05

1318 Words
05 — Malu Narrando Assim que a tempestade pelo telefone passou e eu desliguei na cara dela, a adrenalina começou a baixar e a ficha caiu. Minha mãe que se danasse com a raiva dela, mas a minha avó... o meu peito apertou num nível que me deixou tonta. Diferente da mulher que me colocou no mundo, pela minha avó eu tinha um amor visceral, um respeito que vinha do fundo da alma. Ela era a minha verdadeira mãe, a pessoa que segurou todos os meus rojões. Juntei minhas coisas na casa do garoto num piscar de olhos. Peguei minha bolsa, m*l me despedi dele e saí praticamente correndo para a rua. Peguei o primeiro aplicativo que apareceu e passei a corrida inteira roendo as unhas, olhando a pista, rezando para chegar logo. Quando passei pelo portão de casa e vi a minha avó sentada na mesa da cozinha, com a cara abatida, os olhos vermelhos e aquele olhar de decepção estampada, o meu coração se despedaçou em mil pedacinhos. — Vó... — chamei baixinho, correndo até ela e me ajoelhando ao lado da cadeira dela, pegando as mãos enrugadas da velhinha entre as minhas. — Vó, pelo amor de Deus, me perdoa. Me perdoa mesmo, eu juro que não fiz por m*l! A minha voz saiu trêmula, a garganta travada de vontade de chorar. — A senhora sabe que eu te amo mais do que tudo nessa vida, vó. Eu jamais, em tempo algum, faria qualquer coisa para deixar a senhora preocupada ou magoada de propósito. A senhora sempre cuidou de mim, sempre me deu tudo... O que aconteceu foi que eu bebi demais, me deu um apagão e eu dormi. Dormi pesado mesmo, perdi a hora, o celular descarregou... Não foi porque eu quis te desrespeitar, juro! A minha avó puxou as mãos das minhas, respirando fundo, com o semblante fechado de pura raiva e cansaço. — Não vem com essa conversa fiada para cima de mim, Maria Luísa! — ela disparou, batendo a mão na mesa, a voz firme apesar da idade. — Você tá muito abusada! Acha que só porque fez dezoito anos pode pisar e maltratar o meu coração dessa forma? Eu passei a noite em claro, achando que tinham te matado, que você estava jogada em um hospital! Depois que você conheceu esse garoto de rua, você virou outra pessoa! Perdeu o rumo, perdeu a vergonha! Ela continuou esbravejando, desabafando tudo o que tinha guardado no peito, a voz embargada pela mágoa de ter passado a noite inteira em desespero. E eu? Eu não disse uma única palavra. Com a minha mãe eu era o próprio demônio em forma de deboche, mas para a minha avó eu abaixava a cabeça. Fiquei ali, de joelhos no chão, engolindo seco e ouvindo cada bronca, cada grito e cada palavra dura sem responder absolutamente nada. Aceitei o castigo em silêncio, porque sabia que, por mais que a minha mágoa contra a minha mãe me fizesse agir feito louca, a minha avó não tinha culpa do monstro de ressentimento em que eu estava me tornando. Eu continuei ali, ajoelhada, até o choro da minha avó cessar. Puxei as mãos dela de volta, enchi o rosto enrugado dela de beijos e a abracei apertado, pedindo mil desculpas até sentir o corpo dela relaxar. Eu a amava mais do que tudo, e a última coisa que queria era ver aquela velhinha sofrendo por minha causa. Só que o sentimento de culpa não dura para sempre quando você tem dezoito anos e uma raiva incubada queimando no peito. No final de semana seguinte, a história voltou a se repetir. Eu já estava no meu quarto, parada na frente do espelho, ajeitando um cropped justo, passando perfume e ajeitando o cabelo para encontrar o mesmo garoto. O clima em casa já estava tenso, mas azedou de vez quando a minha avó parou na porta do meu quarto, encostou no batente e me olhou de cima a baixo com o rosto fechado. — Você vai sair com esse menino de novo, Maria Luísa? — ela começou, com o tom carregado de indignação. — Não é possível! Você não aprendeu nada com o susto da semana passada? — Ah, vó, pelo amor de Deus... — resmunguei, pegando o meu batom na penteadeira e tentando não encarar o olhar dela. — Não começa a encher meu saco logo agora, por favor. Eu só vou dar uma volta. — Vou encher o seu saco sim! — ela elevou a voz, dando dois passos para dentro do quarto e batendo o pé. — Esse garoto não é boa influência para você, escuta o que eu tô te falando! Eu já rodei muito nessa vida, Maria Luísa, sei exatamente quem presta e quem não presta. Esse garoto não quer nada com nada, e você tá indo pelo mesmo caminho torto! — Vó, ele é só meu amigo, a gente só tá se divertindo! — Divertindo?! — ela esbravejou, jogando as mãos para o alto, sem parar de falar um segundo sequer na minha cabeça. — E você vai dormir fora de novo? Vai sumir o final de semana inteiro, encher a cara de bebida e sabe Deus mais o que fazendo com esse garoto por aí? Eu não gosto dele, não confio nele e não quero você andando com esse tipo de gente! Você tá virando uma irresponsável, uma debochada que não respeita mais essa casa! Ela falava, falava e disparava palavras sem parar, a voz ecoando pelas paredes do quarto. E pela primeira vez na vida, em vez de abaixar a cabeça e engolir em silêncio como sempre fiz, eu senti a minha paciência escorrer pelo ralo, impulsionada pela vontade louca de me libertar de qualquer rédea. A minha avó continuou disparando mil avisos, a voz dela já embargada pelo cansaço e pela raiva, mas naquele momento o meu peito era só blindagem. Passei o batom vermelho, dei uma última olhada no espelho e peguei minha bolsa. — Tá bom, vó. Até mais tarde — soltei com a voz mais calma e debochada do mundo. Me aproximei, curvei o corpo e dei um beijo rápido no topo da cabeça dela, sentindo o cheiro de sabonete antigo que ela sempre tinha. — Não precisa me esperar acordada, tá? Não gasta sua saúde comigo. Me virei e saí andando pelo corredor, balançando aquele meu cabelo loiro longo até a cintura, fazendo salto estalar no piso. Minha roupa não deixava espaço para imaginação: uma saia bem curta, o cropped colado e a certeza absoluta de que eu queria sim chutar o balde, provocar e viver sem teto ou rédea. Ouvi o portão bater atrás de mim enquanto a minha avó gritava meu nome da janela, mas nem olhei para trás. A noite virou um borrão rápido. Fui para um pagode, me acabei na bebida, dancei como se o amanhã não existisse e, quando a madrugada bateu, terminei direto num motel da Zona Sul com aquele garoto. O quarto era escuro, com espelho no teto e ar-condicionado no gelado. Eu já estava alta, com a cabeça leve por conta do álcool, e foi aí que ele puxou um saquinho do bolso da calça, jogando na mesa de cabeceira. — Toma aqui, Malu... Experimenta um pouco. Vai te deixar mais ligada, no topo do mundo — ele disse, com aquela voz mansinha de quem sabe exatamente como induzir. Eu sabia que aquilo era o limite que a minha avó mais temia que eu cruzasse. Sabia que era o passo sem volta. Mas a raiva pela minha mãe, a sensação de ser rejeitada a vida inteira e aquele desejo de provar que eu fazia o que queria da minha própria vida falaram mais alto. Olhei para a cara dele, dei um sorriso torto e aceitei. Eu estava afundando, e o pior de tudo é que eu estava achando graça do buraco.
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