Capítulo. 07

1144 Words
“Ninguém pode ser feliz, olhando para dois caminhos, tendo dois amores..., porque temos um só coração.” — Andrea Taiyoo Bocejei, esticando os braços, tentando mexer um pouco as pernas enquanto colocava o jogo que estava jogando no modo automático. Peguei o celular e vi algumas mensagens da minha amiga Soraya. A gente trocava mensagens todos os dias, às vezes longas, às vezes curtas, mas sempre cheias de confidências. Na noite anterior, eu tinha contado para ela sobre o Ethan, sobre como ele tinha decidido aparecer na minha casa sem ser convidado. Já se sentia em casa demais, e eu precisava cortar as asas dele antes que fosse tarde demais. Mensagem com a Soraya ON — Bom dia, eu dormi — ela falou, e eu ri sozinha; ela tinha essa mania de sumir do nada, principalmente quando rolava alguma confusão ou briga e ela não queria se envolver. — Bom dia, imaginei que você estava dormindo. — Esse Ethan é uma comédia, né? — Sim, acredita que ele deixou de ir trabalhar para vir na minha casa me encher o saco? — Kkkkk, deve ser o lado bom de ser o próprio chefe. Você vai acabar se apaixonando por ele só pela insistência. — Eu não, rsrs. Mensagem com a Soraya OFF — Merda! — falou Ethan, me fazendo largar o celular para olhar para ele, que estava concentrado no notebook. — Que susto, maluco! — tentei tirar, sem sucesso, a cabeça dele da minha perna. — Se assustou porque estava falando com seu namorado? — perguntou, com tom zombeteiro, sabendo muito bem que eu conversava com Murilo. — Ele não é meu namorado, estava falando com minha amiga. — Se você diz... — O que você está fazendo? — tentei mudar de assunto, olhando para o notebook dele, tentando entender o que ele fazia. — Tentando descobrir onde estou errando no meu TCC. Em três meses, serei engenheiro mecânico. Lembra o que a cartomante falou? Que você ainda ia se casar com um engenheiro? — perguntou, me olhando com aquele olhar misto de brincadeira e curiosidade. Suspirei, tentando não rir daquelas “profecias” que a gente ouviu mais por diversão. Ethan tinha esse jeito de ser engraçado, insistente, mas, por mais que eu não quisesse admitir, aquela leveza fazia falta em minha rotina. — Bom, se a cartomante estiver certa, é melhor você caprichar nesse TCC — falei, cruzando os braços e tentando soar séria. Ele sorriu satisfeito, fechando o notebook com um gesto vitorioso. — E você, o que vai fazer hoje? — perguntou, curioso, me arrancando do pensamento. Olhei para o relógio e percebi que a tarde já estava quase acabando. — Vou dormir — falei, com um leve sorriso, fingindo que aquela era a resposta mais emocionante do mundo. Ethan deu uma risadinha, cruzando os braços. — Dormir? Você não vai me deixar tão fácil assim, né? Quero dizer, a gente poderia sair, fazer algo diferente, aproveitar a tarde. — Pensei um pouco e resolvi ceder dessa vez — falei, olhando para ele com um meio sorriso — Certo, vamos no bairro ao lado comprar um McDonald’s e comer no carro. Não tô afim de olhar para a cara de ninguém. Ele sorriu, satisfeito com a resposta. — Perfeito — falou, como se aquela fosse a melhor notícia do dia. Levantei-me e fui direto para o banho, sentindo o calor da água relaxar cada músculo tenso. A noite podia ser simples, mas talvez fosse exatamente o que eu precisava: comida rápida, uma companhia que eu podia controlar e um pouco de calma para organizar meus pensamentos. Enquanto a água escorria sobre a pele, meus pensamentos inevitavelmente foram para Murilo. As conversas guardadas no celular, a sensação estranha, doce e confusa que crescia dentro de mim, me lembravam da citação que tinha lido: estar dividida entre dois caminhos com um só coração. Era exatamente assim que eu me sentia. Levei uma batatinha à boca, olhando fixamente para meus pés apoiados no painel do carro. O som da cidade parecia distante, abafado pelas batidas aceleradas do meu próprio coração. — Elisa? — a voz de Ethan cortou o silêncio, suave, mas firme o suficiente para me fazer pular dos pensamentos. Pisquei duas vezes, voltando à realidade. — Desculpa, não te ouvi — murmurei, envergonhada. Ele me olhou por um instante antes de estender a mão e afastar delicadamente uma mecha do meu cabelo, colocando-a atrás da minha orelha. O toque foi gentil... quase insuportavelmente real. — Por que sempre que alguém demonstra sentimentos por você, você se afasta? — ele perguntou, mergulhando os olhos nos meus como se estivesse tentando decifrar uma linguagem secreta que só nós dois conhecíamos. Engoli em seco. Por mais que eu quisesse ser honesta, como poderia dizer que toda vez que alguém se aproxima, eu o excluo da minha vida? Não por maldade, mas por medo: medo de corresponder, medo de deixar alguém novo entrar e, com isso, apagar aos poucos o amor que ainda sinto pelo meu ex. E eu ainda não estava pronta para deixar isso pra trás. Não disse nada disso. Apenas desviei o olhar, respirei fundo e falei: — Vou jogar Ragnarok com meus amigos... você me leva pra casa? Ethan ficou em silêncio por alguns segundos, só observando meu rosto desviar o olhar. Ele parecia entender mais do que eu queria dizer, como se pudesse sentir o que eu nem sabia explicar direito. — Claro, eu te levo — respondeu finalmente, a voz suave, diferente da habitual provocação. Naquele momento, o som da cidade voltou a preencher o espaço entre nós, mas o que ficou foi um silêncio confortável, carregado de significado. Enquanto ele dirigia, meu coração acelerava e desacelerava em um ritmo confuso. Eu queria me abrir, contar tudo, mas parte de mim ainda erguia muros altos demais para derrubar. Talvez fosse uma questão de tempo, talvez fosse questão de coragem. Quando chegamos, Ethan parou o carro na minha rua, olhando para mim como se estivesse prestes a dizer algo importante. Respirei fundo, decidida a não fugir dessa conversa por mais tempo. — Ethan... — comecei, hesitante. Ele sorriu, encorajando. — Eu sei que não sou fácil de entender, e talvez nem eu saiba direito o que quero ainda. Mas eu gosto de você... só que sinto que não posso confiar 100% em você. Você me deixa insegura e eu não quero viver assim. Meu peito apertou. Não era só medo, era confusão, esperança e um turbilhão de sentimentos que eu ainda precisava decifrar. — Eu também gosto de você, e já disse que não tenho outras — ele respondeu baixinho, sincero. E ali, no silêncio da noite, enquanto as luzes da cidade piscavam lá fora, senti que, pela primeira vez em muito tempo, estava abrindo espaço para algo novo. Talvez não perfeito, talvez cheio de dúvidas, mas meu.
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