capítulo 5

1308 Words
A manhã começou fria e enevoada, trazendo uma brisa úmida que fazia as folhas secas rolaresm pelas calçadas do distrito histórico. Yves chegou cedo à galeria, antes mesmo que o sol conseguisse romper o nevoeiro espesso sobre a cidade. O mistério que cercava o artista do elo entrelaçado tomara conta de seus pensamentos durante a noite inteira. A sensação de que havia um enigma vivo à espera de uma resposta gerava em seu peito uma inquietude desconhecida, porém estimulante. Ao abrir a porta principal, o som suave dos sinos de bronze anunciou sua entrada no salão silencioso. Yves nem sequer tirou o sobretudo escuro antes de caminhar diretamente para o escritório nos fundos. Ligou a luminária de metal e espalhou novamente as anotações feitas nas últimas doze horas. Havia algo naquelas peças redivivas e recompradas que não se encaixava no fluxo normal do mercado cultural. A recompra da obra da Villa Sereno por um valor astronômico era um ato de urgência, quase um resgate em desesperada discrição. Instantes depois, o telefone do escritório tocou. A vibração contínua quebrou o silêncio da sala. Yves estendeu a mão rapidamente e atendeu. Yves— Galeria Gaspard, Yves ao telefone. Do outro lado da linha, uma voz idosa e arrastada ecoou, acompanhada pelo crepitar característico de uma ligação internacional distante. Era Henri Mercier, um dos mais antigos curadores independentes de Genebra e uma lenda viva na restauração de acervos privados. Henri— Yves, minha querida disse o velho curador, o tom pausado de quem carrega décadas de segredos do mercado. Henri— Recebi sua mensagem de madrugada sobre a marca no chassi de madeira. O elo entrelaçado. Yves ajeitou-se na cadeira, com o coração acelerando ligeiramente. Yves— Henri... Você conhece esse símbolo? Sabe de quem se trata? O homem soltou um suspiro pesado do outro lado da linha. O som metálico da respiração indicava que a resposta exigia prudência excessiva. Henri— Conheço o símbolo há mais de vinte anos, Yves, mas nunca vi o rosto de quem o desenha. Pouquíssimas pessoas no mundo sabem da existência dele, e as que sabem preferem manter a boca fechada por respeito ou por receio. Esse homem não é apenas um pintor habilidoso. Ele é uma lenda entre os grandes colecionadores do continente. Yves— Mas como alguém pode criar telas de tanta magnitude e permanecer invisível? questionou Yves, inclinando-se sobre a mesa. Yves — Tentei buscar registros de exibições, listas de presenças em galerias, catálogos antigos... Não existe nada. É como se ele não habitasse este mundo. Henri— E ele não habita o mesmo universo que nós, minha cara respondeu Henri com uma risada curta e sem humor. Henri— Ele não vende suas peças para obter prestígio social ou para figurar em colunas de jornais. As criações dele chegam às mãos certas por meio de um intermediário discreto na Suíça. Ele exige total anonimato de quem compra e, em troca, entrega telas que parecem carregar a própria alma do tempo. Mas escute com atenção: o fato de ele ter recomprado a tela dos Valmont muda tudo. Yves— Por quê? perguntou ela, mantendo o olhar fixo na reprodução do mar revolto. Henri— Porque ele jamais compra de volta o que colocou no mundo, a menos que uma promessa tenha sido quebrada. Há quatro décadas, aquela pintura foi entregue ao falecido marquês Valmont sob uma condição estrita: jamais ser leiloada ou exposta como um troféu comercial. Quando o espólio decidiu colocá-la na lista da galeria, a cláusula secreta foi ativada. Ele movimentou mundos e fundos para reaver a peça antes que o público pusesse as mãos nela. Yves ouvia cada palavra com máxima atenção. A história do artista ganhava contornos ainda mais profundos e dramáticos. Ele não era apenas um virtuoso recluso; era um homem de princípios implacáveis, fiel a juramentos do passado. Yves— Henri, preciso saber por onde começar. Não quero expor o artista para a imprensa, mas preciso entender quem ele é. A arte dele mexeu comigo de uma forma que não consigo ignorar. Houve uma longa pausa na linha. O velho curador parecia ponderar o risco de compartilhar a informação. Henri— Existe um ateliê de restauro desativado perto do porto antigo, numa ruela estreita atrás dos velhos armazéns de pedra. Foi lá que a tela dos Valmont permaneceu guardada por alguns dias nos anos noventa, quando precisou de reparos na moldura. O mestre restaurador já faleceu, mas o filho dele ainda mantém o acervo de registros em papel. Se existir alguma nota original sobre a madeira utilizada naquele chassi, estará lá. Mas vá sozinha, Yves. Ele não gosta de estranhos rondando o local. Yves— Obrigada, Henri. Devo essa a você disse Yves, anotando rapidamente o endereço antes de desligar.Quando Helena chegou à galeria às nove da manhã, encontrou Yves já de luvas e cachecol, pronta para sair novamente. A assistente olhou surpresa para a determinação nos olhos da curadora. Helena— Vai sair agora? Temos a reunião com os representantes do acervo da tarde lembrou Helena, ajeitando a agenda de compromissos sobre a recepção. Yves— Reorganize a agenda para o final da tarde, Helena. Preciso resolver um assunto pessoal e urgente na cidade alta respondeu Yves com firmeza. Yves— Fique com o telefone e me avise se qualquer documento novo da Suíça chegar. Sem esperar réplica, Yves deixou a galeria e caminhou em direção à parte antiga da cidade. O nevoeiro matinal começava a se dissipar, revealing ruas pavimentadas com pedras irregulares e fachadas seculares cobertas por hera. A região do porto antigo guardava uma atmosfera nostálgica, distante do brilho moderno dos centros comerciais. Após vinte minutos de caminhada por becos estreitos, Yves encontrou a ruela indicada por Henri. As paredes de pedra dos armazéns projetavam sombras longas. No número quarenta e dois, uma porta pesada de madeira de carvalho exibia uma placa desbotada de latão: Restauro e Conservação Artística,Família Mérode. Yves empurrou a porta de madeira, que rangeu suavemente. O aroma característico de verniz antigo, óleo de linhaça e madeira envelhecida invadiu seus sentidos de imediato. O ambiente interno era um labirinto de molduras douradas empilhadas, cavaletes cobertos por panos cruas e prateleiras repletas de frascos de vidro com pigmentos minerais em pó. No fundo da sala, iluminado por uma luminária amarelada, um homem de meia-idade examinava um painel de madeira com uma lupa de bancada. Ele ergueu os olhos e ajustou os óculos ao ouvir os passos de Yves. Homem— A oficina está fechada para novos recebimentos hoje avisou o homem com tom seco, mas cortês. Yves— Não vim trazer uma peça para restauro, senhor Mérode disse Yves, aproximando-se com calma e apresentando seu cartão de visitas da Galeria Gaspard. Yves— Fui enviada por Henri Mercier. Ele sugeriu que o senhor talvez pudesse me ajudar a consultar os registros históricos de sua família. O homem leu o nome impresso no cartão de relevo e seu olhar mudou gradativamente de desconfiança para um respeito contido. Ele pousou a lupa sobre a bancada e cruzou os braços. Homem— Henri é um amigo antigo do meu falecido pai. Se ele a enviou até aqui, sei que não se trata de uma curiosidade fútil. O que exatamente você procura, senhorita Gaspard? Yves— Procuro registros do início dos anos noventa relativos a uma restauração feita no chassi de uma obra do espólio Valmont. Uma tela sem assinatura visível na pintura, mas com um símbolo talhado na madeira: um elo entrelaçado. Ao ouvir a descrição do símbolo, o restaurador congelou por um instante. Ele olhou ao redor, como se verificasse se as paredes históricas podiam ouvir a conversa, e depois soltou um longo suspiro. Homem— Essa marca... Faz anos que ninguém menciona esse entalhe nesta sala murmurou o homem, caminhando até um arquivo de madeira de demolição ao fundo da oficina.
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