JACKSON
A segunda sinfonia de Beethoven estourou no suporte da esteira ergométrica, fazendo-me desligar o aparelho subitamente, errar o passo e quase ir ao chão.
Inferno!
Tirei três segundos para me recompor e, enquanto segurava firme no aparelho de ginástica, fitei o celular, que exibia o alerta de uma inoportuna chamada de vídeo e a imagem da minha assistente executiva com o seu irritante sinal de coração coreano.
J: A Venturelli pegou fogo, Milena? - Forcei um tom equilibrado. - Milena?
Arqueei uma sobrancelha ao perceber os olhos estreitos concentrados na nudez do meu peito.
M: Ah, não, nada de... fogo. - Sacudiu a cabeça, como se estivesse recuperando a imagem familiar do homem cujo corpo estava sempre coberto por trajes de alfaiataria. — Eu que estou preocupada.
J: Algum imprevisto interno? - indaguei, sossegado quanto a isso, pois eu checava os canais de comunicação do grupo a cada cinco horas.
M: Está tudo certo na empresa, Victor, inclusive estou quase de saída. Acontece que passei aqui na cantina e fiquei sabendo que você agrediu um dos seguranças na quinta-feira e por motivo banal. Você viajou e não me deixou ciente...
J: Já resolvi a situação - interrompi. - Se for só isso, pode seguir seu caminho e descansar sossegada.
M: Você não acha melhor sondar o rapaz e eliminar qualquer brecha de escândalos ou...
J: Repito: tudo resolvido, Milena! Puxei a toalha do aparelho ao lado para secar o suor do meu rosto.
Não que fosse uma justificativa madura para ter quebrado o nariz do meu funcionário, mas acontece que os dias turvos estavam me fazendo perder o controle diante de situações rotineiras e isso mexia com o ego f**a que construí ao longo de trinta e sete anos.