POV JÚLIA MONTSERRAT
Acordei sozinha em uma cama que não era minha, mas o cheiro que me envolvia era familiar demais: terra molhada depois da chuva, aço frio e algo quente, masculino. Dante Leone.
Meu corpo, que ontem à noite parecia prestes a se desfazer em brasas, agora respirava calmo. A loba rosa dentro de mim não rosnava mais de dor — ela ronronava, satisfeita, como se tivesse encontrado um porto seguro.
Sentei devagar, o lençol macio deslizando pela pele. O latejar na cabeça ainda existia, mas o aperto no peito... esse havia diminuído. Pela primeira vez em anos, eu não sentia Gabriel me sufocando de dentro pra fora.
Desci as escadas descalça sendo guiada pelo cheiro e ovos e café.
Dante estava na cozinha, exatamente onde eu esperava que estivesse. Estava de costas para mim, concentrado em uma frigideira onde os ovos estalavam no fogo baixo.
Estava sem camisa, apenas de short de moletom, e a visão era e tanto. Dante sempre foi um homem atraente, mas vê-lo assim, desarmado, fazia parecer que tínhamos feito isso a vida inteira.
— Bom dia — falei, encostando o ombro no batente da porta.
Ele se virou devagar, o rosto relaxado, sem aquela máscara de Alfa que ele usava para o mundo.
— Bom dia... como você está? — ele perguntou, os olhos verdes me percorrendo com uma calma que me desarmava.
Dei de ombros, caminhando até o balcão.
— Me sinto bem... — respondi, omitindo a vibração sombria que ainda arranhava meu sangue.
Sentei-me no banco alto enquanto ele terminava de mexer os ovos. Ficamos em silêncio por um momento, um silêncio confortável, sem a necessidade de preencher o vazio com explicações. Dante serviu dois pratos e nos sentamos à mesa de madeira maciça no centro da cozinha.
Olhei ao redor enquanto ele colocava o café. A casa dele era linda, o oposto absoluto da mansão Blackwolf.
Lá, o mármore frio e o luxo agressivo pareciam gritar o tempo todo; aqui, o ambiente era aconchegante. Paredes de pedra rústica, vigas de madeira aparente e aquela iluminação quente que fazia tudo parecer mais seguro. Não tinha ostentação, mas tinha tudo o que precisava ter.
— Sua casa é linda — comentei, pegando uma torrada e levando à boca.
— Fico feliz que tenha gostado — ele respondeu, servindo-se do café como se estivéssemos em uma manhã qualquer de domingo.
Dante me observava com uma naturalidade que me fazia esquecer, por alguns segundos, que eu era um problema e que, tecnicamente, ele era o inimigo da minha família. Ali, entre o gosto amanteigado da torrada e o calor do café, eu me sentia em casa.
Mas, por trás da calma dele, eu sentia que o mundo lá fora estava desmoronando. O incômodo pessoal no meu peito deu um solavanco, um aviso silencioso de que a paz na casa dos Leone era apenas o olho do furacão.
Dante deu um gole no café, os olhos fixos na mesa de madeira antes de encontrar os meus.
— Bom, não é a mansão que eu vivia quando ainda era o herdeiro Leone — ele disse, com uma ponta de ironia que não chegava a ser amarga, apenas realista.
Eu sabia do que ele estava falando. Eu conhecia muito bem a mansão Leone — e todos os segredos sombrios que aquelas paredes de mármore antigo escondiam. Mas, olhando para o calor que emanava desta cozinha, para a pedra rústica e a luz do sol batendo no balcão, a comparação nem era justa.
— Mas sabe eu acho que aqui é bem melhor... — comentei, sorrindo para ele de forma reconfortante. Eu sabia exatamente tudo o que ele tinha perdido e, principalmente, os motivos. Dante tinha trocado o poder pelo que acreditava ser certo, e estar aqui, nesta casa, era a prova de que ele tinha vencido, de um jeito ou de outro.
O silêncio voltou, mas era um silêncio bom. Meus pensamentos voaram para o passado, para os rostos que ficaram para trás na poeira daquela rivalidade sangrenta.
— Sinto saudades do Felipe — falei, sentindo uma pontada de nostalgia. — Ele era um bom amigo.
Dante parou a caneca no meio do caminho e ergueu uma sobrancelha, um brilho divertido, mas ligeiramente possessivo, passando por seus olhos verdes.
— Então você vai poder matar essa saudade. Ele está na cidade.
Eu quase engasguei com a torrada. Olhei para ele, genuinamente surpresa, sentindo uma animação que eu não esperava sentir tão cedo.
— Sério? Nossa, isso é ótimo! Ele não me avisou que viria.
Dante fez uma careta impagável, bufando de leve enquanto voltava a mexer nos ovos na frigideira, fingindo uma irritação que não combinava com o jeito relaxado dele.
— Hum... acho que estraguei a surpresa. Ele ia aparecer aqui mais tarde.
Eu ri, e o som da minha própria risada soou estranho nos meus ouvidos — era leve, desarmado. Por um segundo, a agonia que latejava no fundo do meu peito pareceu recuar, intimidada pela presença vibrante de Dante e pela notícia de que um rosto amigo estava por perto.
Dante voltou para a mesa e se sentou de frente para mim, a proximidade fazendo minha pele formigar. Ele me observava comer com uma intensidade silenciosa, como se estivesse memorizando cada detalhe daquela cena. Para qualquer um que olhasse de fora, éramos apenas dois velhos conhecidos tomando café.
Mas para nós, e para a Costa da Lua, aquele café da manhã era um pecado. Eu estava na casa do homem que os Blackwolfs mais odiavam, vestindo a camisa dele, enquanto o rastro de sangue que deixei na areia começava a esfriar.
Gabriel agora provavelmente estava feliz ao lado de Jade. O pensamento me machucou mais do que eu gostaria. Abaixei o olhar por um segundo.
A leveza da menção ao Felipe se dissipou tão rápido quanto a fumaça do café. Olhei para Dante, sentindo o peso da camisa dele sobre meus ombros e a profundidade do olhar verde que ele me lançava. Eu precisava ser honesta. Depois de tudo o que ele passou por minha causa, de ter renunciado a tanta coisa, eu não podia simplesmente usá-lo como um porto seguro temporário sem deixar as cartas na mesa.
Com um movimento leve ele estendeu a mão e tirou uma mecha do meu cabelo que havia caído no meu olho o gestou me aqueceu de um jeito que eu não sabia explicar. Sorri para ele.
Respirei fundo, sentindo o ar rústico da cozinha encher meus pulmões.
— Dante, eu quero ser honesta com você... — comecei, minha voz soando firme, embora meu coração batesse contra as costelas.
Ele me encarou, e por um segundo, o tempo pareceu parar. O mundo se resumiu àquela mesa de madeira e à verdade que eu estava prestes a disparar. Mas, antes que a primeira palavra saísse, o som estridente de um celular tocando cortou o ambiente.
Dante desviou o olhar para o aparelho sobre o balcão.
Ele o pegou e, sem hesitar, recusou a chamada, jogando o telefone de volta com um movimento seco. Ele voltou a focar em mim, mas o clima já tinha uma rachadura.
— Pode atender, Dante... — eu disse, sentindo que a coragem estava escorrendo pelos meus dedos.
— Não... não deve ser importante. Depois eu retorno — ele respondeu, mas m*l terminou a frase e o aparelho vibrou novamente, cortando o silêncio com uma insistência irritante.
Dante olhou para o celular com uma expressão de fúria pura, como se o aparelho estivesse cometendo um crime grave contra a nossa paz. Ele parecia um predador prestes a esmagar uma presa barulhenta. Eu não pude evitar; soltei uma risada curta.
— Dante, atende. Eu não vou a lugar nenhum — falei, tentando tranquilizá-lo.
Ele bufou, visivelmente irritado por ter seu momento interrompido, e pegou o telefone com brutalidade.
— O que é, cara? — ele atendeu, a voz saindo como um rosnado de Alfa. — Estou ocupado! Espero que alguém esteja morto para essa insistência toda!
O silêncio que se seguiu na cozinha foi absoluto. Eu conseguia ouvir apenas o chiado baixo que vinha do outro lado da linha, uma voz frenética que eu não conseguia identificar. Conforme os segundos passavam, a irritação no rosto de Dante começou a derreter, sendo substituída por uma palidez que me fez gelar o sangue.
O maxilar dele travou com tanta força que vi os músculos do pescoço saltarem. Ele não disse mais nada, apenas ouviu, seus olhos verdes fixos na janela, mas parecendo enxergar o vazio.
A frase dele — "espero que alguém esteja morto" — agora parecia flutuar entre nós como uma profecia maldita. O incômodo pessoal no meu peito, aquele que eu vinha tentando ignorar, deu um solavanco tão violento que eu precisei segurar a borda da mesa.
— Entendi — Dante disse, finalmente, sua voz agora baixa, fria e desprovida de qualquer emoção.
Ele desligou o celular e ficou imóvel por um tempo eterno. Quando ele finalmente me olhou, eu soube. O mundo lá fora tinha acabado de bater à porta da nossa fortaleza.
— O que foi? O que aconteceu? — perguntei, minha voz saindo quase como um sussurro.
A atmosfera na cozinha, que antes era quente e acolhedora, tornou-se pesada como chumbo. O cheiro de café agora parecia sufocante.