Capítulo 17 — A Âncora

1052 Words
POV JÚLIA MONTSERRAT Cruzar o hall da mansão foi como caminhar por um campo de batalha após o cessar-fogo. O cheiro de luto era espesso, misturado ao aroma de flores brancas que alguém já havia trazido. Meus passos no mármore eram o único som, até que cheguei à sala principal. O tempo parou. Johanna estava desabada no sofá, o rosto escondido entre as mãos, sendo amparada por Babi minha sogra, e por Elizabeth Ashworth. Elas pareciam três sombras de dor. Malakai estava de pé, o rosto vincado pela agonia, conversando em voz baixa com Alaric Ashworth. Fiz um pigarro e falei — Olá, o que está acontecendo? — Oh, minha filha... achamos que você estava morta! — O grito de Johanna rasgou o silêncio quando seus olhos encontraram os meus. Ela quase desmaiou, o corpo vacilando enquanto Babi a segurava com força. O choque na sala foi tão físico que a pressão do ar pareceu mudar. "Eu quase estive", pensei, mas as palavras ficaram presas na minha garganta. Malakai se aproximou de mim com os passos instáveis, os olhos marejados de uma forma que eu nunca tinha visto. Ele me envolveu em um abraço que cheirava a tabaco e saudade, apertando-me como se quisesse garantir que eu não era uma alucinação. — Você não aprende a parar de dar sustos no seu velho pai, não é? — sussurrou ele, a voz embargada. Minhas irmãs correram até mim, envolvendo-nos em um abraço coletivo. Senti o calor de Pérola, a mais velha e doce de nós, enquanto ela chorava no meu ombro. — Você está bem, graças à Lua... — Pérola sussurrou, a voz trêmula. Eu ia responder, ia dizer que estava inteira, mas um barulho vindo do subsolo fez o chão tremer sob nossos pés. Foi um estalo seco de metal retorcido seguido por um rosnado que vibrou nos meus dentes. Todos na sala estremeceram. — Deuses... que barulho dos infernos é esse? — afastei-me do abraço, meu instinto de Luna entrando em alerta máximo. — E onde estão meus filhos? — Eles estão na mansão Montserrat, com a Joyce — Alaric Ashworth tomou a frente. A família Montserrat m*l conseguia articular as palavras; a dor os tinha emudecido. Alaric, o Beta, era quem carregava o fardo da voz agora. Ele nos olhou, passando os olhos pelos Mykonos, pelos Salazar e pelos Donavan que preenchiam os cantos da sala em um luto silencioso. — Pedimos para eles ficarem lá porque o Gabriel está... — Alaric fez uma pausa dramática, o peso do que viria a seguir era quase insuportável. — Júlia, ele está se transformando no lobo n***o da maldição. A notícia da sua morte o deixou em estado grave. Senti um frio cortante me atravessar. A Maldição de Sangue. — Nathanael e os irmãos dele estão lá embaixo — Alaric continuou, suspirando fundo. — Estão com a Jade, tentando controlá-lo de todas as formas, mas nada funciona. Ele está sucumbindo, Júlia. Outro rugido ecoou, desta vez mais alto, mais selvagem. Eu conseguia sentir a dor dele através do chão. Era um chamado visceral. Minha loba rosa se agitou, as garras arranhando minha consciência. — Ele não está sucumbindo à morte — falei, minha voz cortando a sala com uma autoridade que fez até Alaric recuar um passo. — Ele está sucumbindo à culpa. Olhei para a porta que levava às celas. Jade estava lá embaixo, tentando ser o que nunca seria. Ela era a escolha da mente dele, mas eu... eu era o sangue. — Eu vou descer — anunciei. — Júlia, é perigoso! — Johanna tentou me segurar. — Ele não reconhece mais ninguém! — Ele vai me reconhecer, eu espero que sim... — respondi, soltando-me gentilmente. — Ele precisa sentir que o "cadáver" dele ainda respira. — Julia, ele está se transformando no lobo n***o da maldição. A notícia de sua morte o deixou em estado grave... Nathanael e os irmãos dele estão lá com Jade tentando controlar, mas nada funciona... — Alaric concluiu, o peso daquelas palavras fazendo o ar da sala parecer rarefeito. Um novo rugido, mais gutural e carregado de uma agonia que não parecia deste mundo, subiu pelo chão, fazendo os cristais da mansão tilintarem. — Talvez... talvez se ele ver você, ele regrida — a voz de Babi soou, cortando o silêncio. Era a voz de uma mãe em desespero absoluto. Olhei para ela. Babi tinha os olhos transbordando lágrimas, as mãos trêmulas apertando um lenço. Havia uma súplica silenciosa em cada traço do seu rosto. — Eu sei que se ele te ver, ele volta pra gente... — ela sussurrou, a esperança lutando contra o pavor. Por incrível que pareça, eu não senti um pingo de medo. Eu sabia da maldição, tinha crescido ouvindo as histórias sobre o quão grotesco e perturbador era o lobo n***o, a forma final da dor de um Blackwolf. Mas eu não sentia pavor. O que eu sentia era um puxão. Algo invisível e violento me puxava em direção aos gritos que vinham do subsolo, como se o meu próprio sangue estivesse sintonizado com aquela frequência de sofrimento. Caminhei até ela e coloquei a mão no ombro de Babi, sentindo o tremor que a sacudia. — Eu vou lá, madrinha. Não se preocupe — falei, minha voz saindo com uma calma que estranhei. Não esperei por mais avisos ou protestos. Virei-me e caminhei em direção à porta de carvalho que levava ao andar inferior. Desci as escadas imediatamente. Cada degrau que eu vencia, o som dos ossos estalando e dos rosnados ficava mais nítido, mais visceral. O cheiro de ozônio e carne queimada — o cheiro da transformação amaldiçoada — preenchia o corredor estreito. Meu coração batia no ritmo exato dos meus pés, uma marcha fúnebre que me levava direto para o centro da escuridão. Eu estava prestes a ver o monstro que eu mesma, mesmo sem querer, ajudei a criar. Os gritos iam ficando mais fortes a cada degrau que eu descia. Mas não era apenas o som que me guiava; era um imã. Uma sensação magnética e violenta que me puxava em direção a ele, como se a própria Maldição de Sangue estivesse me reconhecendo, gritando para que eu apressasse o passo. Quando cruzei o batente da área de contenção, a visão que me atingiu foi assustadora.
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