Capítulo 8 — Um convite ou armadilha?

2105 Words
POV JÚLIA A porta do escritório se fechou, mas o gosto dele ainda estava na minha boca. Sangue, vodka e Gabriel. Uma mistura tóxica que deveria me fazer vomitar, mas que meu corpo, traidor e e******o, queria engolir. Eu não fiquei parada esperando ele vir atrás de mim. Eu sabia que ele não viria. Gabriel assinou o papel. Ele teve a chance de me marcar ali, no sofá, e escolheu me deixar ir. Limpei o sangue do canto da boca com as costas da mão e endireitei a postura. A dor da rejeição — a real, a biológica — estava começando a rasgar minhas entranhas. Era como se um arame farpado estivesse sendo puxado por dentro das minhas veias. Minha loba, estava em um silêncio aterrorizante de quem está morrendo. Caminhei pelo corredor longo e m*l iluminado da mansão. Eu precisava sair. Precisava de ar. — Ora, ora... fugindo tão cedo? É bem a sua cara mesmo sair na surdina. A voz era doce, mas carregava o veneno inconfundível de Jade. Ela saiu das sombras, impecável em seu vestido verde esmeralda. A última vez que a vi, ela estava me atacando com as garras, mesmo Eu sendo mais nova e sem Lobo, ainda consigo ouvir os gritos dela. — Não temos nada para conversar, Jade — respondi, minha voz rouca. — Eu vou ser breve — ela continuou, com um sorriso frio. — Eu retornei. E vou pegar o que é meu de volta. O meu posto de Luna, a casa... e ele. Olhei para ela. Por anos, Jade foi meu pesadelo. Mas agora, com meu casamento destruído no papel, ela parecia pequena. — Ótimo é bem oportuno o momento — falei, sustentando o olhar dela. — Ele é todo seu, irmã. O divórcio está assinado. Faça bom uso do que sobrou. Deixei-a parada no corredor, muda e desconcertada. Saí da mansão como quem foge de um incêndio. O ar noturno da Costa da Lua bateu no meu rosto. Pisei na areia fria, sentindo a dor no peito aumentar. Rafael tinha avisado: sem a marca, a Luna Nascida morre. E a rejeição de Gabriel tinha acelerado o processo. Eu precisava parar de sentir. Entrei no Blackwolf Beach Bar. O cheiro de uísque caro e feromônios de lobos poderosos me envolveu. Era território dele, mas eu não me importava. Killian Blackwolf paralisou ao me ver no balcão. — Você não devia estar aqui, Júlia. Está tendo reunião da alcateia e eu Não quero problemas com o Gabriel... ele é extremamente vingativo e um pé no saco. — Ele não criará problema, Kill. Estamos divorciados. — Ergui o queixo e apontei para a garrafa. — Dupla. Sem gelo. Virei o líquido de uma vez. Desceu queimando, mas não era o suficiente para apagar o fogo da rejeição. — Cuidado, prima — Kill avisou, tenso. — Tem olhos te seguindo desde que entrou. Eu não precisei perguntar. Eu senti. Um rastro de cheiro que eu conhecia de uma vida inteira. Terra molhada e algo metálico. Um cheiro de Alfa. Senti um arrepio na nuca e virei o rosto devagar, vasculhando a penumbra. Meus olhos travaram em uma mesa no canto, afastada da luz principal. Dante Leone me encarava de longe. Ele não desviava, não piscava; apenas me observava com uma intensidade que parecia queimar a distância entre nós. Desviei o olhar imediatamente para o balcão, sentindo meu coração martelar contra as costelas. “Ah, ótimo. A vida tá afim mesmo de acabar comigo”, pensei, sentindo um gosto amargo na boca. Mas então, uma lembrança me atingiu. Dante era um Alfa. E não era qualquer um. Ele era uma força da natureza; eu o vi peitar três Blackwolfs sozinho no passado e derrubar os três sem hesitar. Uma ideia perigosa, quase suicida, surgiu na minha mente. “Dante é um Alfa. Ele não hesitaria em me marcar... mas, com certeza, ele iria querer me levar para a cama primeiro.” Mordi os lábios com o pensamento me corroendo. O peso daquela possibilidade era sufocante. Lembrei dos meus filhos, Connor e Cassian, dormindo na mansão Montserrat. O peito apertou com uma saudade que doía mais que a própria rejeição. Eu precisava viver por eles. Precisava de um Alfa, e o meu acabara de me descartar. Terminei o meu drink de um gole só, sentindo o calor do álcool me dar a coragem que eu não tinha, e me levantei. Caminhei em direção à mesa dele. Cada passo fazia a queimação nas minhas veias diminuir conforme eu entrava no campo magnético de Dante. Parei bem diante dele, sentindo os 1,98m de puro músculo me cercarem. — Dante Leone — exclamei. Ele me encarou nitidamente com receio. Seus olhos verdes, como folhas de floresta fechada, me revistaram, buscando a armadilha por trás do meu rosto pálido e do meu lábio partido. — Você gostaria de beber algo comigo? — perguntei, sustentando o olhar. Imediatamente, os amigos dele ao redor soltaram sons de deboche, risadinhas e deram tapinhas nos seus ombros largos. Mas Dante não sorriu. Ele me encarava sério, o maxilar travado. — Qual é a piada, Júlia? — a voz dele era profunda, vibrando no meu peito. — Os Blackwolfs te mandaram aqui para montar uma armadilha? Ergui uma sobrancelha, sentindo o calor da aura dele anestesiar a agonia nas minhas veias. Dei um leve sorriso de canto de boca. — Não, querido. Não tem armadilha nenhuma. Estou lhe convidando porque quero. Não está afim? Dante pigarreou, claramente desconcertado, e se arrumou no banco, tentando recuperar a postura imponente. — Essa é nova... você querendo beber comigo? — Ele se levantou devagar, a altura dele me obrigando a inclinar a cabeça para trás. Ele olhou para todos os cantos do bar, desconfiado. — Sim... — Dei um passo para mais perto dele. — Ou seu interesse por mim acabou? Dante se empertigou na mesma hora. Ele deu um passo para frente, diminuindo a distância até que eu pudesse sentir o calor emanando do seu peito. — O dia que eu não te quiser, Júlia... pode me enterrar, porque eu já tô morto. Dante e eu caminhamos para uma mesa mais reservada, encravada no limite onde o luxo do bar encontrava a selvageria da floresta e do morro de pedra. Ali, as sombras eram mais densas e o som das ondas parecia um segredo compartilhado. Nós nos sentamos. Um garçom nos serviu em silêncio, mas o verdadeiro silêncio — aquele que pesava entre nós — era incômodo. Tinha bagagem demais, sangue e processos demais acumulados ao longo dos anos. Qualquer um que me visse ali diria que eu enlouqueci de vez. Mas o que eles não sabiam era que Dante Leone nunca me machucou. Ele era obcecado por mim do mesmo jeito que eu era por Gabriel; uma mistura de juventude e imprudência que gerou problemas obscuros. Se ele fosse esperto, ficaria bem longe de mim. Se ele fosse inteligente, correria para bem longe do rastro de destruição que eu carregava. Ele me encarava, os olhos verdes fixos no meu rosto pálido. — Júlia, eu realmente não acredito, nem por um segundo, que você esteja interessada em mim. Ele parecia intrigado, os dedos longos e fortes mexendo no rótulo da long neck gelada. Eu suspirei fundo. Eu nunca fui de me abrir, e com ele a barreira deveria ser ainda maior, mas eu estava verdadeiramente exausta. Desesperada. A morte batendo à minha porta me deu uma coragem suicida, mas meu orgulho ainda me proibia de aceitar a sua pena. — Eu e Gabriel nos divorciamos, Dante. Estou solteira e você estava bem aqui. Pensei: por que não? Ele ergueu uma sobrancelha e soltou uma risada leve, carregada de ironia. — Tem uma quantidade infinita de "nãos" e "porquês" que provam que isso terminaria super m*l. Olhei para o mar e dei um sorriso triste, as luzes da orla refletidas na água escura. Como eu poderia arrastá-lo de novo para isso? Eu era realmente perversa. Dei um gole na minha cerveja, sentindo o álcool queimar e anestesiar. — Bom, olha... eu entendo se você não quiser se envolver. Mas ainda assim, você está aqui, não está? — Provoquei, inclinando o corpo na direção dele. Os olhos dele brilharam com algo que eu conhecia bem: desafio. Emoção. A adrenalina de quem gosta de brincar com o perigo. — Ou a graça era só eu ser inalcançável para você? — Continuei, minha voz descendo um tom. — Posso me fazer de difícil se você quiser. Sem esforço. Dante riu. A gargalhada dele, rouca e vibrante, quebrou o clima pesado. Eu ri junto, uma risada que nasceu do puro cansaço de tanto sofrer. — Não é isso... — Ele parou de rir, a expressão suavizando para algo que quase parecia adoração. — É que eu sonhei tanto tempo com isso... com você... que parece até que estou sonhando de novo. Mordi os lábios e o encarei. Senti meus olhos semicerrarem naturalmente, um olhar pesado, carregado de uma intenção que eu não precisava verbalizar. O álcool estava soltando as amarras da "esposa perfeita" e deixando a "mulher depravada" assumir o controle. — Ah, porra... não me olha assim — ele disse, a voz subindo uma oitava, já arranhada pelo desejo. — Assim como? — Me fiz de desentendida, arregalando os olhos em uma cara de santa que eu sabia que o enlouquecia, enquanto um sorriso de canto de boca me traía. — Assim... com essa cara de quem fode com meu juízo, Júlia. Me aproximei mais, invadindo o espaço dele até que o calor do seu corpo Alfa começasse a derreter a frieza da minha pele. Sussurrei perto do seu ouvido, sentindo a respiração dele travar: — Talvez eu queira f***r mais do que só o seu juízo, Leone... O tom da minha voz era puro pecado. O álcool tinha feito o serviço: eu não era mais a Sra. Blackwolf. Eu era apenas uma mulher tentando sobreviver, e o homem à minha frente era o único incêndio que poderia me salvar do gelo da morte. O flerte continuou, as palavras se tornando cada vez mais baixas e perigosas. Dante me olhava como se eu fosse o primeiro copo de água após anos de deserto, e eu... eu me deixava levar. Pela primeira vez em eras, a dor no meu peito não era o centro do meu mundo. O clima estava gostoso, irresistível de um jeito que eu sabia que me levaria direto para o abismo, mas eu não me importava em cair. Dante sorriu, aquele sorriso que costumava assombrar meus sonhos juvenis, e se levantou devagar. — Eu vou no banheiro e já volto — ele murmurou. Antes de sair, ele se inclinou e deixou um beijo de leve no meu rosto. O toque foi rápido, mas a eletricidade da aura de um Alfa forte como ele deixou minha pele formigando. Fiquei ali, observando-o caminhar de volta para a área iluminada do bar, sentindo-me estranhamente leve. Como já estava tarde e a nossa mesa era afastada, o som das risadas do bar parecia distante, abafado pela brisa que soprava do mar. O silêncio da mata às minhas costas começou a se tornar pesado. Crack. Um galho quebrando. Olhei para a escuridão entre as árvores e as pedras do morro. Não vi nada. Eu não tinha loba, não tinha os instintos aguçados que Gabriel e Dante possuíam, mas o medo humano é um sensor instintivo que nunca falha. Meu corpo gelou. — Dante? — chamei, minha voz saindo pequena contra o som das ondas. Ninguém respondeu. Apenas o vento uivando por entre as fendas das pedras. — Dante, não brinca assim comigo. Está me assustando... — Tentei rir, mas o som morreu na minha garganta. Foi então que eu vi. Uma figura emergiu das sombras. Mesmo com a visão levemente turva pelo álcool, meu cérebro disparou um alerta vermelho. Eu já tinha visto aquela silhueta antes. A mesma altura imponente, a mesma roupa preta que parecia absorver a pouca luz da lua, e a mesma máscara sinistra que escondia qualquer rastro de humanidade. O sangue fugiu do meu rosto. Tentei me levantar, mas minhas pernas pareciam feitas de chumbo. A figura se moveu com uma velocidade sobrenatural, saindo de trás das árvores em um bote certeiro. Eu nem tive tempo de gritar o nome de Dante uma última vez. Pum. Um impacto seco na base do meu crânio. O mundo girou, as luzes amarelas do bar se transformaram em borrões de tinta e o som do mar foi substituído por um zumbido agudo. Antes que meu corpo atingisse o chão, a escuridão me engoliu por completo.
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