capítulo 1
O cheiro de tinta óleo e terebintina era a primeira coisa a saudar Yves Gaspard todos os dias antes mesmo de abrir os olhos.
Morando em um apartamento amplo de teto alto situado logo acima de sua própria galeria de arte, no coração pulsante da cidade, ela havia transformado aquele espaço em um verdadeiro santuário.
Aos trinta anos, aprendeu com a vivência que o silêncio da manhã trazia a paz que nenhum diálogo forçado conseguiria proporcionar.
A luz dourada da alvorada filtrava-se pelas enormes janelas de vidro encurvado, desenhando retângulos luminosos sobre o piso de madeira clara.
Ela se levantou devagar, vestiu um robe leve de seda e caminhou até a varanda balcão que dava vista para as ruas ainda calmas.
O café fumegava na caneca de cerâmica artesanal enquanto seus olhos passeavam pela vista urbana.
Ali estava uma mulher que construíra o próprio império com talento, perspicácia e um olhar estético impecável.
A Galeria Gaspard não era apenas um negócio altamente bem-sucedido; era a extensão viva de sua essência, um refúgio de renome para artistas talentosos e colecionadores exigentes de várias partes do país.
Entretanto, por trás da postura altiva e da elegância natural, existia uma cicatriz invisível.
Três anos antes, Yves acreditava ter encontrado a parceria perfeita. O término de seu último relacionamento não ocorreu com grandes escândalos teatrais, mas com a lenta e dolorosa degradação do respeito mútuo.
Ela se vira gradativamente reduzida a um papel secundário na vida de alguém que tentou moldar seus desejos, apagar sua luz própria e diminuir a relevância de suas conquistas profissionais.
O processo de separação fora desgastante, arrancando dela a ingenuidade e deixando em seu lugar um escudo aparentemente impenetrável.
Desde então, fechou as portas para qualquer ilusão de romance. Para Yves, o amor deixou de ser um sonho poético e passou a ser encarado como uma armadilha previsível e desgastante.
Descendo a escada em caracol que ligava sua residência privada ao salão principal da galeria, Yves deu início ao seu ritual matinal.
Desativou o sistema de alarme, acendeu os spots direcionais de iluminação e conferiu a disposição das obras da nova exposição temporária.
Cada pintura pendurada na parede contava uma história de entrega e vulnerabilidade, algo que ela admirava profundamente nos quadros, mas repudiava categoricamente em sua própria rotina.
Enquanto ajustava com precisão a moldura de uma tela em tons profundos de azul e âmbar, o sino sobre a porta de entrada tocou suavemente.
Era Helena, sua assistente e amiga mais próxima, carregando duas embalagens de papel com pães doces frescos da confeitaria vizinha.
As duas dividiam o dia a dia da galeria há mais de quatro anos, e a cumplicidade entre elas transcendia em muito as obrigações do trabalho.
Helena— Bom dia para a galerista mais dedicada da cidade
cumprimentou Helena, deixando as embalagens sobre o balcão de atendimento feito em mármore escuro.
Helena— Vi a luz acesa lá em cima cedo. Dormiu bem ou passou a noite repensando o catálogo do mês?
Yves— Dormi o suficiente
respondeu Yves com um sorriso contido, aproximando-se da amiga.
Yves— O catálogo já está finalizado. Só preciso alinhar a iluminação das peças do fundo do salão. O colecionador de Paris confirmou a visita para as duas da tarde.
Helena observou Yves com carinho e uma leve pitada de preocupação. Conhecia a amiga no fundo da alma.
Vira de perto o estrago emocional provocado pelo antigo parceiro e admirava a força incrível com que a jovem reergueu sua vida pessoal e financeira.
No entanto, incomodava-se ao ver como Yves se isolava do mundo afetivo, usando a rotina frenética da galeria como uma fortaleza para afastar qualquer aproximação.
Helena— Você trabalha demais, sabia?
pontuou a assistente enquanto servia mais café nas xícaras.
Helena— Ontem à noite sua tia me ligou perguntando por você. Disse que tentou contato três vezes sem sucesso.
Yves suspirou levemente, pegando a caneca. A família era um capítulo delicado.
Embora pequena, a convivência familiar era repleta de expectativas e cobranças veladas.
Suas conquistas profissionais eram sempre celebradas, mas invariavelmente vinham acompanhadas por comentários sutis sobre a ausência de um parceiro.
Yves— Eu sei. Vou retornar a ligação no horário do almoço
disse Yves.
Yves— Já até imagino a pauta da conversa: o filho de algum conhecido que ficou solteiro recentemente ou o jantar de domingo onde vão tentar me apresentar alguém por coincidência.
Helena— Eles só se preocupam com o seu futuro, Yves. Querem ver você feliz e compartilhando a vida
comentou Helena de forma suave.
Yves— Eu sou feliz, Helena
afirmou ela com convicção e firmeza no olhar.
Yves— Olhe ao nosso redor. Criei tudo isso do zero. Minha vida tem estabilidade, paz e um propósito claro. Não preciso de sobressaltos, cobranças ou promessas vazias. Já passei da fase de acreditar que preciso de alguém ao lado para me sentir completa ou realizada.
A assistente optou por não insistir, sabendo que rebater a determinação de Yves era em vão.
O dia seguiu em um ritmo produtivo e dinâmico. A Galeria Gaspard recebeu críticos renomados, compradores de grande porte e amantes das artes.
Yves movia-se pelo ambiente com uma maestria única. Explicava a história por trás de cada pintura, a técnica detalhada das pinceladas e a carga emocional contida nas paletas de cores com um entusiasmo contagiante.
Quando o assunto era a arte, seus olhos brilhavam e sua presença dominava todo o espaço.
Ela vivia daquilo; a arte era sua linguagem mais sincera, o lugar onde a dor podia ser convertida em beleza sem a necessidade de dar explicações a ninguém.
Por volta das quatro da tarde, a ligação para a tia foi realizada. Como Yves já havia previsto, o diálogo seguiu o roteiro de sempre.
A voz carinhosa da parente tentava disfarçar a inquietação ao ver uma mulher de trinta anos dedicada exclusivamente a telas, esculturas e negócios.
Tia— Minha querida, você precisa se permitir sair mais, conhecer pessoas novas
insistia a tia pelo telefone.
Tia— A vida não pode ser feita apenas de quadros e compromissos profissionais. O tempo passa rápido, e você merece viver um sentimento verdadeiro outra vez.
Yves— Tia, minha vida está exatamente como eu quero
respondeu Yves pacientemente enquanto folheava o catálogo de um leilão internacional.
Yves— Meu foco absoluto agora é a expansão da galeria e a viagem de pesquisa no final do mês. A arte preenche a minha rotina por inteiro.
Tia— A arte é maravilhosa, Yves, mas ela não segura a sua mão nos dias difíceis
rebateu a senhora amorosamente antes de se despedir.As palavras da tia ressoaram pelo escritório silencioso por alguns instantes.
Yves encarou seu reflexo no vidro da janela. O receio de se machucar novamente agia como um freio invisível.
As memórias do passado a ensinaram que a entrega emocional trazia vulnerabilidade, e a vulnerabilidade resultava em perda de controle.
Ela lutara arduamente para reconquistar a autonomia da sua vida e não pretendia arriscá-la por nada neste mundo.
Ao anoitecer, após encerrar o expediente na galeria e se despedir de Helena, Yves optou por fazer uma caminhada a pé pelas ruas históricas da cidade.
O ar fresco da noite trazia um alívio bem-vindo após horas no ambiente climatizado.
Ela observava os casais caminhando pelas calçadas, as conversas animadas vindas das varandas dos restaurantes e a movimentação urbana.
Sentia-se uma espectadora distante daquela dinâmica afetiva, protegida por uma barreira transparente que ela mesma erguera e mantinha com orgulho.
De volta ao apartamento, dirigiu-se ao seu ateliê particular nos fundos do andar superior, um espaço reservado onde ela própria pintava, longe de olhares externos ou intenções comerciais.
Ali não havia pretensão de venda, apenas desabafo e expressão pessoal. Yves vestiu o avental manchado de tintas antigas, escolheu um pincel largo e encarou a tela em branco sobre o cavalete.
Com movimentos firmes e expressivos, começou a mesclar tons de azul noturno, cobre e dourado.
Cada pincelada carregava sua determinação, sua independência e a certeza de que seu mundo estava exatamente como deveria estar:
organizado, protegido e sob seu domínio absoluto.Pela primeira vez em muito tempo, Yves adormeceu com a sensação confortadora de controle, convicta de que seu coração permaneceria blindado para sempre.