POV GABRIEL BLACKWOLF
O inimigo estava na minha área de novo. O cheiro de Dante Leone, misturado à farda impecável e àquela audácia de oficial, era um soco no meu estômago. Eu não ia ficar parado. Avancei, meus pés esmagando a grama impecável do jardim, mas o muro de concreto que era meu pai se ergueu à minha frente.
— GABRIEL, O QUE ACABAMOS DE CONVERSAR? — O rugido de Nathanael fez o ar vibrar.
Ele bateu a palma da mão no meu peito, um golpe seco que me obrigou a parar. Ficamos cara a cara. Éramos espelhos um do outro: a mesma altura, a mesma estrutura óssea, o mesmo azul elétrico nos olhos que agora faíscavam de ódio. Eu era mais parecido com ele do que com meu próprio gêmeo, Rafael, e naquele momento, eu odiava cada traço dele em mim.
— Sai da minha frente — sibilei entre os dentes, a Maldição de Sangue latejando nas minhas têmporas.
— Ou o quê? Vai me encarar? — Ele não recuou um milímetro. — Você escolheu a Jade. Agora vai deixar a Júlia em paz ou eu vou fazer da sua vida um inferno, Gabriel. Eu te tiro do comando, te rebaixo a Gama e te coloco sob as ordens do Leone!
O choque daquela ameaça me atingiu como um tiro.
Meus irmãos, tios e primos já formavam um círculo ao nosso redor, o silêncio do churrasco sendo substituído pela pressão insuportável da aura de Alfa do meu pai.
Ele estava me submetendo. E o pior: eu sentia minha fraqueza. Desde que neguei em marcar a Júlia, minha força não era a mesma. Eu não conseguia bater de frente com um Alfa puro como ele.
— Você não pode fazer isso — rosnei, meu peito subindo e descendo em espasmos de fúria.
— Eu congelo suas contas também, Gabriel. Não me testa! — Nathanael se inclinou, a voz baixa e letal. — Você vai assumir a responsabilidade das suas merdas e acabou.
O ódio era um gosto ácido na minha garganta. Aquela área de lazer luxuosa, o império dos Blackwolf, parecia uma jaula pequena demais para nós dois. Eu ia explodir. Eu precisava chegar até o portão, precisava tirar aquele sorriso do rosto do Leone , mas Nathanael era uma muralha entre mim e a minha obsessão.
Foi quando minha mãe se colocou entre nós.
Babi estendeu as mãos, as palmas abertas e trêmulas. A saída de praia leve balançava com o vento, mas o rosto dela estava tenso, desprovido da elegância refinada de sempre. Havia medo nos olhos dela, e isso só me irritou mais.
— Parem! Por favor, parem os dois! — a voz dela saiu quebrada. Ela tocou meu braço, um gesto suplicante. — Gabriel, meu filho, olhe para mim. Não faça isso. Deixe ela respirar, deixe-a ir...
— ME SOLTA! — gritei, desferindo um solavanco que a fez quase cair. — Você é a última pessoa que pode me dizer o que fazer!
Apertei os punhos com tanta força que minhas unhas cravaram na carne. Olhei para ela com todo o veneno que eu guardava.
O rosto dela estava tenso, desprovido daquela elegância refinada que ela sempre ostentava. Havia medo nos olhos dela, e isso só me irritou mais. Ela tentou tocar meu braço, um gesto suplicante que me queimou como brasa.
— Gabriel, meu filho, olhe para mim. Não faça isso. Deixe ela respirar, deixe-a ir... — a voz dela saiu quebrada.
Eu olhei para ela com todo o veneno que eu guardava, a Maldição de Sangue silvando nos meus ouvidos.
— Você quer que eu deixe ela ir para ela terminar como você? — cuspi as palavras, cada uma carregada de desprezo. — Uma mulher vulgar que só usa os homens e descarta... eu não vou deixar ela se tornar uma v***a como você!
O mundo parou. O silêncio que se seguiu no jardim foi mortal, cortado apenas pelo som das ondas ao longe.
Vi o rosto da minha mãe desmoronar, a palidez substituindo qualquer rastro de vida enquanto ela recuava, a dor era nítida no rosto dela. Me arrependi assim que disse as palavras.
Mas o verdadeiro inferno veio de Nathanael.
Foi o estopim. Meu pai estourou. Ele avançou com um rugido que não era humano. Estávamos ambos sem camisa sob o sol impiedoso, e a visão era aterrorizante: os olhos dele mudaram instantaneamente, o azul elétrico sendo engolido pelo vermelho carmesim de um Alfa em fúria absoluta.
O primeiro soco veio com toda a força do seu poder.
Minha cabeça girou e o sangue espirrou da minha boca antes mesmo de eu sentir a dor. Eu não tive tempo de reagir. Ele avançou com a velocidade de um predador, me pegou pelo pescoço com uma mão de aço e socou meu estômago com toda a força. O impacto me tirou o ar, meus pulmões colapsaram e eu caí de joelhos, tonto, a visão embaçando em tons de preto e vermelho.
— COMO VOCÊ OUSA FALAR ASSIM COM A SUA MÃE? — ele rugiu, a voz de homem misturada com o rosnado visceral do seu lobo.
Ele me jogou no chão e montou sobre mim. Eu nem tentava revidar; a aura de comando dele era tão esmagadora que meu corpo parecia paralisado, obedecendo ao Alfa que exigia meu sangue. As garras de Nathanael se fincaram profundamente no meu ombro, prendendo-me ao gramado para que seus socos tivessem a precisão de um carrasco.
Ele me socava sem parar. O som da carne atingindo carne ecoava pelo jardim silencioso. Senti meu lábio rasgar, meu supercílio abrir e o calor do meu próprio sangue escorrer pelo pescoço.
— NATE, PARA! PELO AMOR DA LUA! — minha mãe gritava, as mãos puxando os ombros dele, tentando desesperadamente conter o monstro que eu tinha despertado.
Meus tios e irmãos cercaram a briga, todos tentando puxá-lo, mas a força de Nathanael era sobre-humana.
Ele estava fora de si, defendendo a honra da mulher que amava contra o próprio filho. Ele me socou até que, finalmente, a força coletiva de Rickon, Emmett, Samael e Alexandre conseguiu tirá-lo de cima de mim.
Eu fiquei ali, estendido no chão, sentindo a grama úmida sob meu corpo moído. Minha respiração vinha em engasgos curtos de sangue e dor. O mundo girava.
Arrastaram meu pai para longe de mim, mas o rastro da sua fúria continuava vibrando no ar, sufocando o oxigênio. Eu sentia o gosto quente, metálico e espesso do sangue inundando minha boca, e cada tentativa de puxar o ar resultava em uma pontada aguda nas costelas, como se houvesse vidro quebrado dentro de mim. Minha visão oscilava, as cores do jardim borrando em um redemoinho de verde e vermelho.
Através do véu de dor, foquei na minha mãe. Babi estava aos prantos, as mãos trêmulas cobrindo a boca enquanto soluçava, o corpo miúdo sacudido pelo choque. Mas não era só ela.
Júlia estava ali.
Ela devia ter chegado no auge do m******e, assistindo a tudo em silêncio enquanto eu era totalmente abatido pelo meu pai. O deserto de gelo nos olhos dela tinha sido substituído por um pavor genuíno, uma rachadura na sua armadura de indiferença.
— O que aconteceu? — Júlia perguntou, a voz subindo uma oitava, carregada de um desespero que cortou o barulho do jardim.
Ela correu até minha mãe, que chorava sem saber para onde olhar, dividida entre o marido contido pelos irmãos e o filho caído como um animal no gramado.
Babi não sabia onde acudir primeiro; ela olhava para os meus ferimentos — o corte latejante no supercílio, o ombro marcado pelas garras de Nathanael — e depois para o portão, onde o fantasma do Leone ainda parecia pairar.
— Ele não está nada bem... — Babi soluçou, tentando se aproximar de mim, mas vacilando como se tivesse medo de que eu fosse quebrar de vez. — Ele disse umas coisas... Júlia, e o Nathanael explodiu...
Tentei me apoiar nos cotovelos, mas o mundo girou violentamente. Eu queria dizer para Júlia não me olhar com pena. Queria dizer que o sangue no meu rosto não doía tanto quanto o jeito que ela sorriu para aquele capitão fardado lá fora.
— Gabriel... — Júlia murmurou.
Ela se sentou na grama, próxima a mim, e o cheiro de baunilha dela foi a única coisa que me impediu de apagar. Ela tremia tanto que eu podia ouvir o bater dos seus dentes. Com uma delicadeza que eu não merecia, ela puxou minha cabeça e a colocou entre suas pernas, protegendo meu rosto do sol e dos olhares de julgamento da alcateia.
Mas a pior parte veio logo em seguida.
— Mamãe, por que o vovô estava batendo no papai? — a voz de Connor me atingiu mais forte que qualquer soco de Nathanael.
— Mamãe, o papai tá machucado... — a voz de Cassian cortou o ar, fina e carregada de uma angústia que me atingiu pior que os socos.
Senti o corpo de Júlia tencionar contra o meu. Ela engoliu em seco, um movimento rígido que denunciava o quanto ela lutava para não desmoronar ali mesmo.
Minha mãe, com os olhos vermelhos e as mãos ainda instáveis, entregou a ela um pano embebido em água gelada. Júlia o pressionou contra o meu ombro com força, tentando estancar o sangue que insistia em escorrer por entre seus dedos, manchando sua pele e o gramado.
— O papai está machucado, mas vai ficar bem, tá? Não se preocupem — a voz dela saiu trêmula, oscilando entre a mentira necessária para acalmar nossos filhos e o pavor de me ver naquele estado de fragilidade.
Meus filhos. Rafael os segurava, mas seus rostos estavam desfigurados pela angústia. Cassian tentava segurar o choro, os olhos arregalados, enquanto Connor que era o mais parecido comigo, me encarava com uma expressão de puro terror.
"Belo exemplo eu estou dando para eles", pensei, e meu coração apertou de um jeito que a Maldição de Sangue nunca conseguiu.
Vi minha mãe se levantar, uma mistura de angústia e temor no rosto, e os envolver em um abraço protetor.
— Foi só um m*l-entendido, tá, meninos? Vem, vamos com a vovó... a mamãe vai cuidar do papai, tá?
Connor não desviou o olhar até que Babi os levasse para longe. Ele me olhou como se eu fosse um estranho, um Alfa caído, e aquela imagem queimou minha alma.
Ouvi o som de passos pesados se aproximando. Meus irmãos e primos circulavam o que restava de mim no gramado.
— Vamos levar ele para a enfermaria — ouvi a voz de Rafael, o tom carregado de preocupação técnica. — Ele acabou de regressar da maldição, a recuperação dele deve demorar... — ele murmurou, quase para si mesmo.
Júlia apenas assentiu com a cabeça, mas não desgrudou de mim por um segundo sequer. Sinto meu corpo sendo carregado por eles, realmente a recuperação estava mais lenta, eu sentia todo meu corpo gritar de dor.
Mas, enquanto perdia a consciência, a última coisa que senti não foi o rastro dos socos do meu pai, e sim o calor das mãos de Júlia em mim. Ela ainda estava ali.
E, por um segundo, o peso da minha própria podridão pareceu um pouco mais leve.