Quantas pessoas ao redor do mundo vivem a parte triste de um conto de fadas?
Encaro o jornal em minhas mãos e mordo o canto de minha bochecha, segurando o choro enquanto as palavras de meu irmão vêm à minha cabeça...
"—Você nasceu, Elouisa! Esse foi o problema.
Ele fala e se aproxima de mamãe, dando um beijo em sua bochecha e o sorriso de minha irmã é puro sarcasmo."
Amasso o papel e jogo-o na lixeira!
—Não ouse derramar uma única lágrima por eles, Elouisa!
Falo pra mim mesma, indo até a janela e abrindo a mesma, deixando o ar gelado do inverno Europeu invadir o apartamento e gelar meu rosto.
Não foi fácil recomeçar minha vida, acredito que a parte mais difícil foi acreditar que eu merecia algo a mais... Mais difícil ainda, foi aprender a me amar quando nunca recebi o amor.
Respiro fundo e olho pra lixeira.
Mas eu consegui! Não tive uma fada madrinha, muito menos uma carruagem que me levou até meu príncipe! Eu sai sozinha, com alguns trocados que havia guardado e duas bagagens pequenas. Não tinha para onde ir, mas segui em frente, sem nunca olhar pra trás.
Mas quem manda nos pensamentos?
Quando a amável e simpática família Jones aparece nos jornais e revistas, não consigo evitar os pensamentos de como seria minha vida, caso eu tivesse sido desejada e amada por eles.
Balanço minha cabeça.
Não vale a pena ficar remoendo esse passado! Não vale a pena ficar imaginando como teria sido. Se não foi, nunca será.
Quando decidi ir embora, decidi que nunca mais deixaria ninguém me humilhar. Comecei a escrever minha própria história, onde eu sou a protagonista e tudo que eu quero, é viver aquilo que tenho o direito!
E tem sido assim desde o primeiro momento, comecei trabalhando como garçonete em uma lanchonete pequena. Aos fins de semana, me jogava na noite e curtia a vida como se o amanhã nunca fosse chegar. Bebi, dancei, beijei e transei muito!
Minha vida era eu, por eu mesma! Nada de compromissos ou esse negócio de se apegar a alguém. Até eu conhecer Briana.
Comecei a trabalhar como auxiliar de cozinha em um conhecido e importante restaurante inglês. No início, Briana trabalhava como auxiliar comigo e logo depois, passou a ser uma das chefes. A melhor chefe do local, devo confessar. Assim começamos nossa amizade e todos os meus planos de não me apegar foi por água a baixo, quando ela se tornou a irmã que eu nunca tive.
Sorrio ao pensar nela.
Briana foi a melhor coisa que já aconteceu na minha vida.
E eu faria qualquer coisa por ela, assim como sei que ela faria por mim.
Com ela, eu consegui entender o que sempre ouvi falar.
Família, vai muito além do sangue. Família é coração!
[....]
Um tempo depois...
Curtimos muito nossa vida de solteiras na Europa e descobri que viver sozinha e feliz é bom, mas ter uma amiga pra dividir as noites, bebidas, risadas e crises existenciais, é muito melhor.
Entre nossas noites de farra, bebidas e trabalho, conhecemos Harry um jovem bonito que começou a trabalhar de garçom no restaurante onde a gente trabalhava.
Em um primeiro momento, percebendo os olhares nada disfarçados dele para minha amiga, super apoiei e incentivei Bri a se jogar na curtição com ele.
Mal sabíamos nós que ele era um tremendo filho da p**a*.
Depois que Briana ficou com ele a primeira vez, ela já deveria tê-lo deixado de lado, mas não sei o por que, ela não conseguia fazer isso.
Vi com meus próprios olhos, minha linda e alegre amiga ir se deixando de lado por causa de um cara que sequer conseguia conquista-lá com um beijo.
Mas quem manda no destino, não é mesmo?
Quando ela finalmente criou coragem de meter um belo pé na b***a, daquele i****a, ele não contente em empacar meses da vida dela com beijos chochos, ainda despedaçou minha amiga.
Suspiro, me levantando e indo até a sacada da enorme mansão da família Nunes e olho para a escuridão lá fora.
Os últimos dias não foram fáceis.
Acordar e descobrir que junto de Briana, fui drogada e estrupada, por dois idiotas, me deixou sem reação.
Mas, ainda mais difícil foi ver ela se apagar, na frente de meus olhos. A menina doce e sorridente, se apagou.
É claro que eu sofri com tudo isso, mas eu já estou vacinada contra a falta de amor da humanidade. Eu consigo disfarçar todas as minhas dores e consigo sobreviver a todas as feridas. Mas Briana, com a família maravilhosa com quem cresceu, ainda não conhecia o m*l da humanidade... Por isso, guardei toda a dor que sentia e segurei em sua mão. A parte mais difícil foi contar tudo que aconteceu para os seus pais, por diversas vezes eu acreditei que Thiago iria sair daquela sala e espancar o primeiro ser humano que cruzasse seu caminho -bom, não duvido que isso tenha acontecido- mas antes de ele fazer isso, ele fez algo que me deixou emocionada e aqueceu meu coração. Eu não senti inveja, ou mesmo ciúmes, porque o mesmo amor, foi entregue a mim.
Thiago a pegou no colo e a acolheu, abraçou, deu amor!
Amor de pai.
Amor de mãe.
Amor de família.
E tudo isso, já era o suficiente para amar as pessoas que eles eram. O amor genuíno que me entregaram, estranhamente me fez sentir em casa.
Se Briana me deu o amor de irmã.... Pela primeira vez na vida, ali naquela sala, eu senti o que era receber amor de uma... Família!