Capítulo 9 — O Fantasma de nós.

1200 Words
POV GABRIEL BLACKWOLF "Eu te amei tanto, Gabriel..." As palavras dela ainda flutuavam no ar do escritório, impregnadas com o cheiro de limão e baunilha que eu tentava desesperadamente ignorar. "... Mas agora acabou e você sabe disso. Não vamos repetir os mesmos erros. E eu sinto muito... por tudo." O uso do verbo no passado foi como uma facada de prata direto no meu estômago. Eu saí daquela sala com os pulmões queimando, sentindo o peso de cada letra daquela frase. Amei. No passado. Como se o incêndio que vivemos tivesse virado cinzas frias enquanto eu ainda estava tentando entender como apagar as chamas. O silêncio que Júlia deixou para trás era mais barulhento do que qualquer rosnado de guerra. Eu precisava cancelar aquele e-mail. Precisava dizer que o divórcio era um erro, que a marca... p***a, que a marca era necessária e que eu estava sendo um covarde. Caminhei a passos largos pela mansão, a autoridade de Alfa emanando de mim de forma descontrolada, fazendo os quadros nas paredes vibrarem. — Júlia? — chamei. Minha voz ecoou pelas paredes de pedra e mármore, mas apenas o vazio me respondeu. — Júlia! — Ela saiu — uma voz soou de um dos corredores. — Disse que precisava de ar. Foi em direção à praia. Me virei na mesma hora. Meus pés já se moviam antes que meu cérebro desse a ordem consciente. Eu a alcançaria na areia. Eu a traria de volta pelo braço se fosse preciso, só para fazê-la repetir aquela frase e olhar nos meus olhos enquanto mentia que não me amava mais. Mas, antes que eu pudesse cruzar o limite da varanda, uma figura bloqueou meu caminho. Jade. Ela estava parada sob a luz do sol, a pele branca brilhando, os olhos cor de jade carregados de uma mágoa que eu conhecia bem. O contraste entre a urgência que eu sentia por Júlia e a calma fria que Jade emanava quase me fez perder o equilíbrio. — Você vai atrás dela? Vai mesmo continuar correndo atrás dela? — a voz dela quebrou no meio da frase, engasgada por uma dor crua que me fez parar no mesmo instante. — Foi pra isso que eu voltei, Gabriel? Pra te ver escolhendo a Júlia... de novo? Olhei para ela. Jade não merecia aquilo. Ela tinha voltado para mim depois de anos de espera, depois de tudo o que passamos. Por que, diabos, eu ainda estava correndo atrás da Júlia? Por que o rastro dela era o único que meu lobo buscava desesperadamente? Respirei fundo, forçando meus ombros a relaxarem e sufocando o uivo que implorava para sair. — Não — respondi, lutando contra o impulso visceral de olhar para o mar. — Você tem razão. Caminhei até ela e coloquei as mãos em seus braços, sentindo a delicadeza da sua estrutura. Era como segurar uma porcelana fina, enquanto meu corpo pedia pelo atrito e pelo fogo de Júlia. — Eu já resolvi o que tinha para resolver com ela — forcei um sorriso, tentando soar convincente para mim mesmo, embora cada fibra do meu ser soubesse que eu estava mentindo. "Que droga está acontecendo comigo?", meu pensamento rugiu. Passei anos desejando Jade de volta. Sonhei com esse momento em todas as noites solitárias. E agora, ela estava bem aqui, e a faísca que eu tanto esperei parecia ter virado cinza diante do eco da voz de Júlia me dizendo adeus. — Eu sou todo seu — murmurei, inclinando-me para dar um beijo em sua testa. Senti o cheiro dela. Violetas e flores selvagens. Era o aroma que costumava ser o meu paraíso. Mas agora... agora ele não me causava efeito. Era apenas um perfume comum. O cheiro que eu realmente queria, aquele que estava entranhado na minha alma, estava se afastando de mim a cada segundo, sumindo na imensidão da praia. Senti o cheiro dela. Violetas e flores selvagens. Era o aroma que costumava ser o meu paraíso, a fragrância que me guiava. Mas agora... agora ele não me causava tanto efeito. Era apenas um perfume. O cheiro que eu realmente queria, aquele de limão e baunilha que estava entranhado nos meus lençóis, estava se afastando de mim a cada segundo. Nós entramos de volta na mansão. Jade encostou a cabeça no meu ombro, vitoriosa e tranquila. Mas o meu lobo não queria entrar. "VAI ATRÁS DELA!", ele rosnava, arranhando as paredes da minha consciência, implorando para que eu corresse para a praia. Eu o ignorei completamente. Soterrei o instinto sob uma camada de culpa e segui Jade pelos corredores, tentando ignorar o fato de que, enquanto eu entrava na segurança da minha casa, uma parte de mim estava morrendo lá fora, na areia fria. Passei o dia todo com Jade. Ela sorria, feliz, falava de coisas que pareciam distantes, como se estivéssemos em frequências diferentes. A noite chegava e Júlia não voltava. Meus filhos vinham e voltavam; eles comeram, brincaram e, finalmente, a babá os colocou para dormir. Eu estava no inferno. Onde ela estava? O que estava fazendo? Cada minuto sem notícias de Júlia era uma tortura silenciosa. Tudo o que Jade falava parecia vazio, oco. Cadê a emoção que ela me trazia no passado? Jade falava sobre medicina, termos técnicos, detalhes sobre o que aprendeu no exterior. Me lembrei que, sete anos atrás, era exatamente assim: tudo era sobre ela e sua carreira. Ficamos esse tempo todo longe e esse ainda era o assunto mais importante? Ela percebeu que eu não estava ali. Meus olhos fugiam para o relógio no meu pulso constantemente. A hora parecia zombar da minha ansiedade. Eu bebia uísque atrás de uísque, mas o álcool não conseguia anestesiar o rosnado baixo do meu lobo, que exigia o rastro de limão e baunilha da minha esposa. — Gabriel, olha, eu sei que você não entende sobre medicina, mas você poderia pelo menos fingir que me ouve? — Jade perguntou, aborrecida, cruzando os braços. Suspirei fundo, sentindo uma irritação me dominar. Inclinei-me na cadeira e a encarei. Os cabelos loiros de Jade estavam perfeitos, alinhados, sem um fio fora do lugar. Ela não bebia; era focada, contida. Ela não mudou nada, já eu acho que mudei muito ou a distância me fez perceber coisas que eu não via antes. — Gabriel? Você está me ouvindo? — Jade insistiu, o tom de cobrança perfurando o pouco de sanidade que me restava. Eu travei o maxilar. O rosnado que eu vinha sufocando o dia todo finalmente escapou, baixo e gutural. Eu não era um médico, não era contido e, definitivamente, não era mais o garoto que ela deixou para trás há sete anos. — Gostaria de não estar ouvindo — respondi de forma brusca, a voz saindo como um estalo de osso quebrando. Jade estancou. Ela me olhou boquiaberta, a expressão de choque congelada em seu rosto perfeito. Eu nunca tinha falado assim com ela. No passado, eu era o seu porto seguro, o homem que orbitava ao redor das suas vontades. Mas aquele homem tinha morrido na ausência dela, e o que sobrou era um Alfa ferido que só conseguia sentir o vazio deixado por outra mulher. O silêncio que se seguiu foi cortante.
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