Capítulo 1 _ Deformado

2309 Words
Capítulo 1 – Deformado Deformado Narrando. Eu vivo em um mundo sombrio. Um lugar onde só existem sombras, onde a ganância e o poder sempre prevalecem. O amor? Esse eu achei que existisse, achei que tivesse encontrado. Mas foi ledo engano. Na primeira oportunidade que tiveram, passaram a perna em mim da pior maneira possível. Lembro até hoje como foi. É como se tivesse acontecido ontem. Flashback on Eu estava na boca, já era tarde, ajudando meu pai. Às vezes faço isso. Dou uma força quando ele precisa, porque ainda não tem ninguém de confiança para ajudar. Mas deixar claro: esse meio não é pra mim. Eu sou formado em engenharia, tenho minha própria empresa, gosto de construir sonhos, levantar casas, dar às pessoas o que sempre sonharam. Isso sim é vida. Mas, por respeito, ajudo meu pai quando necessário. Naquela noite, depois de terminar o que ele pediu, me despedi e já ia saindo quando meu telefone tocou. Era Andressa, minha noiva. O casamento seria em um mês. Ela era ou eu acreditava que fosse , o amor da minha vida. Ligação on Andressa — Amor, você vai demorar muito a chegar? — perguntou com aquela voz doce. Cézar — Não, amor. Já me despedi do meu pai, estava saindo quando você ligou. Andressa — Ah tá... eu tô com vontade de comer comida japonesa. Mas daquele restaurante do outro lado da cidade. Cézar — Nossa, amor, aquele é longe demais... eu já tô cansado, só queria chegar logo e ficar um pouco com você. Amanhã tenho reunião cedo. Andressa — Faz isso por mim, vai... tô com muita vontade. Suspirei, mas não resisti. Cézar — Tá bom, amor. Você me convenceu só com essa voz. Nós rimos juntos e desligamos. Ligação off Peguei a moto, cumprimentei os moleques da contenção e acelerei pela cidade. Peguei trânsito pesado por causa de um acidente. Isso atrasou ainda mais minha volta. Quando finalmente cheguei no restaurante, fiz o pedido, peguei a comida e voltei. Ao chegar no morro, percebi olhares estranhos dos vapores, mas ignorei. Segui para casa. Assim que entrei, algo me deixou desconfiado: roupas jogadas pela sala, femininas e masculinas. Meu estômago embrulhou. Coloquei a chave no chaveiro, subi as escadas e, quando cheguei perto da porta do quarto, ouvi os gemidos. Reconheci na hora. Era a voz de Andressa... e a de Paulo, meu melhor amigo de infância. Meu peito travou. Não podia ser. Não eles. Mas, antes de entrar, ouvi a conversa: Paulo — Por que você vai se casar com o Cézar? — Paulo falava, ofegante. — Eu te dou tudo o que você quer. Andressa — Para, Paulo! — Andressa respondeu, rindo debochada. — O que você tem não chega nem perto do que o Cézar pode me dar. Ele é empresário, tem nome, tá crescendo a cada dia. Você? Um bandidinho de merda que não tem nada. Não esperei mais nada. Empurrei a porta. Andressa estava por cima dele, cavalgando. Quando me viram, se assustaram, pularam para o lado e se cobriram com o lençol. Cézar — Então é isso? — minha voz saiu carregada de ódio. — Você estava comigo só pelo meu status? Você é uma v***a. Andressa tentou se justificar, mas a raiva falou mais alto. Agarrei-a pelos cabelos e a joguei no chão. Comecei a chutar sem piedade. Ela gritava, tentava explicar, mas as palavras morriam no ar. Foi quando Paulo veio pra cima de mim. Paulo — Seu desgraçado, bate em mim, não nela! Cézar — Você se aproveitou da minha ausência, do meu tempo na empresa, pra trepar com a minha mulher? — gritei. — Eu confiava em vocês, filhos da p**a! A briga virou pancadaria: socos, chutes, móveis caindo. Eu levava a melhor até que meus próprios vapores me puxaram, me afastando. Paulo — Não foi bem assim... — Paulo tentou justificar, cuspindo sangue. — A gente não se controlou... me perdoa. Cézar — Cala a boca! — berrei. — Quando eu voltar, não quero ver vocês aqui. Andressa chorava, tentando se aproximar. Andressa — Amor, deixa eu explicar! Ele me obrigou, não foi porque eu quis! Dei um sorriso irônico e saí. Peguei a chave da BMW preta na garagem, entrei no carro e acelerei como um louco. A raiva queimava por dentro. Bati várias vezes no volante, gritando sozinho. Por que eles fizeram isso? Por quê? Eu dei tudo. Dinheiro, amor, confiança. E, mesmo assim, me traíram. O carro corria cada vez mais. Quando decidi seguir para o mar, perdi o controle. O freio falhou, os carros surgiam na frente, e tudo aconteceu rápido demais. Só vi o impacto. Depois, escuridão. Quando abri os olhos, estava no hospital. médico — Você sobreviveu por milagre — disse o médico. — Mas não será mais o mesmo. O carro pegou fogo, e você teve queimaduras graves no rosto e no peito. Eu quis ver. Eles tentaram impedir. Cézar — Agora, p***a! — gritei. Assustados, trouxeram um espelho. Quando retiraram as faixas, meu mundo desabou. Metade do rosto e do peito estavam destruídos. Eu não era mais homem, era um monstro. Cézar — NÃÃÃÃOOOO! — o grito ecoou até me sedarem. Dias depois, ainda em recuperação, Andressa apareceu. Achei que fosse mentira quando disseram que ela estava por lá. Mas não: ela entrou no quarto sorrindo falso. Andressa — Oi, amor... vim ver como você está. Fiquei sabendo do acidente, mas não deixaram eu te visitar antes. Você estava em coma induzido. Ela se aproximou para segurar minha mão. Afastei com brutalidade. Cézar — Não toca em mim, sua v***a. Tenho certeza que você vai sair correndo quando ver o que eu me tornei. Andressa — Não fala assim, amor... eu amo você. Vamos nos casar. O que aconteceu aquele dia foi mentira, o Paulo me obrigou... Cézar — Então vamos fazer assim. Olha. Depois me fala. Arranquei as bandagens do rosto. Quando ela viu, fez uma expressão de puro nojo. Recuou como se tivesse visto a morte. Andressa — Não... não pode ser. Você era tão lindo... agora tá deformado... não! Mas dá pra fazer cirurgia, voltar ao normal... Tentou se aproximar. Eu gritei: Cézar — Sai daqui, agora! A partir de hoje, você vai me ver assim: um deformado! Ela saiu correndo em pânico. E ali, Cézar morreu. No lugar dele nasceu Deformado: um homem frio, c***l, sem coração. Flashback off Naquele dia, morri e renasci. Não como empresário sonhador. Não como noivo apaixonado. Mas como algo que o mundo nunca mais esqueceria. Deformado. A máscara que antes era rosto virou armadura. A dor virou combustível. O amor, uma fraqueza que eu enterrei junto com o Cézar que um dia existiu. A partir dali, não haveria mais confiança, mais ingenuidade, mais ilusão. Apenas cálculo, poder e frieza. E, no fundo, a certeza de que, quando o mundo tenta te destruir, você só tem duas opções: cair de vez... ou se tornar pior do que ele. E eu escolhi a segunda. --- Hoje sou um homem diferente. Agora sou conhecido por todos como Deformado. Virei dono do Vidigal, fiquei no lugar do meu pai. Não fazia mais sentido eu continuar como engenheiro, se me tornaram um monstro aos olhos de todos, por que fingir que eu ainda construía sonhos? O amor não existe. Hoje eu tenho o coração de pedra; desconheço o amor, desconheço amizade. Amigos e amor não são confiáveis. Então não tenho mais isso. Uso uma máscara cobrindo a metade do meu rosto. Todos têm medo de mim, mas me respeitam. Eu fiz o meu nome, o meu legado; sou mais temido do que um dia meu pai foi. Ele resolveu se aposentar quando voltei do hospital, e foi assim, sem cerimônia, que passei a carregar o peso do Vidigal no meu pescoço. No começo não queria sair de casa por nada. Me tornei recluso, moro no topo do morro, no lugar mais afastado. Preferi ficar sozinho. Quando quero me satisfazer, esvaziar o saco, pago uma dessas putas que tem no morro , elas me olham com nojo, com desprezo, mas finjo que não vejo. Eu só quero gozar e tchau. Não deixo ninguém gozar junto. O único que tem que ter prazer sou eu e mais ninguém. Aos 40 anos eu já comando esse morro com mãos de ferro e olhar c***l. No dia do acidente algo morreu dentro de mim; jurei que quem me traiu pagaria caro ,com a vida, se for preciso. Fui pra boca planejar o assalto que trouxe dinheiro e respeito rápido. Fiquei na boca resolvendo isso. Todos me respeitam e, se não respeitarem, morrem. Sou sangue frio. Vivo em um mundo sombrio. Um lugar onde só existem sombras, onde a ganância e o poder sempre prevalecem. A traição me transformou. Não há romantismo em reviver o passado , prefiro usar a lembrança como combustível. Meu pai tem nome, mas no morro ninguém chama pelo registro. Aqui todo mundo ganha um vulgo que cola na pele. Meu pai, o velho que me ensinou a abrir portas e fechar bocas, atende pelo vulgo Barão. Barão porque um dia foi rei , rei de medo, de acordos sujos, de silêncio comprado. Hoje, depois que ele decidiu pendurar o fardo, o trono ficou pra mim. Quem veste coroa no morro sabe: pesa, corta, marca. Barão veio me ver no topo uma semana depois que eu saí do hospital. A cicatriz ainda ardia, a máscara não cabia sem me lembrar de cada costura. Ele subiu a escada do meu bunker com passos lentos, cada degrau cheio de histórias. Barão — Você acha que tá pronto? — ele perguntou sem cerimônia. Olhei pra ele com a metade do rosto que sobrou. O silêncio era lâmina. Deformado — Já estava pronto antes. Só precisava de um empurrão — respondi. Barão riu, seco. Barão — Empurrão? Você sobreviveu ao fogo, filho. Nem todo homem tem essa sorte. Tem que saber usar isso. Controlar o que dói, transformar em moeda. Ele se encostou e bebeu cachaça como se fosse ar. Entregou-me as chaves do Vidigal. Não era só território , era sentença. Barão — Vocês vão me obedecer porque eu mando, não só por medo. Pelo respeito que eu construí. Seu nome agora gruda junto com o meu. — disse ele. Deformado — Meu nome agora é Deformado — respondi. — E eu vou fazer o que seu nome não fez: vou plantar medo no peito deles até que esqueçam de respirar direito. Barão inclinou a cabeça, avaliando. Ainda tinha o olhar que atravessava como vidro. Barão — Não deixe o poder te sugar, Cézar. Não deixe que vire monstro de verdade. Tenha juízo. Juízo. A palavra soou como piada. Juízo era coisa de quem podia perdoar. Eu não podia. Na boca, a vida e a morte fervilham. Desci naquela noite para resolver "coisas". Planejei um assalto a um banco pequeno no bairro vizinho. Não só pelo dinheiro: era recado. Mostrar que o Vidigal não era só lenda, era prática. Organizei o mínimo time necessário; executei com frieza. A máscara me fazia ser previsão e sentença. O vento cortou meu rosto quando pulei pro carro, e a adrenalina gelou por dentro. No topo, as comemorações foram rápidas: contagem de lucro, gritos nas vielas. Barão me olhou do alto, como quem avalia o horizonte. Barão — Fez bem — disse. — Mas cuidado: assalto é bom com lucro, r**m com exposição. Deformado — A exposição é ferramenta — respondi. — Quero que falem meu nome com temor, não com pena. No dia seguinte, o morro respirou meu nome em bocas que misturavam reverência e repulsa. Crianças me olhavam de longe, como fera de zoológico. Ri por dentro: sou a atração e o carrasco ao mesmo tempo. À noite, Pedro, o velho médico que me prendeu no hospital com promessas de silêncio, passou. Trouxe remédios e um olhar que tentava ser humano. Pedro — Você não precisa ficar assim — disse ele. — Sangue pega, filho. Tem médico que faz mais do que fechar ferida. Deformado — Não quero voltar a ser "antes". Não preciso de remédio pra nostalgia. — respondi. Pedro — Então o que procura? — perguntou. Deformado — Controle. Quero ser o cara que não é derrotado por desejo. Desejo sempre te afunda. — falei. Pedro suspirou e foi embora. A máscara, no espelho, me devolveu uma imagem perfeita: sem feridas, só sombra. Sorri mecanicamente. Algo dentro quebrou mais ainda. A rotina do topo é disciplina. Cada decisão pesa mais que o ar. Não tenho luxo de errar. Sei que a qualquer deslize a boca morde de volta. Por isso exijo obediência e respeito na unha. Quando vou à boca é com propósito, e quando volto é para lembrar que o morro tem memória. Eu a uso, e ela me usa. É troca. Barão ajeitou a capa no ombro e saiu de cena com passos medidos. Eu fiquei, com vento batendo na máscara, ouvindo o morro respirar. Era meu reino. Minha sentença. E jurei, outra vez, que ninguém que me traiu pagaria outra coisa que não o preço que eu escolhesse. Em cima do morro, com o rosto meio escondido e a máscara colada à pele, aprendi que cicatriz não é só lembrança do que perdi ,é aviso do que ganhei: poder, silêncio, medo. Andressa é apenas lembrança de um pecado antigo , não merece mais espaço do que o que já está enterrado. Não trabalho com nostalgia. Trabalho com consequências. Quem tem que sentir culpa ou medo é quem me fez sangrar. O resto é detalhe. E no silêncio, eu sorri. Sorriso frio, sem calor. Sorriso de homem que quer tudo e não pede desculpas por tomar. OBS : Para mais capítulos comentem e deixem bilhetes lunares, comentem bastante meninas para me ajudarem Coloquem o livro na biblioteca, me sigam no livro e no perfil
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