A confusão é o prelúdio da descoberta
— José Saramago
O celular vibrou na minha mão, e o nome “Murilo” apareceu na tela. Um sorriso involuntário brotou no meu rosto antes mesmo de eu atender.
— Oi — falei, meio sem jeito, sentindo uma pontada de ansiedade e expectativa misturadas.
— Oi, Elisa! Tudo bem? — a voz dele soava calma e familiar, como um porto seguro no meio do caos da minha rotina.
— Tudo sim... E você?
— Também. Foi um plantão puxado, mas sobrevivi — ele brincou, e eu ri, mesmo sabendo o quanto aqueles plantões eram cansativos e, muitas vezes, cruéis.
— Imagino... Como está se sentindo? — perguntei, querendo saber mais, mesmo sem ter certeza se queria realmente ouvir sobre a exaustão dele.
— Cansado, mas feliz por poder ajudar. E você? Como anda a sua vida?
— Confusa, para ser sincera. Tem muita coisa acontecendo — falei, percebendo que, aos poucos, a lembrança do meu ex ia se desfazendo, abrindo espaço para algo novo, ainda que incerto.
— Eu entendo... — ele disse, com aquela voz que sempre conseguia acalmar, como se estivesse colocando cada palavra no lugar certo dentro de mim.
— E você, Murilo? Tem alguém por aí mexendo com seu coração?
— Não no momento. Mas a gente nunca sabe quando o destino resolve surpreender, não é? — respondeu, com um riso contido que parecia um convite para o inesperado.
— É... Às vezes, a gente quer que o coração decida logo, só para ter um pouco de paz — falei, percebendo o quanto queria acreditar em algo tranquilo, sem complicações.
— Talvez o coração goste mesmo é do mistério — ele riu, e algo dentro de mim estremeceu, misturando curiosidade e expectativa.
Sorri, e por um instante quis acreditar que aquele mistério ainda podia ter um final feliz.
— Vou estar na sua cidade essa semana. O que acha da gente se encontrar? — ele perguntou, a voz carregada de uma mistura de esperança e nervosismo que me fez prender a respiração por alguns segundos.
Meu coração deu um salto, e fiquei sem resposta por alguns instantes, tentando organizar pensamentos e sentimentos confusos.
— Acho... que seria bom — respondi, tentando soar confiante, mas a sombra de Ethan apareceu na minha mente, como se quisesse me lembrar de que nem tudo estava tão simples. — Poderíamos sair para comer algo mais leve — acrescentei, tentando suavizar o convite, como se a leveza pudesse tornar tudo mais fácil.
Murilo ficou em silêncio por alguns segundos, talvez percebendo a hesitação na minha voz.
— Algo leve soa ótimo — ele respondeu com um sorriso que quase pude sentir através do telefone. — Sem pressa, sem pressão. Só a gente.
Sorri, sentindo o coração apertar de um jeito bom e assustador, como se estivesse prestes a abrir a porta para algo novo, desconhecido, mas promissor.
— Então está combinado — disse, e pela primeira vez em muito tempo, senti um entusiasmo tímido crescer dentro de mim.
O dia do encontro finalmente chegou. Murilo veio me buscar em casa para irmos juntos ao restaurante. Ele havia escolhido um lugar de sushi, mas meu problema era simples: eu só comia fritura. Detestava comida crua, e aquilo era uma preocupação interna que tentei não deixar transparecer. Não tinha falado nada com Ethan no dia anterior, nem naquele dia, e não senti necessidade; sentia que aquele momento era só meu e de Murilo.
Escolhi um vestido midi preto, simples, mas elegante, um salto alto confortável e uma bolsinha pequena. Soltei os cabelos, ondulados, deixando que caíssem naturalmente pelos ombros. Quando escutei o carro parar em frente à minha casa e a buzina soar, soube que era a hora: o momento de finalmente ver Murilo pessoalmente.
Meu coração acelerou, uma mistura de ansiedade, expectativa e curiosidade me dominando. Respirei fundo, peguei a bolsa e abri a porta, pronta para o que viesse.
Entrei no carro, e ele me recebeu com aquele sorriso tranquilo, que parecia capaz de acalmar qualquer nervosismo.
— Não tem uma faca nessa bolsa, né? — brincou, tentando quebrar o gelo, e eu ri da preocupação inesperada.
— Opis, esqueci de trazer — respondi, sorrindo de volta.
Ele riu, e então fez algo simples, mas que me fez sentir uma onda de calor subir pelo meu corpo: um beijo leve no rosto. Um gesto quase insignificante, mas que meu coração recebeu como se fosse um presente inesperado.
Ligou o carro e seguimos pela cidade, o ar condicionado suavizando a ansiedade que ainda insistia em permanecer. Murilo começou a contar sobre o dia no hospital, e eu ouvi fascinada.
— Hoje no hospital foi puxado — começou ele, olhando atentamente para a estrada. — Teve um paciente que não queria colaborar, estava irritado, cheio de medo. Aquelas situações deixam a gente cansado, mas é nesses momentos que temos que ser fortes, sabe?
Eu o observava, admirando a dedicação e a paixão com que falava de sua rotina, sem perder a humanidade em cada palavra.
— E tem dias que a gente se pergunta se o esforço vale mesmo a pena, né? — Murilo continuou. — Mas aí aparece um sorriso, um agradecimento sincero... e tudo faz sentido.
— Deve ser muito difícil lidar com tanta pressão — falei, sentindo um misto de respeito, admiração e curiosidade crescente.
— É, mas é também o que me motiva — disse ele, sorrindo. — Cada vida salva é uma vitória. E você? Como anda a sua rotina?
— Minha rotina anda corrida — respondi, olhando pela janela enquanto as luzes da cidade passavam rápido. — Trabalho no banco, são muitas horas, muita pressão. Às vezes, parece que o dia nunca acaba.
Murilo assentiu, compreensivo.
— Deve ser desgastante. E você consegue tempo para fazer o que gosta?
— Nem sempre, mas… ultimamente tenho pensado em começar faculdade de biomedicina. Quero algo que me desafie de verdade, sabe? Algo mais próximo do que realmente quero.
Ele sorriu, reconhecendo a sinceridade e o desejo em minhas palavras.
— Isso é incrível, Elisa. Você sempre soube o que queria, só precisava encontrar o caminho certo. A biomedicina vai ser um desafio e tanto, mas acho que você vai se sair muito bem.
— Na verdade, minhas irmãs sonham que eu vá para a biomedicina estética — falei, com um sorriso tímido. — Elas acham que combina comigo. Mas, para ser sincera, minha paixão mesmo é perfusão extracorpórea. É técnica, essencial, salva vidas diretamente.
Murilo mostrou interesse genuíno, admirando minha ambição.
— É uma área desafiadora, mas fundamental, principalmente em cirurgias cardíacas e transplantes. Não é todo mundo que se interessa por isso, é bom ver que você tem paixão pelo que faz.
— E eu também gosto de investigação forense — acrescentei, sorrindo. — Analisar evidências, montar quebra-cabeças de crimes, descobrir o que aconteceu é fascinante para mim.
Ele sorriu de maneira suave, apreciando a sinceridade.
— Investigação forense exige atenção e conhecimento detalhado. Faz sentido que você se interesse, combina com o olhar clínico e minucioso que a saúde exige.
O carro parou em frente ao restaurante, uma pequena casa aconchegante com luzes suaves. Murilo desligou o motor e olhou para mim pelo retrovisor, aquele sorriso calmo que já começava a me tranquilizar.
— Chegamos — disse, estendendo a mão para me ajudar a sair.
Peguei a mão dele, sentindo um calor subir pelo meu braço, misturado com ansiedade e expectativa. O aroma de comida japonesa já invadia o ar, e eu respirava fundo, tentando acalmar meu coração acelerado.
Entramos juntos, e o ambiente acolhedor fez meu nervosismo diminuir um pouco. Mesas de madeira, luz baixa, música calma, tudo criava o cenário perfeito para o que eu esperava ser uma noite especial.
Murilo segurou a porta e me conduziu até a mesa reservada. Sentamos lado a lado, e ele puxou a cadeira para que eu me acomodasse confortavelmente.
Enquanto o garçom nos entregava o cardápio, eu já sentia que aquela noite seria memorável. Pedi um temaki e um suco de laranja, enquanto ele escolheu pratos com comida crua, do jeito que gostava. A conversa fluía fácil, com risadas e silêncios confortáveis intercalados, e eu me sentia cada vez mais próxima dele, mesmo em poucas horas.
Depois de terminarmos, Murilo se ofereceu para me levar de volta para casa. A cidade passava lá fora, mas meu foco estava nele, naquela companhia que aos poucos se tornava importante.
Quando chegamos, Murilo estacionou e desligou o motor.
— Gostei muito da noite — disse, olhando para mim com sinceridade.
— Eu também — respondi, sem conseguir disfarçar o sorriso.
Ele se inclinou e me deu um beijo leve nos lábios. Fiquei sem jeito, mas retribuí, tímida, sentindo meu coração disparar.
— Até logo — falei, nervosa.
— Até — respondeu, com um olhar que parecia dizer “isso é só o começo”.
Fechei a porta e finalmente respirei normalmente, sentindo o calor daquele beijo e a confusão dentro de mim. Um turbilhão de sentimentos me dominava: expectativa, medo, desejo e esperança, tudo misturado, como se meu coração estivesse finalmente se abrindo para algo novo, sem saber ainda se seria perfeito, mas certamente meu.