O silêncio caiu pesado entre os dois, daqueles que não vêm com paz, mas com impacto.
Ana ainda estava parada, os braços cruzados, o coração batendo mais rápido do que ela queria admitir. Ela olhava pra ele como se tentasse encontrar algum sinal de brincadeira, algum traço de ironia que justificasse aquilo… mas não havia.
Dom Mariano continuava sentado na cama, firme, mesmo com o corpo ainda se recuperando. Os olhos dele não desviavam. Não era insistência vazia, era certeza.
— Você tá falando sério… — ela disse baixo, mais pra si mesma do que pra ele.
— Sim — ele respondeu na mesma hora.
Ela soltou uma risada curta, nervosa, passando a mão no rosto.
— Não, não, não… isso não é normal. Você acabou de acordar na minha casa, ferido, eu nem sei quem você é direito e você me pede em casamento.
Ele inclinou levemente a cabeça, como se estivesse analisando a reação dela.
— E mesmo assim você cuidou de mim.
— Isso não tem nada a ver!
— Tem tudo a ver — ele interrompeu, mais calmo do que ela estava ficando — ninguém faz isso por mim.
Ana abriu a boca, mas não saiu nada de imediato. Aquilo a desarmava de um jeito estranho, porque não parecia manipulação… parecia vazio. Um vazio antigo nele.
Ela respirou fundo.
— Mariano… isso não é amor. Isso é… sei lá… impulso, confusão, você tá fraco ainda, você acabou de—
— Eu nunca estive tão lúcido — ele cortou.
O olhar dele pesou mais.
— Você acha que eu não sei quem eu sou? — ele continuou — Eu sei exatamente. E sei o que acontece com quem entra na minha vida.
Ana engoliu seco.
— Então isso é ainda mais motivo pra eu ir embora — ela respondeu, firme de novo.
Ele não reagiu como alguém rejeitado. Só ficou em silêncio por um segundo longo demais.
Depois levantou devagar da cama, ignorando a dor no corpo, ficando de pé com esforço.
Ana deu um passo instintivo pra trás.
— Você não devia levantar…
— Eu não vou te obrigar a nada — ele disse.
Aquilo saiu simples. Direto. Sem ameaça.
Ele deu alguns passos lentos pelo quarto, como se estivesse organizando os próprios pensamentos.
— Mas eu também não vou fingir que isso não aconteceu.
Ele parou e olhou pra ela de novo.
— Você me viu quebrado… e não virou o rosto.
Ana desviou o olhar por um segundo, incomodada.
— Isso não significa que eu tenho que casar com você.
Ele soltou um leve suspiro pelo nariz, quase um sorriso.
— Eu não disse que você tem que.
Ela voltou a olhar pra ele, confusa.
— Então por que falou aquilo?
Ele demorou um pouco pra responder. Quando falou, a voz saiu mais baixa.
— Porque ninguém nunca ficou.
O quarto ficou ainda menor com aquela frase.
Ana sentiu algo estranho no peito, mas tentou não deixar isso crescer.
— Isso não te dá direito de decidir minha vida assim — ela respondeu mais firme.
Ele assentiu lentamente, como se aceitasse aquilo.
— Eu sei.
Mais um silêncio.
Diferente dos anteriores.
Menos agressivo. Mais perigoso.
Porque agora não era só um homem ferido na casa dela.
Era alguém que tinha decidido que ela significava alguma coisa… e não sabia voltar atrás disso tão facilmente.
Ana respirou fundo, pegou firme na própria postura.
— Você precisa ir embora, Mariano.
Ele ficou parado por um instante, olhando pra ela como se guardasse aquela imagem de novo na memória.
Depois respondeu, simples:
— Eu vou.
Mas não parecia fim.
Parecia só o começo de algo que nenhum dos dois ainda sabia como parar.
Ele disse que ia embora, mas não se moveu de imediato.
Ficou parado no meio do quarto, como se aquele “ir embora” tivesse um peso diferente do que Ana imaginava. Não era só sair da casa. Era sair de perto dela.
Ana observava, desconfiada, ainda tentando manter a firmeza.
— Então vai — ela falou, cruzando os braços de novo, como se isso ajudasse a colocar ordem no que estava estranho demais.
Dom Mariano passou a mão pelo rosto, sentindo ainda a fraqueza do corpo, mas a cabeça estava mais ativa do que nunca. Ele olhou ao redor uma última vez, como quem memoriza lugares, saídas, detalhes.
Depois olhou pra ela.
— Você não devia ter me trazido — ele disse baixo.
Ana soltou uma risada curta, sem humor.
— E você não devia ter desmaiado no meu lado do ônibus.
Ele quase sorriu.
Quase.
— Justo.
Ele caminhou devagar até a porta, mas antes de sair, parou.
O silêncio entre os dois ficou mais denso.
— Ana… — ele chamou sem virar totalmente.
— O quê?
Ele demorou um segundo.
— Se alguém vier te perguntar sobre mim… você não sabe de nada.
Ela franziu a testa na hora.
— Tá me ameaçando agora?
Ele virou o rosto pra ela, calmo.
— Tô te protegendo.
Aquilo não fez sentido pra ela.
— Eu nem te conheço — ela respondeu.
Ele assentiu.
— Eu sei.
E então saiu.
A porta fechou com um som simples, mas dentro da casa pareceu maior do que deveria.
Ana ficou parada no meio do quarto por alguns segundos, tentando entender o que tinha acabado de acontecer.
O homem estranho, ferido, que ela encontrou no ônibus… que ela cuidou, alimentou, deixou dormir na casa dela… tinha ido embora.
Mas não como alguém que simplesmente passa.
Tinha deixado alguma coisa ali.
Ela respirou fundo e foi até a cozinha, tentando retomar a normalidade. Lavou um copo, depois outro, como se isso organizasse a cabeça.
Só que não organizava.
Porque a frase dele continuava voltando.
“Se alguém vier te perguntar sobre mim…”
Ela parou, apoiando as mãos na pia.
— Quem é você…? — murmurou pra si mesma.
Do outro lado da cidade, dentro de um carro escuro, Dom Mariano já não parecia mais um homem ferido.
O olhar estava firme.
O corpo ainda doía, mas a mente estava em outro lugar.
E pela primeira vez em muito tempo, ele não estava pensando em guerra, dinheiro ou inimigos.
Estava pensando nela.
Na forma como ela não teve medo.
Na forma como cuidou dele.
E principalmente… na forma como ele não conseguiu simplesmente esquecer.