Capítulo 2 _ Memórias.
Vitória Narrando
Minha vida nunca foi um mar de rosas. Sempre ouvi dizer que a infância é feita de inocência e luz, mas a minha foi costurada com fios que cortam. Ainda bebê, meus pais sofreram um acidente e morreram na hora. Nem aprendi a chorar direito por eles; cheguei ao mundo e fui empurrada para um orfanato, como se fosse um objeto descartável. Fiquei pouco tempo entre paredes frias e nomes escritos em listas, tempo suficiente para aprender que o mundo não é gentil e logo fui adotada por um casal rico. Passei de prateleira em prateleira até cair nas mãos de pessoas que sabiam bem como sorrir e esconder vazio.
Alessandra foi a primeira a me abraçar com promessas. Parecia uma mãe no começo: dava beijo na testa, escolhia roupas com carinho, dizia que eu era “a menina que trouxe sorte” para a casa. O pai, Ricardo, era tudo o que eu não conhecia de terno: tinha mãos que cheiravam a café, olhos que me enfeitavam de calma e um beijo no cabelo que consertava qualquer tempestade pequena. Ele era o meu porto. Quando eu errava, ele me ensinava sem gritar; quando eu chorava, ele me secava as lágrimas com a ponta do dedo e ria fazendo careta. Era o único que acreditava que eu merecia afeto por existir, não por servir.
Tudo mudou quando Gabriela nasceu. Eu tinha dois anos. Lembro fragmentos: um choro mais alto, uma festa pequena com bolas cor-de-rosa, meu pai cantando torto enquanto segurava uma vela. Eu quis ser amiga, dividir brinquedos, dividir colo. Achei que ser irmã significava risadas e segredos escondidos dentro de paredes quentes. Mas não. O conto de fadas que me prometeram virou notificação antiga , uma coisa que se apaga.
Gabriela tornou-se uma menina esculpida para brilhar. Cresceu com a educação das melhores marcas, com aulas de piano e olhares que aplaudiam. Tornou-se meteórica: pareceu nascer completa, com riso ensaiado e desprezo programado. Quando eu tentava me aproximar, ela me empurrava com palavras afiadas — “vai brincar com suas coisas, Vitória”, “não atrapalha, não é?” E Alessandra, que antes me sorriu, começou a me olhar como se eu fosse um móvel debaixo das escadas, algo necessário mas indesejado. Meu pai, sempre ao meu lado, tentou segurar a maré. Ele me defendia com gestos pequenos: um prato extra no sábado, uma desculpa quando um comentário atravessava a sala como faca. Ele era o que restava de calor naquele casarão de paredes refrigeradas.
Hoje faço vinte anos. Vinte. E sei, com a certeza morna de quem já leu o roteiro, que não vou ter festa. Nunca tive. Meus aniversários sempre foram inventários: arrumar a casa, limpar, passar, cozinhar. Se a casa não brilha do jeito que eles esperam, eu durmo com fome. Não é só castigo , é uma disciplina sem compassos, como se minha existência estivesse atrelada à tarefa bem feita. Sempre me pergunto por que meu pai teve que ir primeiro. Por que Ricardo sofreu um infarto e me deixou com o silêncio grande da casa? Eu o amava de um jeito que dói lembrar. Ele era o único que quebrava a formalidade com ternura. Desde que ele se foi, as vozes ficaram mais duras, as ordens mais pontiagudas.
O dia começa com gritos. Gabriela aparece na escada como uma seta de impaciência.
Gabriela — Ô sua imprestável, não tá me ouvindo te chamar não? — ela vocifera, já marchando para o armário do quarto. — Quero aquele meu vestido vermelho justo, limpo. Vou usar ele pra ir numa festa.
Eu respiro fundo. Aprendi que responder com fogo só amplia a fúria alheia. Respondo como quem passa manteiga no pão, com cuidado e sem deixar areia.
Vitória — Calma, Gabriela. Já vou. — Minhas palavras são um escudo fino.
Alessandra bate os chinelos no piso e aparece com a roupa impecável, cabelo penteado como se sempre estivesse indo a um salão. Ela me olha, aquele olhar que pesa como nota fiscal e diz sem levantar a voz:
Alessandra — Anda logo, Vitória. Faz o que a Gabriela mandou. Hoje a casa tem visita.
A “visita” é sempre a mesma coisa: gente que sorri e come, que deixa migalhas de elogios e não se importa em limpar depois. Eu não tenho voz aqui. Minha vida virou uma lista de tarefas intermináveis e invisíveis.
Vou até o quarto da Gabriela, pego o vestido com dedos que já conhecem o tecido. Enquanto o ferro desliza, lembro do meu pai costurando uma barra torta e rindo do jeito que eu puxava o fio. Lembro do cheiro do manjericão na janela, do café que ele fazia com cuidado. Essas memórias são um cobertor fino que me esquenta nas noites frias.
Com o vestido pronto, desço e encontro Dona Bete na cozinha, batendo um bolo de maçã que, pelo cheiro, parece ter saído de outro mundo.
Bete — Vitória, minha filha! — ela exclama, me abraçando como se tivesse um pedaço do meu pai na ponta das mãos. — Feliz aniversário, meu bem. Trouxe um pedaço da minha torta.
A alegria de Dona Bete é uma doçura clandestina em meio ao salgado da minha rotina. Ela é a vizinha que não pergunta demais, que entende pelo olhar. Quando lembro do meu pai, não consigo fingir que não dói. Ela segura minha mão e diz:
Bete — Você sabe que ele gostava muito de você, né? — e eu assinto, com os olhos marejados. Não é choro de cena: é uma ferida que continua aberta.
A casa segue sua coreografia. Alessandra dá ordens suaves como se esculpisse estátuas. Gabriela passa perfume no ar como se espalhasse pequenas acusações. Eu, invisível, encho a mesa com pratos arrumados, talheres alinhados. Sirvo com a mesma precisão de sempre. Enquanto os convidados conversam, observo sem ser observada. Olho para o bolo, a torta de Dona Bete está guardada e penso em como meu aniversário sempre coube em cantos.
Mais tarde, depois que a casa se esvazia e o riso se dissipa, eu abro a geladeira e encontro o pedaço de torta que escondi. É meu segredo pequeno, meu troféu silencioso. Sento na varanda com o pedaço nas mãos e penso em Ricardo. Sussurro para o vento, como se ele pudesse ouvir:
Vitória — Pai, hoje eu fiz tudo de novo. Limpei, cozinhei, engoli as ordens. Mas guardei um pedaço de doçura só pra mim.
O meu pai sempre acreditou que pequenas alegrias podiam ser construídas mesmo em terrenos pobres de afeto. Ele me ensinou a costurar, a regar a mini-horta, a perdoar o mundo em fragmentos. Depois que ele partiu, prometi a mim mesma que guardaria o melhor dele: a calma, a vontade de persistir e a crença de que, um dia, eu poderia escolher.
No fim da tarde, quando o sol começa a cair e tudo ganha um tom âmbar, recebo uma ligação do cemitério: um jardineiro pedira para saber se eu poderia levar umas flores que sobraram da loja do meu pai. Minhas mãos ficam geladas com a lembrança. Levo as flores até o túmulo, e ali, entre nomes gravados e um vento que mexe com minhas lembranças, me permito chorar de verdade. Não é choro de vítima , é choro de filha que perdeu o único porto seguro.
Bete — Pai — digo, ajoelhada — eu vou tentar, tá? Vou tentar ser feliz. Vou fazer teu manjericão brotar, vou comer teu ovo frito do jeitinho que você fazia, e vou lembrar de tudo que você me ensinou.
Volto para casa com o coração mais leve que quando saí. O cemitério me deu uma promessa: que a memória pode ser combustível. Talvez não consiga festejar com pessoas que me chamam de empregada, mas posso celebrar de outro modo. Posso improvisar rituais.
À noite, já sozinha, escrevo. Tirei uma caderneta velha da gaveta , uma daquelas que guardei no fundo para sonhos infantis e rabisco planos. Coisas pequenas: aprender a costurar melhor, voltar a estudar à noite, juntar dinheiro para um curso de confeitaria ou administração. Não faço promessas grandiosas , hoje não tenho coragem , mas traço passos. Cada meta é um tijolo que, aos poucos, constrói uma porta.
Enquanto escrevo, lembro das vozes da casa. Lembro quando Alessandra dizia que eu devia agradecer por ter sido adotada. Era quase um bilhete venenoso: “Você deve ser grata”. Gratidão não é dívida. Aprendi isso aos trancos. Gratidão pode existir ao lado da vontade de partir.
No silêncio da madrugada, decido fazer algo pequeno e só meu: pego um pedaço do bolo guardado, escrevo numa folha um bilhete curto e o deixo escondido debaixo da tampa da caixa:
“Você merece festa, mesmo que seja só você.”
Pode parecer imaturidade, um gesto de menina que ainda tem desejos simples, mas para mim é revolução. É um aviso sussurrado de que não vou me apagar por autoridade de ninguém. É um compromisso mínimo: celebrar a mim mesma quando o mundo não fizer questão.
Durmo com o coração apertado, mas sorrindo por dentro. Amanhã haverá pó para tirar, panelas para lavar, ordens para cumprir. Mas agora, no escuro, eu sei que há algo meu ali, escondido entre migalhas de torta. Tenho planos escritos à caneta, tenho o gosto doce da torta e o bilhete escondido. Tenho a promessa que deixei no túmulo do meu pai: tentar ser feliz mesmo que a felicidade precise nascer de pequenos gestos.
E quando a casa acordar, com passos calculados e sorrisos de vitrine, eu vou lá , como sempre e farei o que devo. Mas carregarei comigo, como um contrabando de esperança, a certeza de que um dia farei uma festa de verdade. Uma festa onde eu possa soprar velas com alguém que me olhe nos olhos, com alguém que saiba o gosto do manjericão e o som do riso sincero. Por enquanto, minha comemoração cabe numa fatia de torta na varanda. Por enquanto, tudo bem. Eu aprendo a ser feliz em pedaços.
🌙 OBS: Comentem muito e deixem seus bilhetes lunares! ✨
📌 Link do grupo no w******p tá na bio do Insta: @D.Black_autora / @d.black_autora
📖 Coloquem o livro na biblioteca e compartilhem com as amigas! 💜