É um incêndio. Tudo está em chamas. Salve o Denny...
Vá. Corra!
Mas é tarde demais.
As chamas estão muito próximas agora. Não há para onde escapar. As chamas lambem meus pés, consumindo-me por completo. Não consigo apagá-las. Não consigo mover nada. Meu corpo está escorregadio de suor. Está quente o suficiente para derreter minha pele dos ossos, e os gritos nos meus ouvidos parecem tão distantes até eu perceber que são os meus próprios.
Isso não é um incêndio. São eles.
"Harley! Que p***a é essa!? Harls, acorde!" Os gritos do Denny me tiraram do pesadelo, mas a dor, ela é real demais.
Esses bastardos. Ambos são lixo. Como pude ser amaldiçoada pela própria deusa a ponto de ter não apenas um, mas dois companheiros que dormem com qualquer um que apareça?
Meu corpo inteiro pesa uma tonelada métrica, e o fogo se espalhando pelas minhas veias é insuportável. Não importa quantas vezes isso aconteça, você nunca se acostuma. Não consigo impedir que os gritos saiam de mim enquanto cada centímetro do meu corpo é cozido em seus pecados.
"Harley, por favor, fale comigo! Me diga o que fazer!" Mas, infelizmente, seu tom suplicante não foi suficiente para afastar as chamas da minha pele.
Tenho certeza de que haverá bolhas toda vez que isso acontecer, mas é apenas a pele tatuada e macia com algumas cicatrizes de batalha deixadas para trás. E quando penso que acabou, volta novamente. As chamas sempre retornam. Um dia essas chamas vão me consumir por completo, e eu rezo para que, quando isso acontecer, elas também os destruam.
Deixo-me cair nas sombras. Em algum lugar ao longe, ainda há dor, mas sempre acabo sendo puxada para as partes mais escuras da minha mente, confortada pelo espírito do lobo que fui criada para ser. Audaz e bela. Sua pelagem espessa é n***a como a noite, e seus olhos são tão azuis gélidos que chega a ser pecaminoso. Envolvida em seu manto espesso, ela me conforta. A voz do Denny ainda está lá, junto com outra. Uma mulher, talvez? Entrego-me ao meu lobo, deixando-a lamber a pele que ainda queima com a fúria do inferno enquanto me aninho nela, passando os dedos por sua pelagem, sabendo que ela também sente dessa forma.
Então, aos poucos, as chamas se dissipam, e as sombras começam a se dissipar. Pisco para estabilizar minha visão turva, e meu corpo, ainda encharcado de suor, começa a se sentir móvel novamente. Sentei-me quando uma voz feminina suave me chamou.
"Bem-vinda de volta. Como você está se sentindo?" Ela parece carinhosa e gentil, mas não posso ser tocada agora. Afastei suas mãos, dizendo que estava bem. O medo evidente no rosto do Denny, e agora não tenho escolha senão ser sincera. Parcialmente, pelo menos.
"Den, olhe para mim. Estou bem... isso acontece o tempo todo. Já vi muitos médicos, e todos dizem a mesma coisa. Isso aconteceu porque eu não fui corajosa o suficiente para aceitar a rejeição do meu companheiro, e meu companheiro... bem... ele estava dormindo com outra pessoa." Forcei-me a manter contato visual para mostrar a ele que estava bem com essa situação até que pudesse consertá-la.
Sua expressão desvaneceu do medo, transformando-se em uma onda de raiva que me fez entender por que ele foi escolhido como Beta. Meu doce e emocional irmão mais velho é perigoso.
"Quem?" Seus olhos piscaram do azul gélido para o preto enquanto ele lutava com seu lobo pelo controle.
"Isso não importa, Den. Ele me rejeitou há muito tempo, e eu nunca tive coragem de aceitar. Então eu simplesmente fugi disso." Isso está sendo a coisa mais dolorosa de todas, mas suponho que seja a proximidade entre nós três.
Eles estão lá em cima, se divertindo com alguém.
"Claro que isso importa, Harley. Eu pensei que você estava morrendo, e então você me diz que isso acontece o tempo todo? Eu vou matar esse cara. Me dê o nome dele." Seu lobo estava tentando emergir, como se isso fosse fazer com que eu revelasse algo sobre a situação.
"Acalme-se, super Denny." Deixei um sorriso malicioso surgir em meus lábios.
"Troque de roupa. Vamos até aquela instalação de treinamento chique da qual você sempre se vangloria quando nos encontramos." Segurei seus cotovelos, fazendo-o se concentrar.
"Troque de roupa", disse novamente.
"Eu não posso deixar isso passar, Harley, mas dadas as circunstâncias, podemos deixar isso em segundo plano por enquanto. Podemos treinar com a matilha amanhã, mas são duas da manhã, e nenhum dinheiro do mundo vai me fazer ir para a academia agora." Sua risada acalmou um pouco meus nervos crescentes. Eu pensei que isso ia ficar feio até ele beijar minha testa e me deixar afundar enquanto o médico da matilha me examinava novamente.
"Não é da minha conta, Srta. Ashwood, no entanto, é minha opinião médica profissional dizer que essa rejeição não resolvida pode ser muito prejudicial para sua saúde. Os impactos mentais e físicos negativos que isso pode causar são vastos e pouco estudados." Ela colocou sua mãozinha fria em meu ombro, apertando-o suavemente.
"Aqui está meu cartão. Me ligue se precisar de algo." Sua bondade irradiava através dos meus músculos tensos, me relaxando um pouco.
"Obrigada, doutora. De verdade." Tentei lhe dar um sorriso sincero, mas falar sobre emoções não é o meu ponto forte.
Ela saiu, e assim que a porta fechou suavemente, Denny voltou com uma garrafa de água gelada para mim.
"Nos vemos de manhã, irmãzinha. Eu deveria ter te agradecido por ter vindo mais cedo, mas fiquei tão feliz em te ver que não queria estragar o clima... Fico feliz que você esteja aqui." Seus pés arrastaram como se ele estivesse nervoso, ou talvez ele quisesse me perguntar algo que não conseguia entender.
"Eu também te amo, Den. Vamos ficar bem. Podemos... resolver tudo isso. Nos ver mais. Vai ficar tudo bem." Seu sorriso jovial voltou, me fazendo relaxar ainda mais.
Esgotamento subitamente me dominou como uma febre da qual você não consegue se livrar. Ele apagou a luz, fechou a porta, deixando-me com meus pensamentos, e entre todas as coisas acontecendo, eu pensei na minha loba. Ainda podia sentir sua pelagem espessa passando pelos meus dedos. Isso é a única coisa boa sobre eles transarem com outras mulheres. Eu a vejo novamente, e é quase como um abraço para o meu cérebro toda vez.
Afundei na minha cama, caindo em um sono induzido pelo cansaço, consumido pelo calor da presença da minha loba que ainda estava fresca em minha mente.