capítulo 2

565 Words
Ela ficou alguns segundos parada, como se tivesse ouvido errado. — Como assim não vai embora? — ela perguntou sem virar de imediato. Quando finalmente olhou pra ele, Dom Mariano já estava sentado de novo, apesar do esforço evidente que aquilo custava. O lençol escorregou levemente, revelando o curativo improvisado no peito. — Você está ferido. Não tem escolha — ela completou, mais firme. Ele soltou um suspiro lento, como se aquilo fosse até engraçado. — Eu sempre tenho escolha. A forma como ele disse aquilo não soava como arrogância comum. Soava como realidade. Ana cruzou os braços de novo, agora mais desconfiada. — Aqui não é lugar pra você ficar. Eu nem te conheço. Ele inclinou a cabeça, observando ela com calma, como se estivesse estudando uma peça rara. — Você me trouxe mesmo assim. Aquilo ficou no ar, pesado. Ela abriu a boca pra responder, mas não conseguiu de imediato. Porque era verdade. Dom Mariano apoiou o braço na cama, tentando se levantar um pouco mais, mas o corpo dele respondeu com dor. Mesmo assim, ele não demonstrou fraqueza no rosto. — Você não sabe quem eu sou… — ele falou mais baixo. — E nem quero saber — ela interrompeu rápido. Silêncio. Essa resposta, diferente do que ele estava acostumado, pareceu mexer com ele. Normalmente, as pessoas queriam saber. Temiam. Ou queriam algo. Mas ela não. Ele a encarou por alguns segundos longos demais. — Isso é perigoso — ele disse por fim. Ana soltou uma leve risada sem humor, indo até a mesa para organizar as coisas da cozinha. — O único perigo aqui é você estar machucado e eu não conseguir te tirar da minha casa amanhã. Ele observou ela se mover. Simples. Direta. Sem medo teatral. Sem jogos. E isso o incomodava mais do que deveria. — Você não vai conseguir me tirar daqui tão fácil — ele respondeu. Ela parou, olhando por cima do ombro. — Isso é uma ameaça? Dom Mariano ficou em silêncio por um segundo. Depois, respondeu: — É uma constatação. Ela respirou fundo, como se estivesse tentando não se deixar afetar por aquilo. — Olha… você precisa descansar. Amanhã você vai embora. Isso não é discutível. Ela se virou novamente para continuar o que fazia, mas então ouviu a voz dele, mais baixa, quase diferente agora. — Você sempre ajuda estranhos assim? Ela hesitou. — Não. — Então por quê eu? Essa pergunta pegou ela de um jeito que ela não esperava. Ela não respondeu imediatamente. Apenas continuou mexendo na cozinha, como se pudesse esconder o desconforto no movimento das mãos. — Porque você precisava — ela disse por fim, simples demais. Dom Mariano encostou a cabeça no travesseiro, os olhos ainda nela. E pela primeira vez naquela noite, ele não parecia um chefe da máfia, nem uma ameaça, nem alguém perigoso. Parecia só… alguém que não estava acostumado a ser cuidado. — Ana… — ele chamou de novo. Ela virou o rosto. — O quê? Ele a observou por mais um instante, como se estivesse escolhendo palavras que não costumava usar. — Obrigado. O silêncio que veio depois foi diferente. Não era desconfortável. Era perigoso de outro jeito. Porque naquele momento, sem perceber, Ana tinha feito algo que nunca deveria ter feito: tinha entrado no mundo dele… e ele tinha começado a notar que não queria mais que ela saísse dele tão fácil.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD