O sol do fim de tarde começava a tingir os céus de Veneza com um dégradé espetacular de alaranjado, rosa e violeta, refletindo-se nas águas serenas do Canal Grande. As lâmpadas de iluminação pública em estilo vitoriano acendiam-se uma a uma, criando uma atmosfera romântica e quase mágica sobre as pontes de pedra. No entanto, no táxi aquático que cortava as águas em direção ao luxuoso hotel onde estavam hospedadas, o clima era de pura comédia dramática. Helena estava horrorizada. Não um horror trágico ou triste, mas aquele desespero teatral de quem acabou de testemunhar um crime inafetável contra as oportunidades do destino. Ela estava sentada no estofado de couro do barco, com as pernas esticadas, segurando os saltos altos em uma das mãos como se fossem troféus de uma guerra vencida

