Capítulo 3 _ O Comando e o Casamento

1109 Words
Capítulo 3 – O Comando e o Casamento Deformado narrando. O cheiro de café queimado, pólvora fria e papel-sujo de caixa registradora era rotina na boca. Aquela mistura cheirava a poder; cheirava a trabalho malfeito que dá resultado. Eu estava sentado atrás da mesa mais larga da sala de contabilidade , que os outros chamavam, com ironia, de “mesa do patrão” folheando planilhas que alguém ainda imprimia à mão por medo do servidor ficar comprometido. Luz fraca. Ventilador preguiçoso girando como quem tem pena do calor. Barulho lá fora: risos, algumas vozes nervosas, quando não há problema grande o dia é só isso ,vida normal. Mas tinha algo me martelando a cabeça fazia dias: o Comando. Não o morro, não a boca . O Comando, o velho aparelho do poder, os três que respiravam e decidiam as alianças. Barão falava por eles. E, por algum motivo que eu podia sentir no tato de cada fio de cabelo do corpo, o tal Comando estava me pressionando sobre uma coisa que me deixava com vontade de vomitar: casamento. Barão — Cê tem que casar, Cézar. — A voz do Barão vinha sempre com o peso das coisas que não se discutem; eco de tradição. — Tem que deixar herdeiro. Legado não fica sozinho. Herdeiro. Legado. Palavras com cheiro de instituição, batinas e registro em cartório. Palavras que a boca usava para dar ar de legitimação ao crime. Eu ouvi aquilo e senti um asco profundo. A ideia de me prender em casamento enquanto eu sabia que era a moeda que as mulheres mais cobiçavam me feria ainda mais. Eu tinha ouvido coisas na boca. Histórias velhas e novas de mulheres que chegavam com o copo na mão e o olhar na carteira. Eu me transformei numa espécie de troféu ambulante , e troféus eram sempre objeto. Deformado — Eu não vou casar — falei pela milésima vez, a voz rouca de quem repetia ódio. — O que eu deixo com quem quer sugar a minha vida? Mulher que quer minha aliança quer meu dinheiro, quer meu nome, quer o meu lugar no túmulo. Não vou plantar uma semente pra virar adubo pro ego de qualquer pala. Barão — Não é bem assim — retrucou Barão, paciente como quem já viu muitos filhos queimarem. — Não é só ter aliança, é ter continuidade. Não vai ser você a segurar isso pra sempre. Tem que ter sangue teu. Força e sangue. Deformado — Força e sangue? — repeti, com sarcasmo. — Força eu já tenho. Sangue eu tenho de sobra. Só não tenho vontade de ensinar a turma toda a catar meus ossos quando eu cair. O Comando estava irredutível. Eles não aceitavam invenções de liberdade quando o tema era legado. Legado era plano em branco com assinatura. Para eles, casar significava segurar a ilusão de que o Vidigal duraria legitimado quando os arrisques começassem a apertar. Para mim significava uma gaiola nova, com bilhete dourado. Eu estava na boca resolvendo as coisas de contabilidade ,a parte que ninguém vê mas que determina quem come o quê. A grana vinha, ia, voltava; tinha que prestar conta sempre com o mesmo gosto de retribuição. Planilhas mostravam as contas de boca, as entradas dos pontos de venda, o lucro da noite, o prejuízo dos moleques que erravam. Eu não confiava em ninguém com números, foi por isso que tinha o velho Roberval à minha frente, que decorava cada centavo como se fosse oração. Deformado — Roberval — disse eu, apontando uma linha com a caneta. — Por que a margem do vendedor do beco três subiu do nada? Roberval — Teve corte extra, patrão — respondeu, com voz de quem dorme com calculadora. — Ajuste de segurança. Colocaram margem pra dois rapazes que seguraram o ponto, mas não tava no fluxo. Deformado — Quem autorizou? — perguntei. Roberval — Vapor Mão Leve, patrão. Ele tava lá quando fecharam. Disse que era “serviço de proteção”. — Roberval desviou o olhar. Sabia quando era melhor não enfiar a mão em brasa. Vapor Mão Leve. Nome que vinha junto com cheiro de graxa e promissória quebrada. O couros dos moleques eram assim: meio heróis, meio ladrões de galinhas. Ele era de confiança, não porque era honesto , longe disso , mas porque conseguia executar ordens sem fazer perguntas principais. Era para esse tipo que eu chamava quando a coisa tinha que ser feita com pouco barulho e muita eficácia. Respirei fundo. A vontade de me livrar de tanta pressão era grande, absurda. “Esvaziar o saco” , como dizia o velho jargão , era uma necessidade quase clínica. Quando as tensões do topo apertam, a boca pede por pequenos alívios: bebida, jogo, uma p**a barulhenta que sabe calar com dólares. Deformado — Manda o Vapor buscar uma p**a, então — falei num tom tão casual que surpreendi até quem ouvia. — Hoje eu quero esvaziar o saco. Nada de conversa. Só serviço. Traga a mais obediente que tiver. Os olhos de Roberval se abriram um pouco. Riram atrás das máscaras. Roberval — Já mando, patrão. — ele assentiu e saiu. Na boca eu comando com punhos de ferro. Não admito “bobeira” nas ruas. Se alguém brigar, é salinha. A salinha era uma sala pequena, com chão frio, onde os que quebravam as regras levavam “um corretivo” que doía no corpo e aprumia o comportamento. A salinha era eficiente porque humilhava igual chicote. Não gosto de tumulto. Não gosto de exposição. Quem brigava por pouca coisa ia pra salinha e aprendia que o morro não é ringue de circo. Enquanto esperava, fui até a janela gradeada da boca e olhei o morro. Lá embaixo, crianças corriam, mães lavavam roupa, velhos observavam como se estivéssemos num teatro que ainda não fechara. Eu observei com o mesmo desprezo que um médico olha pra uma ferida velha. Foi quando a porta abriu. Não ouso dizer que eu esperava por Cátia ,eu não esperava por nada que não fosse problema , mas o vento trouxe o perfume antes de sua chegada: um cheiro doce demais, enjoativo, que deixou a sala com gosto de cosmético barato. Ela entrou com aquele vestido vermelho, justo, vulgar na medida certa pra fazer a lágrima de qualquer santo secar. Era roupa que dizia: veja-me; toque-me; pertença. Cátia tinha aquele andar de quem sabia o efeito que causa. Ela não olhou pra mim com medo; olhou com desafio, e isso me irritou de um jeito que me fez sorrir por dentro. Sorriso que não chegava aos olhos. Cátia — Deformado. — sua voz era aguda, um fio de lâmina.
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