POV GABRIEL BLACKWOLF
Suspirei fundo, sentindo o peso do cansaço esmagar meus ombros. Inclinei-me na direção de Jade, forçando meus olhos a focarem nela e apenas nela.
Os cabelos loiros dela estavam perfeitos, alinhados, sem um único fio fora do lugar, como se ela tivesse acabado de sair de uma capa de revista de medicina.
Jade era focada, contida, o oposto exato do furacão incendiário que a Júlia costumava ser.
— Me desculpe. Me estou cansado sabe aconteceu muita coisa... — falei, minha voz saindo mais rouca do que eu pretendia.
Peguei as mãos dela, sentindo a pele macia e fria, e as levei à boca. Beijei seus dedos com uma lentidão calculada, tentando forçar uma conexão que, no fundo da minha alma, parecia ter evaporado junto com o rastro de limão e baunilha que Júlia deixou no corredor. Eu queria sentir o choque. Queria sentir a eletricidade que um dia me fez acreditar que Jade era a única mulher do mundo para mim. Mas não havia nada. Apenas o gosto suave de creme caro e o cheiro de violetas.
Jade suspirou, a expressão suavizando enquanto ela se aproximava, invadindo meu espaço com uma confiança que me incomodava.
— Tudo bem, eu me empolgo demais às vezes falando da minha carreira você sabe... E também eu só não quero falar do passado. Quero falar do futuro. Eu aluguei um apartamento no centro, a gente pode ir para lá agora. O que você acha?
Olhei para ela e, por um segundo, a imagem de Júlia se sobrepôs à dela como um fantasma insistente. Jade era contida demais. Se fosse a Júlia, a essa hora ela já teria me beijado com urgência, me deixando e******o no meio da sala, sentando no meu colo, se esfregando em mim e me deixando louco, e me fazendo rir entre um gole de cerveja e outro. A realidade era c***l: Júlia era o incêndio que eu tentava apagar; Jade era apenas uma lareira decorativa, bonita de se olhar, mas incapaz de me aquecer por dentro.
— Hum, claro. Podemos ir, mas eu preciso esperar a Júlia voltar — respondi.
O nome dela saiu da minha boca com uma naturalidade que eu não pretendia. Foi como um reflexo condicionado, um instinto de Alfa que ainda reconhecia quem deveria estar sob o meu teto.
A cara de Jade fechou instantaneamente. O brilho cor de jade nos olhos dela se tornou afiado, cortante.
— É sério?
— Jade, eu não posso deixar meus filhos aqui sozinhos. Se a mãe deles não está, eu tenho que ficar.
— A casa está cheia de seguranças e empregados, Gabriel! — Ela bufou, virando o rosto e cruzando os braços com uma petulância que eu não lembrava que ela tinha. — Ela só deve estar se acabando de chorar na praia. Por que você não avisa a alguém para olhar as crianças e, quando ela chegar, ela assume?
Na verdade, eu não estava com a mínima vontade de ir a apartamento nenhum. O simples pensamento de me fechar em quatro paredes com a Jade agora me causava uma claustrofobia sufocante. Mas eu não diria isso. Não agora. Eu precisava acreditar que ela era o meu porto seguro, mesmo que o mar estivesse revolto demais.
— Eu sou o responsável por eles. E a Júlia não está bem, ela ainda está fraca do pós-cirúrgico. Preciso ficar, Jade. Outro dia nós vamos, está bem?
O silêncio que se seguiu foi tenso, carregado de uma insatisfação que eu não tinha energia para aplacar. Eu não estava apenas protegendo meus filhos; eu estava esperando por ela. Cada batida do meu coração parecia contar os segundos do sumiço de Júlia. O fato de Jade não entender que a saúde da mãe dos meus filhos era uma prioridade absoluta começou a criar uma rachadura profunda no pedestal onde eu a coloquei por sete anos.
Eu precisava dar algo a ela. Uma promessa, uma migalha de futuro para que ela se conformasse e parasse de me cobrar uma atenção que eu simplesmente não conseguia dar. Estávamos sentados à beira da piscina, sob o guarda-sol de uma mesa branca, mas a brisa da noite da Costa da Lua já soprava fria, trazendo o sal do mar e um vazio que eu não conseguia preencher.
— Olha, eu e você podemos morar juntos. Retornamos de onde paramos, o que você acha? — lancei a proposta, tentando soar como o homem apaixonado que eu era sete anos atrás. Cada palavra soava como um roteiro m*l decorado.
Jade demorou a responder. Ela me olhou, ainda meio emburrada, os olhos azuis faiscando sob a luz artificial da piscina.
— Eu não sou qualquer uma, Gabriel. Eu quero me casar com você. Como sempre deveria ter sido.
Senti um peso de chumbo no peito, mas puxei-a para perto, envolvendo-a com os braços em um abraço mecânico. O corpo dela era rígido, sem a entrega visceral que eu estava acostumado a sentir com a Júlia. Jade não se moldava a mim; ela apenas ocupava o espaço ao meu lado.
— Claro. Vamos ter tudo o que perdemos de volta. Não se preocupa, vamos nos casar.
Ela encostou a cabeça no meu ombro e ficamos ali, observando o mar escuro. A conversa me pareceu vazia, as promessas soavam ocas. Minha irritação pelo sumiço de Júlia não passava; pelo contrário, crescia a cada segundo, transformando-se em uma ansiedade física que me fazia querer rosnar para as estrelas. Onde ela estava? Por que meu lobo não conseguia sentir o rastro dela nem de longe?
Depois de um tempo, ela bocejou, o som sendo o sinal de que a tortura social daquele dia estava chegando ao fim.
— Estou cansada. Vamos dormir?
Entrei em pânico. Se eu subisse com ela, ficaria preso naquela cama, sob o perfume de violetas, enquanto minha mente estaria lá fora, revirando cada centímetro daquela areia até encontrar a Júlia. Mas então, a frieza estratégica que Nathanael tanto elogiava assumiu o controle. Pensei direito: eu deito com ela, espero que ela durma e saio. Exatamente como já fiz milhões de vezes quando precisava de silêncio.
O tempo passou, sete anos se foram, e a vida continuava a mesma droga de ciclo vicioso: eu com a Jade, mas minha alma indo atrás da Júlia.
— Vamos sim. Claro... — respondi, forçando um tom suave que não chegava aos meus olhos.
Subimos as escadas em silêncio. No quarto, a luz da lua entrava pelas frestas da cortina, desenhando sombras que pareciam me julgar. Deitamos. Esperei, contando cada batida errática do meu coração, até que a respiração de Jade ficasse profunda e rítmica. Mexi nela de leve; estava apagada.
"Isso aí", comemorei mentalmente, sentindo um alívio covarde.
Saí do quarto sem fazer barulho, como uma sombra que foge da própria luz. Cada passo que eu dava para longe daquela cama era um suspiro de alívio. Desci as escadas, saí da mansão e fui direto para a praia. O ar gelado bateu no meu rosto, mas não havia sinal dela. O rastro de baunilha estava diluído pelo vento, mas meu instinto de Alfa — aquele que eu tentava ignorar — me puxou violentamente para a direita.
Avistei as luzes roxas e amarelas do Blackwolf Beach Bar brilhando ao longe. Meus pés ganharam velocidade na areia, a urgência me fazendo esquecer a dor da descida de classe.
Algo estava errado. O ar ao redor do bar não cheirava a festa. Cheirava a pólvora, a sangue e ao odor metálico de um Alfa que não deveria estar em território Blackwolf.
Parei na entrada, meus olhos varrendo o balcão. Killian estava lá, o rosto tenso, discutindo com um dos seguranças. No momento em que ele me viu, sua expressão mudou para puro pavor.
— Gabriel... você não devia ter vindo — ele disse, a voz trêmula.
— Onde ela está, Killian? — minha voz saiu como um trovão, o comando de Alfa fazendo as garrafas no balcão vibrarem e o silêncio se instalar como uma mortalha.
— Ela estava aqui... com o Leone. E agora os dois sumiram.
Senti o chão sumir. O divórcio nem tinha esfriado e ela já estava nos braços do meu maior inimigo? O ódio que explodiu no meu peito foi tão grande que minha visão ficou vermelha, as bordas do meu campo de visão latejando em sintonia com a fúria do meu lobo.
Meus olhos travaram na figura que eu não via há anos: Felipe Leone. Ele estava parado no meu bar, com um sorriso que eu queria arrancar da cara dele com os dentes.
— CADÊ O MALDITO DO SEU IRMÃO? — rugi, avançando como um predador.
Agarrei o colarinho dele, jogando-o contra a viga de madeira com uma força que fez o teto tremer. Eu ia queimar o mundo inteiro se o sangue dela estivesse nas mãos de um Leone. Ou pior, se o toque dele estivesse na pele que ainda pertencia a mim.