POV JADE MONTSERRAT
Cheguei em Costa da Lua com um objetivo só em mente: recuperar o que me foi roubado.
Não demorou muito para eu ter a prova de que eu sempre estive certa. Quando pisei na mansão, a cena alimentou o meu ego faminto. Júlia estava pálida. Fraca. Uma sombra encolhida do que tentava ser.
Gabriel passou por ela. Ele veio até mim e me puxou para os seus braços com uma força desesperada.
— Você está aqui... — a voz dele saiu embargada contra o meu pescoço.
Sorri. Um sorriso letal e silencioso contra o peito dele. Sete anos e ele ainda me quer, pensei, a vitória pulsando em minhas veias como uma droga injetada na veia.
Não demorou muito tempo para ficarmos a sós e ele me dar o mundo que me pertencia.
— Eu e Júlia estamos nos divorciando. Eu vou assinar agora, acabou. E podemos continuar de onde paramos. — As palavras dele foram a minha coroa.
Eu estava completa. Escolhida. Amada.
Mesmo depois de eu tê-lo deixado para trás no passado, ele não questionou. Não brigou. Ele me quis e me recebeu de braços abertos, ignorando a ratinha que vivia sob o seu teto.
Helena, minha prima e confidente, estava certíssima. Ele ficou com a Júlia só por obrigação, por causa das crianças. Mas ele me ama. Voltou para mim correndo...
Eu era a vencedora.
Mas o meu trono de ilusões despencou para o inferno algumas horas depois, no subsolo daquela maldita mansão.
O cheiro de sangue, prata e desespero sufocou o ar. A maldição de sangue dominou o meu Alfa. A fera tomou o controle e os olhos de Gabriel viraram furos negros de pura morte.
Eu congelei.
O terror me cravou no chão. Meus instintos gritaram para eu correr, para me salvar daquele monstro. Eu não conseguia mover um músculo enquanto ele rosnava, pronto para estraçalhar quem entrasse no seu caminho.
E então, ela fez.
A sonsa. A fraca. A mulher que ele estava descartando. Júlia correu para o abismo e se jogou na frente das garras dele, roubando o meu lugar, a minha cena. Ela arriscou a própria vida para trazê-lo de volta, enquanto eu tremia de pavor no canto escuro.
O ódio queimou a minha garganta. Eu deveria ter feito aquilo.
Mas não tive tempo de fingir coragem.
Rafael me puxou como se eu não fosse nada.
Os dedos do irmão gêmeo do meu Alfa cravaram no meu braço como garras de ferro. O aperto doía, esmagando a minha pele.
— Me solta! — gritei, tropeçando nos próprios pés enquanto ele me arrastava sem piedade para fora da masmorra.
— Fica quieta, Jade! — O rosnado de Rafael vibrou pelo corredor de pedra, abafando os sons da fera lá embaixo.
Ele não parou até me jogar contra a parede fria do corredor superior, longe do perigo, longe do Gabriel. E longe da glória que a minha irmãzinha acabara de roubar.
Rafael bloqueou a minha passagem com o próprio corpo. Ele era enorme, uma montanha de músculos tensos exalando o cheiro agressivo de madeira e tempestade.
Os olhos azuis dele me fuzilaram. Não havia respeito ali. Havia apenas nojo.
— Patética — Rafael cuspiu a palavra no meu rosto, a respiração quente batendo na minha bochecha. — Você posa de Luna, mas na hora que o meu irmão precisou, você se encolheu como uma c****a assustada.
— Você não tem o direito de falar comigo assim! Eu sou a escolhida dele! — sibilei. O orgulho ferido me fez bater as mãos contra o peito de pedra dele.
Rafael sequer se moveu.
Ele segurou meus dois pulsos com uma mão só, prendendo-os acima da minha cabeça contra a parede de pedra. A força dele era esmagadora. Absoluta.
— Escolhida? — Ele soltou uma risada c***l, aproximando o rosto a milímetros do meu. — Você é uma fraude, Jade. E o pior de tudo... é que acabou de provar para a alcateia inteira quem é a verdadeira mulher do meu irmão.
Nossas respirações se misturaram.
O calor e******o que eu sempre sentia quando ele me tocava incendiou a minha pele. Minha loba se contorceu dentro de mim, agitada, perigosamente submissa ao toque bruto dele.
Eu odiava aquilo. Eu nunca quis me sentir assim por Rafael.
O frio, o arrogante, o bastardo que me desprezava e me atraía com a mesma intensidade doentia. Me senti como um cervo sendo encurralado por um predador que brincava com a presa antes do abate. Engoli em seco, empurrando essa atração para o fundo do meu estômago. Eu precisava bloquear aquilo.
— Me solta, Rafael! — rosnei, me debatendo inutilmente contra o aperto dele. — Ele precisa de mim. Eu vou descer lá...
Ele riu. Um som amargo, carregado de uma mistura letal de descrença e pena.
Pena. Era sempre isso que ele me dava, e eu odiava.
— Pelos Deuses, você não se cansa de se humilhar? — A voz dele era um chicote estalando no corredor escuro. — Gabriel nunca te escolheu por amor, Jade.
Ele te escolheu para afastar a Júlia. Ele fez isso no passado e fez exatamente a mesma coisa agora. E você está caindo na armadilha de novo, feito uma i****a.
Parei de me debater, as palavras dele perfurando minha armadura.
— Assim que passar essa fase de autodestruição dele — Rafael continuou, sussurrando contra a minha boca —, ele arruma um jeito de voltar para ela. Ele vai voltar correndo, Jade. Porque é a Júlia que ele ama. Sempre foi.
O sangue ferveu. A verdade nua e crua rasgou a minha ilusão perfeita.
Uma fúria incontrolável me dominou. Puxei meus braços com violência, me soltando do aperto dele, e o empurrei pelo peito com toda a força que minha loba conseguiu reunir.
— Mentira! Ele me escolheu! No passado e agora! — gritei, o desespero vazando na minha voz. Lancei meu veneno de volta, atingindo onde eu sabia que doía: — Você só diz isso porque tem inveja dele. Inveja porque a Júlia nunca olhou para você de verdade, não é?
Meu peito arfava descontrolado. O ar rasgava minha garganta.
Não existia ninguém neste mundo capaz de me desestabilizar assim. Nem Gabriel me deixava naquele estado de puro caos elétrico que Rafael causava.
Mas, como sempre, Rafael sequer pestanejou.
O golpe baixo não o feriu. Se Gabriel era um vulcão de emoções, transbordando raiva e culpa de forma óbvia e fácil de decifrar, Rafael era o abismo congelado. O oposto exato.
Ele me confundia.
Eu sempre fui a mais inteligente, a melhor da turma, a estrategista impecável. Mas eu nunca... nunca consegui desvendar Rafael Blackwolf.
Ele se aproximou de novo, anulando qualquer distância, prendendo meu corpo ao dele contra a parede.
Eu não conseguia entendê-lo. Ele me olhava como se eu fosse desprezível. Insignificante. Mas a mão dele subiu. O polegar áspero traçou o contorno dos meus lábios.
Era quente. Fez minha pele queimar.
Meu corpo e******o e traidor reagiu na mesma hora.
— Sabe, essa sua ingenuidade é até fofa em um certo ponto... — A voz dele era fria. Baixa. Perigosa.
Meu peito subia e descia de forma descontrolada.
Rafael não olhava para os meus olhos; o olhar azul e letal dele estava fixo na minha boca.
— Mas não se preocupe, Jade. Quando ele te chutar de novo, eu vou estar lá para catar os seus pedaços. — Ele deu um sorriso leve e curto. c***l.
Ele se aproximou perigosamente.
Eu não conseguia me mover. Não conseguia respirar.
Nossos narizes quase se encostaram, o cheiro de madeira e tempestade dele nublando o meu juízo. Ele segurou meu queixo com a ponta dos dedos, inclinando meu rosto para cima.
Eu fechei os olhos.
E esperei. Como uma tola, eu esperei que os lábios dele encostassem nos meus. Meu coração era um tambor ensurdecedor no meu peito, abafando qualquer racionalidade. Exatamente como sempre acontecia quando ele me tocava. Minha loba uivava em puro êxtase, pronta para se submeter àquele Zeta arrogante.
Mas então... nada.
O calor sumiu. O toque desapareceu.
Abri os olhos, atordoada. Rafael já estava de costas, caminhando a passos lentos e firmes na direção oposta, me deixando ali, ofegante, encostada no vidro como uma i****a.
— E não se esqueça, Montserrat... — ele jogou as palavras por cima do ombro, a voz carregada de deboche. — Eu sou o seu chefe agora no hospital. Espero que esteja pronta para mim. Porque eu não vou pegar leve.
O sangue subiu para o meu rosto, queimando de vergonha e ódio.
— Seu desgraçado! — rosnei para as costas dele, batendo o pé no chão de pedra.
A última coisa que escutei antes de ele virar o corredor e desaparecer nas sombras foi a risada gutural dele. O som ecoou pelas paredes, zombando da minha fraqueza.
Passei o resto do dia com Helena. Bebendo.
Amargurada com a derrota esmagadora no subsolo.
Gabriel estava bem, estava vivo, mas só me olhava de longe. Eu fui da vitória absoluta para a vergonha pública em questão de horas.
E eu odiava perder.
O gosto da derrota descia rasgando pela minha garganta, amargo, misturando-se com o vinho branco e seco que eu bebia sem parar.
Então, o inferno recomeçou no jardim.
Eu o vi se enfurecer. Perder totalmente o controle só por ter visto aquela sonsa se engraçar com o vira-lata do Dante Leone no portão. A possessividade dele por ela era palpável. Doentia.
Logo depois, o Alfa cobrou o preço. Gabriel apanhou do próprio pai na frente de todos nós. O som das garras rasgando a carne dele me fez estremecer.
Meu primeiro instinto foi dar um passo em direção a ele. Mas a mão de Helena cravou no meu braço, me puxando para trás com força.
— Olha, eu acho que não é um bom momento — ela sussurrou, a voz carregada de cálculo. — Seja inteligente, Jade. Espere tudo se acalmar e depois você fala com ele.
Soltei um grunhido de pura frustração na cara dela.
Eu pensei em me soltar. Pensei em ir até lá e exigir o meu lugar de direito ao lado do meu noivo machucado.
Mas o medo da humilhação me cravou no chão de grama.
Minha mente me traiu, trazendo a lembrança do subsolo. Quando a maldição passou e eu tentei me aproximar, Gabriel recuou. Ele se encolheu no corpo de Júlia. Buscou o toque dela, o cheiro dela, não o meu.
Aquela lembrança era um ácido corroendo o meu orgulho.
E como se não bastasse, ela se agarrou a ele quando o levaram para a enfermaria. Como uma sanguessuga da qual ele não queria se livrar.
O tempo parecia zombar de mim. Eu não conseguia respirar direito, a frustração fechando minha garganta.
Então, para me quebrar de vez, ele resolveu sentar na varanda. Sozinho com ela. Deixando que ela limpasse o sangue e as feridas dele sob a luz do fim de tarde, enquanto eu assistia de longe, escondida como uma intrusa na minha própria história.
"Vamos... olhe para mim", eu implorava em silêncio.
Os olhos azuis de Gabriel encontraram os meus através da distância da varanda. O vazio neles me atingiu como um soco. Ele desviou o olhar, voltando a atenção para a mulher que eu deveria ter destruído.
Minhas unhas cravaram na palma da mão até rasgar a pele. O gosto de vinho virou fel. Eu não ia aceitar aquilo. Dei um passo para trás, pronta para invadir a varanda.
Mas o meu celular vibrou no bolso.
Puxei o aparelho, irritada com a interrupção. Havia uma única mensagem de um número desconhecido. Uma foto.
O ar abandonou meus pulmões. Minhas pernas fraquejaram.
Não era uma pessoa. Era a foto de um documento amassado. O logotipo de uma clínica clandestina bem longe de Costa da Lua. A data era de quase sete anos atrás.
E embaixo da imagem, uma única linha de texto:
"Acha que o Alfa vai te aceitar como Luna quando eu contar o que você deixou lá?"