse, mais pra si mesma do que pra ele.
Miguel observou, sem tentar impedir, mas claramente incomodado com a distância que ela estava criando.
— Você acha que isso vai resolver alguma coisa?
Ela pegou o avental que tinha ficado jogado na cadeira, segurando com força demais.
— Não. Mas ficar aqui também não vai.
Sem esperar resposta, ela saiu do quarto, o coração batendo rápido, cada passo no corredor parecendo mais alto do que deveria, como se qualquer porta pudesse se abrir a qualquer momento, como se qualquer olhar pudesse denunciar tudo. Quando finalmente chegou ao próprio quarto, fechou a porta atrás de si e encostou nela por alguns segundos, respirando fundo, tentando se recompor, mas sem conseguir afastar a sensação de que alguma coisa tinha mudado de forma irreversível.
O problema não era mais só o que tinha acontecido.
Era o que vinha depois.
E o depois chegou mais rápido do que ela esperava.
Algumas horas depois, já na cozinha, tentando se ocupar com qualquer coisa que mantivesse a cabeça longe demais, ela ouviu vozes na sala. Reconheceu a de Olívia na mesma hora, leve demais, controlada demais, como se nada tivesse abalado ela na noite anterior. Mariana sentiu o estômago revirar, mas continuou o que estava fazendo, fingindo normalidade, até que Miguel apareceu na porta.
O olhar dele encontrou o dela na mesma hora.
E ficou ali por um segundo a mais do que deveria.
— Preciso falar com você — ele disse, em um tom neutro o suficiente pra não levantar suspeitas.
Mariana limpou as mãos no pano, tentando ignorar o próprio nervosismo.
— Agora?
— Agora.
Ela assentiu, seguindo ele até um canto mais afastado da cozinha, onde o som da sala não chegava tão claro. O silêncio entre eles voltou, mas dessa vez era diferente, mais tenso, mais carregado de consequência.
— A Olívia quer que você ajude com algumas coisas hoje de novo — ele começou, mas logo desviou do assunto principal — mas não é isso.
Mariana cruzou os braços, já esperando.
— Então fala logo.
Miguel passou a mão pelo cabelo, claramente incomodado de um jeito que ela ainda não tinha visto.
— Ela comentou que achou você… diferente ontem.
O coração de Mariana falhou uma batida.
— Diferente como?
— Atenta demais. Presente demais. — Ele fez uma pausa, olhando direto pra ela. — Observando.
Mariana sentiu o corpo inteiro travar por um segundo.
— Ela tá desconfiada?
— Não — ele respondeu rápido — mas ela não é burra.
O silêncio que se formou foi pesado.
Real.
Perigoso.
— Então isso acabou — Mariana disse, mais firme agora, como se finalmente estivesse se convencendo. — Não é nem escolha mais.
Miguel não respondeu na hora.
Só ficou olhando pra ela.
E isso incomodou.
— Fala alguma coisa.
— Eu não vou fingir que concordo — ele disse, direto.
— Não é sobre concordar.
— É sobre querer.
Ela balançou a cabeça, já irritada.
— Querer não muda a realidade, Miguel.
Ele deu um passo mais perto, diminuindo a distância de novo, como se aquilo fosse um hábito que ele não conseguia quebrar.
— Mudou ontem.
Aquilo bateu.
Forte.
E ela odiou o efeito que teve.
Porque ele não estava errado.
E era justamente isso que tornava tudo mais difícil.
Mariana desviou o olhar, respirando fundo, tentando recuperar algum controle.
— Então a gente finge que não aconteceu.
— Você consegue?
A pergunta veio baixa.
Direta.
E ela demorou pra responder.
Porque a resposta… não era simples.
— Eu vou ter que conseguir.
Mas nem ela acreditou totalmente nisso.
E Miguel percebeu.
O que só tornava tudo mais perigoso.
Porque agora não era só segredo.
Era tensão constante.
Era desejo sem resolução.
Era o tipo de coisa que não desaparece.
Só cresce.
E uma hora…
explode.