Ela ficou alguns segundos parada, como se tivesse ouvido errado.
— Como assim não vai embora? — ela perguntou sem virar de imediato.
Quando finalmente olhou pra ele, Dom Mariano já estava sentado de novo, apesar do esforço evidente que aquilo custava. O lençol escorregou levemente, revelando o curativo improvisado no peito.
— Você está ferido. Não tem escolha — ela completou, mais firme.
Ele soltou um suspiro lento, como se aquilo fosse até engraçado.
— Eu sempre tenho escolha.
A forma como ele disse aquilo não soava como arrogância comum. Soava como realidade.
Ana cruzou os braços de novo, agora mais desconfiada.
— Aqui não é lugar pra você ficar. Eu nem te conheço.
Ele inclinou a cabeça, observando ela com calma, como se estivesse estudando uma peça rara.
— Você me trouxe mesmo assim.
Aquilo ficou no ar, pesado.
Ela abriu a boca pra responder, mas não conseguiu de imediato. Porque era verdade.
Dom Mariano apoiou o braço na cama, tentando se levantar um pouco mais, mas o corpo dele respondeu com dor. Mesmo assim, ele não demonstrou fraqueza no rosto.
— Você não sabe quem eu sou… — ele falou mais baixo.
— E nem quero saber — ela interrompeu rápido.
Silêncio.
Essa resposta, diferente do que ele estava acostumado, pareceu mexer com ele.
Normalmente, as pessoas queriam saber. Temiam. Ou queriam algo.
Mas ela não.
Ele a encarou por alguns segundos longos demais.
— Isso é perigoso — ele disse por fim.
Ana soltou uma leve risada sem humor, indo até a mesa para organizar as coisas da cozinha.
— O único perigo aqui é você estar machucado e eu não conseguir te tirar da minha casa amanhã.
Ele observou ela se mover. Simples. Direta. Sem medo teatral. Sem jogos.
E isso o incomodava mais do que deveria.
— Você não vai conseguir me tirar daqui tão fácil — ele respondeu.
Ela parou, olhando por cima do ombro.
— Isso é uma ameaça?
Dom Mariano ficou em silêncio por um segundo. Depois, respondeu:
— É uma constatação.
Ela respirou fundo, como se estivesse tentando não se deixar afetar por aquilo.
— Olha… você precisa descansar. Amanhã você vai embora. Isso não é discutível.
Ela se virou novamente para continuar o que fazia, mas então ouviu a voz dele, mais baixa, quase diferente agora.
— Você sempre ajuda estranhos assim?
Ela hesitou.
— Não.
— Então por quê eu?
Essa pergunta pegou ela de um jeito que ela não esperava.
Ela não respondeu imediatamente. Apenas continuou mexendo na cozinha, como se pudesse esconder o desconforto no movimento das mãos.
— Porque você precisava — ela disse por fim, simples demais.
Dom Mariano encostou a cabeça no travesseiro, os olhos ainda nela.
E pela primeira vez naquela noite, ele não parecia um chefe da máfia, nem uma ameaça, nem alguém perigoso.
Parecia só… alguém que não estava acostumado a ser cuidado.
— Ana… — ele chamou de novo.
Ela virou o rosto.
— O quê?
Ele a observou por mais um instante, como se estivesse escolhendo palavras que não costumava usar.
— Obrigado.
O silêncio que veio depois foi diferente.
Não era desconfortável.
Era perigoso de outro jeito.
Porque naquele momento, sem perceber, Ana tinha feito algo que nunca deveria ter feito:
tinha entrado no mundo dele… e ele tinha começado a notar que não queria mais que ela saísse dele tão fácil.