Capítulo 4 _ Pétalas e Correntes

1637 Words
--- Capítulo 4 – Pétalas e Correntes Vitória Narrando Acordei com os gritos de Alessandra ecoando pela casa, cortando meu sono como faca em tecido fino. Alessandra — Vitóóóória! — a voz dela parecia vir de todas as paredes ao mesmo tempo. — Levanta daí, menina, a casa não vai se arrumar sozinha! Me encolhi na cama por alguns segundos, tentando fingir que não era comigo. Mas logo ouvi o estalo dos chinelos dela pelo corredor e soube que era inútil. Respirei fundo, vesti a primeira roupa simples que achei no armário e desci as escadas correndo. Gabriela já estava na sala, de roupão, tomando suco de laranja fresco. Ela me olhou com aquele sorrisinho debochado que sempre carrega. Gabriela — Demorou, hein? — disse, cruzando as pernas. — Achei que ia precisar jogar um balde de água na sua cabeça. Vitória — Já tô aqui, Gabi. — falei baixo, sem ânimo para confronto. Gabriela — Vai começar pelo meu quarto. — ela anunciou, olhando as unhas pintadas de vermelho vivo. — Preciso daquele meu vestido justo, o preto , limpo e passado. Hoje tem festa, e você sabe que eu não posso aparecer com nada amassado. Assenti em silêncio. Já aprendi que quanto menos palavras eu gasto, menos munição elas têm contra mim. Alessandra surgiu logo atrás, impecável como sempre, com cabelo brilhando e roupa alinhada. Ela nunca parecia acordar amassada como gente normal. Alessandra — Vitória, anda logo. — disse, firme. — Hoje teremos visitas de novo, e eu quero esta casa brilhando. Nada de sujeira nos cantos, e vê se presta atenção nas taças. Engoli seco. As visitas sempre eram os amigos da Gabriela, aquela turma de garotos metidos e garotas que me olham como se eu fosse um pano de chão com pernas. Vitória — Sim, senhora. — respondi. Enquanto subia as escadas, ouvi Gabriela cochichar para a mãe: Gabriela — Juro, às vezes acho que ela devia agradecer mais. Se não fosse a gente, onde essa coitada estaria? Alessandra suspirou, fingindo pesar. Alessandra — Eu digo sempre isso, filha. Essa menina devia ajoelhar todo dia e agradecer pela sorte que teve. Senti o coração apertar. Essa frase, “você deve ser grata”, já tinha virado como uma corrente em volta do meu pescoço. Entrei no quarto da Gabriela, enorme, cheio de perfumes, roupas caras e maquiagem espalhada. Peguei o vestido e comecei a passá-lo com cuidado. Enquanto o ferro deslizava pelo tecido, pensei no meu pai. Se não fosse por ele, eu nunca teria terminado os estudos. Fiz até o terceiro ano do ensino médio com muito custo, estudando à noite, cansada das tarefas da casa. Gabriela e Alessandra fizeram de tudo para me atrapalhar, mas meu pai sempre dizia: Ricardo — Vitória, estude. O estudo é sua única chave. Ele comprava livros escondido, revisava comigo quando ninguém via, até fazia café para eu aguentar ficar acordada. Quando penso nele, me dá vontade de chorar e sorrir ao mesmo tempo. Acabei de passar o vestido e deixei no cabide. Gabriela entrou sem bater e pegou a peça da minha mão. Gabriela — Ao menos dessa vez você não estragou. — comentou, desfilando até o espelho. — Se eu tivesse que usar algo amassado, ia te matar, sabia? Fiquei em silêncio. Gabriela — Tá surda? — ela insistiu. — Eu disse que ia te matar. Vitória — Eu ouvi. — respondi, sem olhar para ela. Gabriela — Ah, ótimo. — deu de ombros e saiu, rebolando como se estivesse numa passarela. Passei o resto da manhã limpando a casa. Quando finalmente terminei, corri para a floricultura. A loja não é mais a mesma. Antes, quando era do meu pai, tinha vida. Ele conversava com as plantas, sabia o nome de cada flor e sorria para cada cliente. Agora, sob os cuidados de Alessandra, tudo parece mais frio. O movimento caiu. Quase não temos mais tanta variedade. Selma — Bom dia, Vitória. — cumprimentou Dona Selma, uma cliente antiga, escolhendo crisântemos. — Você parece cansada, minha filha. Vitória — É só correria, dona Selma. — respondi com um sorriso automático. Atendi alguns clientes, organizei vasos, varri o chão. O cheiro das flores me acalmava, como se ainda houvesse um pedaço do meu pai ali, escondido. No fim da tarde, fechei o caixa e voltei para casa. Estava exausta, mas a visita dos amigos de Gabriela já havia começado. O jardim estava cheio de risadas, música alta e taças de vinho. Tentei passar despercebida, indo pelo canto, mas uma voz grossa me chamou. Evaristo — Olha só quem apareceu… — Evaristo, um dos amigos mais nojentos da Gabriela, levantou da cadeira. — A empregadinha. A turma riu. Senti meu rosto arder. Apertei o passo, mas ele me alcançou e me prendeu contra uma árvore. Evaristo — Você finge ser certinha, mas eu sei que gosta, hein? — disse, com o hálito carregado de álcool. Vitória — Me solta, Evaristo! — tentei empurrá-lo, mas ele segurou meus braços com força. — Isso não é engraçado! Ele riu, aproximando o rosto. Evaristo — Se você não contar pra ninguém, pode ser divertido… Meu corpo inteiro tremeu. Comecei a chorar de raiva e medo. De repente, um latido ecoou forte. Thor surgiu correndo, enorme, os pelos arrepiados. Ele avançou em cima de Evaristo, que caiu no chão gritando. Thor rosnava, mostrando os dentes. Aproveitei para correr para dentro de casa, o coração disparado. Subi as escadas quase tropeçando e tranquei a porta do quarto. Thor veio atrás, e quando entrou, deitou no chão ao meu lado, ainda ofegante. Abracei seu pescoço e chorei. Vitória — Obrigada, meu grandão. Você é meu único amigo de verdade. Ele lambeu meu rosto, como se entendesse cada palavra. Deitei na cama, mas não consegui dormir. Fiquei pensando na minha vida. Não tenho amigos. Os garotos só se aproximam para me assediar escondido. Sentem vergonha de mim. As garotas me desprezam. Gabriela me odeia porque os homens a olham menos quando estou por perto. Sou prisioneira em uma casa que nunca me quis de verdade. Mas, no fundo, eu sei: não vou passar a vida inteira assim. Levantei, fui até o espelho e encarei meu reflexo. Vitória — Um dia, Vitória — sussurrei para mim mesma — você vai sair daqui. Vai cozinhar, vai estudar, vai viver. O pai acreditava em você. Fui para o banho. A água quente caiu sobre mim, levando embora um pouco do peso. Quando voltei para a cama, Thor se ajeitou nos meus pés. Fechei os olhos e murmurei baixinho: Vitória — Boa noite, pai. Obrigada por nunca ter me deixado desistir. E adormeci, agarrada às lembranças e ao sonho que ainda insisto em carregar. --- Mas naquela noite o sono foi inquieto. Sonhei com meu pai outra vez. Ele aparecia na floricultura, ajeitando os vasos, assobiando uma melodia que eu nunca soube identificar. No sonho, ele me olhou e disse: Ricardo — Coragem, minha filha. Coragem. Acordei com lágrimas no rosto. A janela ainda mostrava o céu escuro, mas os primeiros pássaros já cantavam. Thor ergueu a cabeça, atento ao meu movimento, como se percebesse que eu estava perturbada. Vitória — Tá difícil, amigo… — murmurei, acariciando sua cabeça. — Mas eu vou aguentar. Levantei devagar, tentando não fazer barulho. Desci até a cozinha, preparei café para mim mesma e fiquei ali, sentada na mesa, em silêncio. O cheiro do pó fresco me trouxe lembranças do pai. Ele sempre dizia que café era “remédio para alma cansada”. Quando terminei a xícara, respirei fundo e decidi: não importa quantos gritos, quantas humilhações, eu não vou deixar que Alessandra e Gabriela apaguem o que o pai plantou em mim. Mais tarde, já de manhã, Gabriela apareceu descendo as escadas com ares de rainha. Usava uma calça jeans justa, de lavagem escura, combinada com uma blusa branca de seda levemente solta. Nos pés, sandálias de salto médio que tilintavam contra o chão a cada passo. Mesmo em algo aparentemente simples, ela conseguia parecer como se estivesse pronta para uma capa de revista. Gabriela — Vitória, cadê minhas sandálias douradas? — exigiu, sem nem me olhar. Vitória — Estão no closet, prateleira de cima. Ela bufou. Gabriela — Não custava nada você trazer, né? Alessandra logo apareceu atrás, já arrumada também. Alessandra — Vitória, hoje não quero nenhum escândalo. Ontem você já causou demais. Olhei para elas, surpresa. Vitória — Eu não causei nada… Gabriela — Não se faça de sonsa. — Gabriela cruzou os braços. — O Evaristo saiu daqui dizendo que você quase deixou o cachorro matar ele. Meu peito ferveu. Vitória — Ele tentou… Alessandra — Chega! — Alessandra cortou, firme. — Não ouse levantar falso contra os amigos da sua irmã. Se não fosse por nós, você ainda estaria largada naquele orfanato imundo. Engoli em seco. A corrente apertava outra vez. Não adiantava argumentar. Depois que elas saíram, fiquei sozinha com Thor. Sentei no quintal, observando o cachorro brincar com uma bola velha. No fundo, eu sabia que estava num beco sem saída… mas uma parte de mim ainda gritava que não, que havia uma porta escondida, uma chance de mudança. Olhei para o céu azul que começava a se abrir. Vitória — Pai… me mostra esse caminho. — pedi em voz baixa. — Eu só preciso de um sinal. Thor latiu, como se respondesse. Sorri fraco, enxugando as lágrimas. Talvez o sinal viesse um dia. Talvez já estivesse vindo, devagar, sem que eu percebesse. Mas uma coisa eu prometi a mim mesma, ali, naquele quintal silencioso: nunca mais deixaria ninguém tentar me calar. --- 🌙 OBS: Comentem muito e deixem seus bilhetes lunares! ✨ 📌 Link do grupo no w******p tá na bio do Insta: @D.Black_autora / @d.black_autora 📖 Coloquem o livro na biblioteca e compartilhem com as amigas! 💜 ---
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