POV DE GABRIEL BLACKWOLF
Dante, com o rosto arrebentado e o corpo quebrado, soltou um rosnado abafado de dentro do quarto.
— Deixem o desgraçado em paz, per l'amor di Dio — a voz dele saiu arrastada, carregada de dor e autoridade.
Engoli em seco. Senti o calor da Chiara subindo pela minha pele enquanto eu me preparava para falar a verdade amarga.
Mas Dante foi mais rápido. Ele não ia deixar o segredo vazar.
— Chiara... — Dante tossiu, o monitor cardíaco dele oscilando. — Ele precisa de mim porque, na ausência dele, eu fico no comando. A mulher dele está aqui, você não está vendo?
Ele fez uma pausa longa, lutando pelo ar.
— Gabriel precisa ficar aqui com ela. Eu estou na linha de comando. Eu sou o segundo.
Chiara não se moveu. Ela me estudou por longos segundos, as narinas dilatando como se estivesse farejando a mentira no ar. Ela não estava satisfeita, eu sentia isso no meu osso.
Finalmente, ela desviou o olhar. Deu as costas e entrou no quarto de Dante, sendo seguida pelo restante do bando dos Leone.
Eu soltei o ar que nem sabia que estava prendendo.
Caminhei até o quarto da Júlia, sentindo o peso do mundo nos ombros. O desgraçado do Leone estava mentindo para a própria família. Por algum motivo, ele não queria que ninguém soubesse que ele era o único que poderia marcar a minha mulher.
Bom, aquele problema era dele. Se ele queria esconder a própria traição ou proteger o clã da verdade, ele que se resolvesse com os Salvatore.
Abri a porta do quarto da Júlia.
O cheiro de baunilha estava fraco, sufocado pelo álcool, mas era a minha âncora.
Ela me olhou. Os olhos caramelos estavam úmidos, a boca entreaberta como se quisesse pedir perdão por algo que não era culpa dela.
— Gabriel... você o machucou por quê? — O sussurro dela foi um golpe no meu estômago.
Eu a segurei. Senti o calor da pele dela e, por um segundo, a escuridão da maldição se acalmou.
Dei um beijo de leve nos lábios ressecados e sem vida dela. O gosto era de remédio e promessas quebradas.
Respirei fundo, sentindo o peso do meu pecado no peito.
— Não foi de propósito. Ele entrou no meu caminho, eu estava caçando. — Menti, ou pelo menos, mascarei a verdade sanguinária. — Não se preocupa, tá? Só descansa. Você precisa de força.
Ela franziu a testa, a confusão nublando sua consciência frágil.
— Júlia, não quero que se preocupe, tá? Vai ficar tudo bem. Só se concentre em você agora e poupe seu fôlego. Você está sem forças.
Se ela tivesse forças, teria discutido. Mas apenas aceitou, fechando os olhos por um segundo que pareceu uma eternidade.
Pensei que teria paz.
Pensei que o bando Leone e a sombra de Dante seriam meus únicos problemas naquele dia. Eu estava errado.
O ar no corredor mudou. O oxigênio ficou ralo, carregado de uma autoridade que eu reconheceria em qualquer lugar do mundo.
Alguém parou na porta. O meu pesadelo encarnado. O homem que a fez esquecer de mim.
Arthur Blackwolf. Meu primo. No passado, um dos meus melhores amigo. Que virou, o meu inferno.
Vestido com a farda de Comandante da Força Aérea Lupina, ele parecia grande demais para o quarto. Eu odiava o fato de ele ser alguns centímetros mais alto que eu.
O desgraçado teve a ousadia de trazer um buquê. Rosas cor-de-rosa clarinhas. As preferidas dela.
Me levantei de um pulo. A cadeira arrastou no piso com um som estridente.
Júlia abriu os olhos e arregalou quando o avistou, a respiração falhando.
Meu sangue ferveu. A visão dele ali, com aquelas flores malditas, foi como um soco direto no meu estômago.
— Você só pode ter perdido a p***a da cabeça! — rosnei.
Gideon deu um solavanco dentro de mim, as garras invisíveis arranhando minha sanidade.
Arthur nos encarou. O olhar dele era de um gelo absoluto, firme e sem um pingo de remorso.
Ele ignorou minha fúria. Caminhou dois passos para dentro, o cheiro de pinho e altitude sufocando o perfume da Júlia.
— Gabriel... eu não vim aqui brigar — a voz dele saiu baixa, sem o tom de desafio que eu esperava. — Só vim oferecer minha ajuda.
O buquê tremeu levemente na mão dele.
— Eu sei o que está acontecendo — ele continuou, dando um passo cauteloso para dentro. — Sei que o Leone está arrebentado e que você está... incapacitado.
Eu sou um Alfa puro e completo. Se ela precisar da marca para sobreviver à transição, eu estou aqui.
Meu sangue ferveu. A "ajuda" dele era um insulto. Ele queria tocar no pescoço dela de novo. Queria ser o herói depois de quase tê-la destruído com o ciúme doentio no passado.
— Ajuda? — Minha risada foi um som seco e perigoso. — Nós não precisamos e nem queremos sua ajuda, mas você pode ter certeza se você não sair daqui agora eu vou te ajudar e entrar em um caixão!
Arthur baixou o olhar para as rosas, o maxilar trancado.
— Eu sei o que eu fiz. E é por isso que estou aqui. — Ele deu mais um passo, ignorando o meu rosnado. — Não deixe o seu ódio por mim ser o caixão dela, Gabriel.
Júlia tentou se erguer na cama, a respiração ficando errática no monitor.
— Arthur... — ela sussurrou, a voz carregada de um pavor antigo.
— Fica calma, Júlia. — Ele a olhou com uma tristeza que me deu náuseas. — Eu só quero que você viva. Mesmo que não seja comigo.
O monitor cardíaco começou a apitar mais rápido. O pânico dela era palpável.
Antes que eu pudesse avançar para arrancá-lo dali, a porta da ala foi aberta com força.
Rafael Blackwolf entrou como um furacão, olhando para o buquê, para o Arthur e para o meu estado de fúria.
— Mas que p***a é essa? — Rafael gritou. — Arthur, eu esperava ver qualquer pessoa aqui menos você.
Rafael Cruza os braços, Arthur já tinha adentrado mais o quarto mesmo sem permissão colocou as rosas ao lado da cama dela e ela ergue a mão para toca-las.
— São lindas as flores Arthur obrigada. — dava pra sentir a dor na voz dela. Mesmo a voz dela saindo quebrada quase um sussurro.
Vendo ele tão próximo dela naquele momento não pude deixar de lembrar do passado de quando eu escolhi a Jade e praticamente entreguei ela com laço e tudo para ele.
Meu alto-controle estava se esvaindo eu não queria quebrar tudo ali na frente dela e sofrer o controle de novo como fiz a poucas horas machuquei Dante e eu podia machucar mais gente.
— Vá embora Arthur não vou ficar avisando ou você sai ou eu te arrasto. — minha voz já estava mudando alterada por Gideon.
Arthur não recuou. Ele se inclinou sobre Júlia, ignorando o rosnado que vibrava no fundo da minha garganta, fazendo o monitor cardíaco dela saltar.
— Você não consegue nem respirar sem ajuda, e o Gabriel está ocupado demais rosnando para perceber que você está definhando — Arthur sussurrou, alto o suficiente para eu ouvir.
Avancei um passo. Gideon queria assumir. Queria rasgar a farda de Comandante e mostrar quem era o monstro.
— Saia de perto dela. Agora. — Minha voz não era humana.
Arthur se virou lentamente, os olhos brilhando com uma determinação fria que substituiu a vergonha de segundos atrás.
— Eu não tenho medo da maldição, Gabriel. Também sou Blackwolf! — ele sibilou, o rosto a centímetros do meu. — O Leone não vai aguentar a marcação. Ele está arrebentado. Você quer que ela morra para salvar seu orgulho, ou quer que eu a salve?
O desgraçado se virou para ela, tocou a mão dela com uma delicadeza que me cegou de ódio.
— Júlia, a escolha é sua. Eu estou aqui para ajudar. Eu sei que te machuquei muito, não estou te pedindo de volta. Só quero te salvar. O Dante já saiu da jogada e você pediu o divórcio, portanto a escolha é sua... não é dele.
A escolha estava na mesa. E era a pior escolha da minha vida.
Rafael deu um passo à frente, segurando o braço de Arthur com força.
— Fora. Agora! Ou eu chamo a segurança e você perde essa farda antes do pôr do sol.
— Eu não vou sair deste hospital — Arthur sentenciou, a voz cortante como vidro.
Ele ajeitou a dilação da farda, recuperando a postura de Comandante da Força Aérea. O olhar dele era uma mistura de teimosia e algo que eu odiava admitir que parecia preocupação.
— Eu não sei os detalhes, não sei exatamente o por que ela está morrendo. Só sei partes. Mas sei o suficiente para entender que ela precisa ser marcada na Lua Cheia. E a Lua Cheia é amanhã.
O monitor cardíaco de Júlia deu um solavanco. Ela nos olhava, o pavor antigo lutando contra a fraqueza extrema.
— Vou ficar no saguão esperando a decisão dela — Arthur continuou, sem vacilar. — Se o Leone falhar, eu sou a única saída.
Rafael deu um passo à frente, mas não precisou virar o temível demônio de gelo que eu conhecia bem. E eu não precisei sucumbir à maldição para tirar Arthur dali.
O ar da UTI foi subitamente esmagado por uma presença mais forte e ameaçadora do que a de qualquer outro Alfa, fazendo o sangue de todos nós congelar.