04

1704 Words
04 — Henrique Narrando Depois daquele surto da Alessandra, em vez de pisar no freio, eu acelerei. Consegui o número da Mariana direto com a dona da loja. Chamei no w******p na mesma noite, sem perder tempo. No começo, ela deu uma segurada, bancando a difícil: — Henrique, você é um homem casado. Não quero confusão para o meu lado, ainda mais com o dono do morro. Foi aí que eu entrei com aquele papo clássico que todo homem manda quando quer conquistar uma mulher: — Casado no papel, Mariana. Meu casamento já acabou faz tempo, a gente só mora sob o mesmo teto por comodidade. Não tem mais nada ali. Já estou resolvendo minha vida para me separar de vez, é só uma questão de tempo. Ela tentava me dar um gelo, mas eu sabia trabalhar. Comecei o cerco. Se dava meio-dia, eu mandava entregar o melhor almoço do restaurante mais caro da região lá na loja para ela. No meio da tarde, chegava um buquê gigante de flores com um bilhete sem assinatura, só para deixar as outras vendedoras morrendo de inveja e ela com o ego nas alturas. Mandar dinheiro ou presente caro era fácil para mim, mas o segredo foi dar atenção. Eu passava horas no telefone conversando com ela, elogiando, fazendo ela se sentir a mulher mais especial do mundo. Fui amolecendo a postura de durona dela aos poucos. Não demorou muito para ela ceder. O primeiro encontro escondido aconteceu, a química entre a gente foi uma parada absurda, e a partir dali a Mariana caiu de cabeça no meu papo. Ela realmente acreditou que eu era o homem que ia tirar ela daquela vida de correria e dar um império de presente. A gente se envolveu de um jeito que não tinha mais volta. Como a Mariana tinha um cagaço tremendo de a Alessandra descobrir e querer arrumar confusão com ela dentro do morro, os nossos encontros eram todos do lado de fora. A gente ia para os melhores hotéis e motéis da Zona Sul, passava noites inteiras juntos, comendo do bom e do melhor e vivendo aquela adrenalina de caso escondido. Nessa época, ela me contou que tinha uma filha pequena. Para mim? Tanto fazia. Não mudava absolutamente nada na minha vida. Eu não ia bancar o pai da criança, a garota morava com a avó bem longe do meu caminho, e o meu interesse era 100% na Mariana. Para falar a verdade, nem prestei atenção no nome da garota. Só que segredo em favela tem prazo de validade curto. A Alessandra começou a juntar as peças, pegou rastro de mensagem e descobriu tudo. Em vez de vir falar comigo, ela preferiu ir direto ao ponto: desceu até a loja de roupas no meio do expediente, cega de raiva. O barraco foi feio. A Alessandra entrou surtada, xingando a Mariana de tudo quanto é nome e meteu a mão na cara dela no meio de todo mundo, com cliente e funcionária olhando. Quando fiquei sabendo, mandei segurar a Alessandra na hora, mas o estrago já estava feito. A Mariana me ligou possessa, espumando de ódio, chorando e me colocando contra a parede como ninguém nunca tinha tido coragem de fazer: — Chega, Henrique! Eu não sou vagabunda para levar tapa na cara de mulher sua em praça pública! — ela gritou no telefone, a voz trêmula de raiva. — Ou você resolve essa p***a agora, bota essa mulher para fora da sua casa e me assume de vez, ou você pode esquecer que eu existo! Não me procura mais! Ali eu vi que não tinha mais como empurrar com a barriga. O jogo tinha virado, e eu precisei tomar a decisão que mudaria o rumo de tudo na Rocinha. Eu não era homem de ficar levando enquadro de mulher, mas o ultraje da Mariana com aquele tapa na cara me mostrou que ela não era do tipo que aceitava posição de segunda opção por muito tempo. E, para ser sincero, meu casamento com a Alessandra já tinha virado um defunto em decomposição. Era hora de enterrar logo. Cheguei em casa naquela mesma noite, olhei para a Alessandra e fui direto ao ponto, sem enrolação e sem espaço para melodrama: — Arruma tuas coisas. O nosso ciclo aqui acabou. Ela chorou, gritou, disse que eu estava trocando anos de história por uma vendedora qualquer, mas eu mantive a cabeça fria. Separei uma grana preta, dei um apartamento bacana na pista e fiz o acerto para ela ir viver a vida dela bem longe da Rocinha, sem passar necessidade. No crime, a palavra dada tem que ter peso. Resolver na conversa e no dinheiro é sempre melhor do que criar inimizade desnecessária. Na semana seguinte, a Mariana já estava subindo o morro de mudança. Trouxe a mulher para a minha casa, fiz dela a primeira-dama do lugar e mudei a realidade dela de cabeça para baixo. Ela nunca mais pisou naquela antiga loja como empregada. Fui lá, comprei o ponto mais valorizado do miolo da favela, mandei fazer uma reforma de alto padrão, com fachada de vidro, iluminação chique e estoque de grife, e passei o negócio inteiro para o nome dela. — Agora você não atende mais ninguém, Mariana. Você é a dona — falei no dia em que entreguei a chave na mão dela. Ela ficou encantada. A vida de perrengue, de ônibus cheio e de bater cartão tinha ficado para trás. Ela tinha o homem mais poderoso do morro do lado, dinheiro na conta sem limite e o status que sempre sonhou. O único detalhe que ela deixou muito claro, logo nos primeiros dias de convivência, foi sobre a garota: — Henrique, a minha mãe vai continuar com a Malu lá embaixo. A menina já tá acostumada lá, e aqui não é lugar para criança crescer. É melhor assim para todo mundo. Para mim? Perfeito. Eu não queria choro de criança dentro de casa, e a Mariana parecia mais do que satisfeita em viver aquela vida de casal sem o peso da maternidade nas costas. Ela mandava Pix para a mãe dela quase todo dia, garantia o luxo da garota à distância e fingia que a rotina de mãe nunca tinha existido. O arranjo durou anos. Um império perfeito, uma casa tranquila e a Mariana totalmente adaptada à mordomia de ser a minha mulher. Nas poucas vezes em que a Mariana cismava de trazer a garota para passar o fim de semana aqui no morro, a visita durava menos do que um fósforo aceso. O motivo? O ciúme doentio e a paranoia da Mariana. Ela tinha um pavor absurdo de me deixar sozinho pela favela, de eu descer para a pista sem ela ou de ir para o baile e encontrar outra mulher. A cabeça dela pirava com a ideia de me deixar solto. Então, o afeto materno durava no máximo três horas; ela dava um lanche para a garota, fazia uma média rasa e corria para levar a menina de volta para a casa da avó, só para garantir que estaria colada no meu pé quando a noite caísse. Eu só observava essa palhaçada de longe, sem me meter. Até que num sábado, dia de baile grande na Rocinha, o clima azedou de vez. A Mariana tinha trazido a garota na parte da tarde. A menina devia ter uns doze ou treze anos na época, quieta num canto da sala, mexendo no celular enquanto a mãe andava de um lado para o outro na casa, roendo as unhas e olhando o relógio a cada cinco minutos. A noite foi chegando, o som do baile começou a ecoar do alto da comunidade, e eu comecei a me arrumar. Coloquei minha corrente pesada de ouro, passei o perfume, ajeitei a arma na cintura e me preparei para descer com os moleques da contenção. Quando a Mariana me viu pronto na porta do quarto, travou os dentes e cruzou os braços: — Aonde você pensa que vai, Henrique? — ela disparou, com o tom de voz alterado. — Como assim aonde eu vou, Mariana? Hoje é dia de baile, p***a. Tenho que marcar presença lá em cima, alinhar uns negócios com o pessoal e curtir a minha noite. — Você não vai para baile nenhum hoje! — ela gritou, vindo na minha direção e apontando o dedo. — A minha filha tá aqui dentro! Eu trouxe a menina para passar o fim de semana comigo, e você vai ficar em casa fazendo companhia para a gente! Olhei para a cara dela, surpreso com a audácia, e soltei uma risada debochada, balançando a cabeça. — Eu? Ficar em casa? — dei um passo à frente, olhando bem fundo nos olhos verdes dela. — Tu tá maluca, loira? Eu vou sim, e é agora. Quem vai ficar em casa é tu, pô. Eu não tenho filho, não. A filha é tua, o compromisso é teu. Eu tenho o meu morro para rodar. A cara da Mariana transfigurou de pura raiva. O desespero de me imaginar no baile sem ela, cercado de mulher querendo atenção, falou muito mais alto do que a vontade de passar tempo com a própria filha. — Ah, é assim?! — ela esbravejou, jogando as mãos para o alto, completamente possessa. — Você é um insensível mesmo! Pois fica sabendo que eu não vou ficar mofando aqui enquanto você se diverte na rua! Ela saiu pisando fundo pelo corredor, entrou na sala e pegou a garota pelo braço, arrancando a menina do sofá sem o menor cuidado. — Junta tuas coisas agora, Maria Luísa! A gente vai embora! Vou te levar de volta para a casa da sua avó agora mesmo! A menina nem entendeu nada, só pegou a mochila assustada. Em menos de vinte minutos, a Mariana já tinha colocado a garota dentro do carro e descido o morro às pressas, abrindo mão do fim de semana com a filha só para voltar a tempo de ir atrás de mim no baile e vigiar cada passo meu. Ali ficou claro: a prioridade da Mariana nunca foi ser mãe. A prioridade dela sempre foi a coroa de primeira-dama do morro e o medo de perder o posto.
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