POV DANTE LEONE
A palavra caiu entre nós como uma bigorna de chumbo. O impacto foi tão letal que o chão sumiu sob os meus pés, levando todo o oxigênio da sala embora.
As fotos da mulher mutilada na mesa tática pareceram rir de mim.
— Morrendo? — minha voz saiu esganiçada. Um som patético, fraco e tremido que eu não reconheci como meu. — Ela tava bem... eu a vi esses dias…
Eu não conseguia processar. O lobo dentro de mim arranhava meu peito, uivando de dor.
— O coração dela parou hoje. Várias vezes — ele cortou, brutal e direto. Cada palavra dele era um prego no meu caixão. — A loba dela não aceitou a minha rejeição do passado. O corpo humano quebrado dela não suporta a transição sozinho. Ela está morrendo de dentro para fora.
Gabriel travou o maxilar. Os músculos do pescoço dele saltavam. Os olhos azuis elétricos faiscavam, numa mistura insana de desespero cru e raiva assassina.
Ele estava à beira da loucura.
— Ela precisa ser marcada por um Alfa puro. O mais rápido possível. E você, infelizmente, é o único aqui que consegue fazer isso e impedir a parada cardíaca definitiva.
O silêncio que se seguiu foi sepulcral.
A memória da nossa noite no bar me atingiu como um soco direto nas costelas, quebrando meus ossos. Júlia se aproximando. O sorriso tristonho iluminando o rosto pálido. As conversas mansas. O flerte sutil e vulnerável.
Ah, que droga…
O gosto amargo subiu pela minha traqueia. A verdade desceu rasgando minha garganta, amarga como fel, envenenando cada lembrança boa que eu tinha daquela noite.
Ela não queria a mim. Ela não sentia atração pelo Dante Leone. Ela não estava me escolhendo por amor.
Ela só queria a p***a da minha marca para sobreviver à rejeição dele.
Eu era apenas a p***a de um remédio de emergência. Um band-aid para o estrago que o Blackwolf tinha feito.
O coração doeu. Uma pontada estúpida, aguda e patética de rejeição que perfurou o centro do meu peito.
As palavras da minha ex-mulher chicotearam na minha mente, altas e zombeteiras: "Ela nunca será sua". Chiara estava certa o tempo todo.
O orgulho ferido do macho rejeitado assumiu o controle imediato. O ódio quente e espesso me cegou. Se ela me queria só como uma maldita cura biológica, então que fosse. Eu a teria por completo.
Me encostei na beirada da mesa tática, cruzando os braços com força para tentar mascarar o estrago ensanguentado no meu peito.
A encenação do Don mafioso, frio e intocável assumiu o lugar do homem de coração partido. Ergui o queixo.
— Eu a marco, sim — respondi. A voz arrastada, gélida, transbordando um tom mercantil e sádico. — Mas você terá que sair do meu caminho, Gabriel. Eu quero ela por completo. Sem você rondando a nossa vida.
Gabriel rosnou. Não foi um som humano. Foi um aviso animal que rasgou o ar e fez os vidros da pequena sala tremerem nas esquadrias.
— Você está negociando comigo, p***a? — ele avançou em um milésimo de segundo. As mãos dele desceram com violência, cravando as garras na borda de metal da mesa, que rangeu e amassou sob a força do Alfa. — Qual é o seu maldito problema, c*****o? Ela está morrendo naquela cama!
Eu não recuei. A dor me tornava inconsequente. Apontei o dedo na direção do rosto furioso dele.
— Você desistirá dela por completo. Para sempre. Sem visitas, sem desculpas esfarrapadas, sem o nome dela na sua maldita boca. O tempo dela está acabando, Blackwolf. Escolha logo.
Eu vi o golpe acertar em cheio. Vi a dor dilacerar as feições duras dele. Mas o que despertou nos olhos elétricos do Gabriel não foi submissão.
Foi o abismo.
O ar na sala ficou absolutamente gelado. A respiração saía em névoa. A maldição dele expandiu, rastejando pelo chão como uma fumaça n***a, esmagando todo o oxigênio do meu corpo.
O demônio que vivia na linhagem Blackwolf havia acabado de assumir o controle total.
— Você acha que é obcecado por ela? — ele sussurrou.
A voz era dupla, profunda e inumana. A escuridão física pesou sobre os meus ombros, ameaçando quebrar minha coluna. — O seu limite é o seu filho, Matteo. Você não sacrifica ele por ela. Mas pra mim, Leone... pra mim, ninguém tá acima dela. Nem o meu próprio sangue.
O choque cortou minha respiração e apagou a minha arrogância em um piscar de olhos. A verdade daquelas palavras era monstruosa.
Gabriel ergueu a mão e bateu o dedo duro e afiado contra o meu peito. Bem em cima de onde o meu coração batia freneticamente.
— E quer saber por que o que você sente não é amor de verdade? Porque você teve a covardia e a coragem de negociar os últimos minutos de vida dela.
Ele agarrou a gola da minha farda antes que eu pudesse reagir. O puxão foi violento, me arrastando por cima da mesa tática para colar meu rosto no dele.
— Você vai marcar ela, Leone. Nem que eu quebre a p***a da sua mandíbula agora mesmo e enfie seus dentes direto no pescoço dela.
Ele me soltou com um empurrão brutal contra a parede. O concreto rachou atrás de mim.
Gabriel deu as costas, o sobretudo balançando. A aura esmagadora dele decretando silenciosamente que me mataria e arrancaria minha cabeça na próxima lua cheia se eu ousasse não marcá-la.
Eu cambaleei, o orgulho completamente estilhaçado no chão. Mas o instinto cego me fez desencostar da parede e ir atrás dele. Eu não a deixaria morrer.
O ar cortante da noite bateu no meu rosto assim que pisamos no estacionamento da delegacia.
Tentei recuperar a voz, questionar se a p***a da minha marca realmente funcionaria nela, se meu lobo seria aceito, mas Gabriel cortou qualquer hesitação minha com um rosnado letal.
Ele abriu a porta do SUV blindado com tanta violência que as dobradiças choraram.
A nossa discussão morreu ali. A trégua forçada pelo desespero começou.
Mas antes que ele pudesse dar a partida, as portas de vidro da recepção da delegacia estouraram abertas com um estrondo assustador.
Asher saiu correndo para a rua, escorregando no asfalto molhado. Johnny e vários policiais da força tática vinham no encalço, armados com fuzis e espingardas, destravando as armas.
O pânico absoluto estava estampado no rosto de cada um deles.
— Comandante! — Asher gritou, correndo na nossa direção, sem fôlego, o rosto pálido como a morte. — Invasão no hospital!
O mundo parou de girar. O oxigênio sumiu do universo.
— Um homem todo de preto foi visto na UTI... Ele tá no quarto da senhora Blackwolf! Os guardas não estão dando conta dele, comandante, ele tá matando todo mundo!
Aquele psicopata fatiador de mulheres estava no quarto da Júlia. Na UTI. Onde ela estava desmaiada, com o coração parando.
Gabriel travou. A mão dele esmagou a maçaneta do carro.
A escuridão absoluta transbordou do corpo dele, vazando de forma agressiva para o ar frio da madrugada.
Os olhos perderam completamente o azul, sendo engolidos por um preto letal e sem alma. O monstro assumiu a direção.
— Vamos logo, p***a! — ele rugiu, e a voz inumana rasgou os céus da Costa da Lua.
Não precisou dizer mais nada. Meu sangue ferveu de adrenalina pura.
Pulei para dentro da viatura. Pneus cantaram queimando borracha no asfalto, as sirenes rasgaram a noite em um uníssono ensurdecedor, e todos nós já estávamos a caminho do inferno.