capítulo 5

1105 Words
Mais tarde, Ana se arrumou como sempre fazia antes das apresentações. O espelho refletia a imagem dela com o vestido branco, leve, marcando a silhueta de forma elegante, o cabelo bem cuidado caindo em ondas pelos ombros. Ela respirou fundo, ajeitando os últimos detalhes antes de sair. A casa de shows já estava viva quando ela chegou. Luzes baixas, mesas ocupadas, vozes misturadas com música ambiente. Era aquele tipo de lugar onde a noite sempre parecia maior do que o dia. Quando subiu ao palco, o mundo pareceu diminuir. A luz focou nela. E Ana cantou. A voz dela preenchia o ambiente com uma suavidade firme, como se cada nota tivesse vida própria. Ela não sabia, mas naquela noite havia alguém diferente na plateia. Dom Mariano estava lá. Sentado em uma mesa mais afastada, parcialmente na sombra, observando em silêncio. O olhar dele não estava perdido no ambiente, estava preso nela, como se tudo ao redor tivesse perdido importância. Ele não deveria estar ali. Mas estava. E isso já dizia muito. Ao lado dele, um homem se aproximou, sentando sem cerimônia. Gabriel, o tipo de amigo que conhecia silêncio e caos na mesma medida. — Foi ela — Gabriel disse, já olhando pra Ana no palco. Mariano não desviou os olhos. — O quê? Gabriel inclinou levemente a cabeça. — A mulher que você tá olhando como se tivesse esquecido como pisca. Mariano soltou um riso baixo, sem humor. — Não fala besteira. — Então me explica — Gabriel continuou, mais sério — o que aconteceu com você. Mariano finalmente virou o olhar pra ele por um segundo. — Ela me levou pra casa dela. Gabriel ergueu a sobrancelha. — Tá. — Cuidou dos meus machucados. — Certo… — Me deu comida na boca. Gabriel ficou em silêncio por um instante. — Isso tá ficando estranho. Mariano continuou, ignorando. — Me deu banho… — ele pausou, como se aquilo ainda soasse surreal até pra ele — e ficou comigo. Sem medo. Sem saber quem eu era. Gabriel soltou uma risada curta. — E você fez o quê? O olhar de Mariano escureceu um pouco. — Eu pedi ela em casamento. Agora Gabriel ficou sério de verdade. — Você o quê? Mariano não respondeu de imediato. Voltou a olhar pra Ana no palco. — Eu não sei fingir que as coisas não me atingem. Gabriel passou a mão no rosto, exalando paciência. — Mariano… você precisa parar de ser assim. Você não pode simplesmente jogar tudo em cima de uma mulher que nem sabe quem você é. Ele riu baixo. — Você me conhece. Eu não deixo as coisas passarem. — Isso não é deixar passar — Gabriel respondeu — isso é atropelar. Mariano ficou em silêncio por alguns segundos, o olhar fixo nela cantando. — Ela não é como as outras — ele disse por fim. Gabriel franziu a testa. — Todo mundo que te interessa vira “não é como as outras”. Mariano ignorou. — Ela entrou no meu mundo sem pedir permissão… e agora o meu mundo parece menor sem ela. Gabriel ficou quieto dessa vez. Porque aquilo não era só impulso. Era perigoso de verdade. No palco, Ana terminou uma canção sob aplausos leves, sorrindo discretamente para o público, sem imaginar o peso de dois olhos fixos nela naquela sala. E lá embaixo, no meio da penumbra, Mariano continuava olhando como se já tivesse tomado uma decisão que ainda não tinha dito em voz alta. Mas que já não parecia mais possível voltar atrás. A música seguinte começou, mas para Mariano o som parecia distante, quase abafado. Ele ainda estava com os olhos nela, como se o resto do mundo tivesse perdido definição. Gabriel percebeu. — Você tá com essa cara desde que ela entrou no seu campo de visão — ele murmurou, sem desviar muito a atenção da plateia. Mariano não respondeu de imediato. A mandíbula travou levemente, como se ele estivesse segurando algo dentro de si. — Eu não tenho “cara” nenhuma — ele disse por fim. Gabriel soltou um riso curto. — Tem sim. A cara de quem tá prestes a fazer uma besteira grande. Mariano virou o rosto devagar pra ele. — Eu já fiz coisas piores. — Não com sentimento envolvido — Gabriel retrucou. Aquilo fez silêncio entre os dois por um instante. No palco, Ana se movia com naturalidade, completamente entregue à música. A luz branca desenhava ela com precisão, destacando o vestido, o cabelo, a expressão leve que ela mantinha enquanto cantava. Mariano não piscava. — Ela não deveria estar aqui — ele disse baixo, mais pra si mesmo do que pro amigo. Gabriel inclinou um pouco a cabeça. — Ou você não deveria estar aqui? Mariano soltou uma respiração pelo nariz, impaciente. — Ela não faz parte disso. — Do seu mundo? — Gabriel perguntou. Mariano ficou em silêncio. E esse silêncio foi resposta suficiente. Gabriel encostou na cadeira, mais sério agora. — Você tá começando a misturar as coisas, Mariano. — Eu não misturo nada. — Tá sim — Gabriel insistiu — você salvou ela ou ela salvou você? Mariano não respondeu. Porque ele não tinha essa resposta. E isso o incomodava. No palco, Ana terminou outra canção e sorriu para o público, recebendo aplausos. Por um segundo, seus olhos varreram a plateia distraidamente… e pararam. Mesmo de longe, mesmo no meio da luz baixa e das sombras, ela sentiu. Um olhar. Ela franziu levemente a testa, tentando localizar, e então viu. Ele. Lá atrás, quase escondido na penumbra, parado como se não pertencesse àquele lugar. Dom Mariano. O coração dela deu um leve salto involuntário. — Não… — ela murmurou pra si mesma, quase imperceptível. Ela desviou o olhar rapidamente, tentando continuar a apresentação como se nada tivesse acontecido. Mas a voz dela mudou um pouco, quase imperceptível, mais controlada. Lá embaixo, Mariano percebeu que ela o viu. E isso fez algo nele apertar. — Ela te viu — Gabriel comentou. — Eu sei. — E agora? Mariano ficou alguns segundos em silêncio. Depois respondeu, simples: — Agora ela não vai mais conseguir fingir que eu não existo. Gabriel suspirou, passando a mão na barba. — Isso não é coisa boa, Mariano. Ele finalmente desviou o olhar do palco, só por um segundo, encarando o amigo. — Não foi ela que entrou na minha casa? Gabriel não respondeu. Porque isso ele não podia negar. E lá no palco, Ana cantava, mas a mente dela já não estava totalmente na música. Porque algo dentro dela tinha mudado naquele instante. E ela ainda não sabia se era curiosidade… ou problema.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD