Capítulo 45 - Rastejando no inferno

1050 Words
POV GABRIEL BLACKWOLF Matá-la. A palavra ecoou no corredor de mármore, ricocheteando nas paredes até esmagar o meu crânio. Se eu a marcasse agora, a minha própria essência envenenada a destruiria. Eu estava de joelhos na frente de Lyra Starlight, mas a minha alma estava rastejando no inferno. Três meses. A próxima Lua Azul seria daqui a três malditos meses. Para mantê-la respirando, eu teria que engolir o meu orgulho, rasgar a minha dignidade de Alfa e deixá-la nas mãos do Dante ou do Arthur. Uma semi-marcação. Um curativo temporário na pele que pertencia a mim. Me levantei do piso de mármore, recolhendo os pedaços estilhaçados do meu orgulho. Eu ia recuperar meus poderes em cem por cento. Nem que eu morresse amarrado em correntes de prata. Caminhei pelo corredor como uma sombra. Quando empurrei a porta do quarto da UTI, o bipe rítmico do monitor cardíaco foi a primeira coisa que ouvi. Johannah e Melissa estavam sentadas nas poltronas. Os rostos marcados pela exaustão. — Podem ir — minha voz saiu morta, fria. — Vão descansar. Eu fico com ela. Johannah hesitou, mas a determinação perigosa nos meus olhos a convenceu. Ela saiu, puxando Melissa. Ficamos apenas nós dois. Sentei na beirada da cama e deslizei meus dedos trêmulos por dentro da roupa hospitalar dela. Minha palma quente encontrou a pele fria do peito de Júlia, moldando-se sobre o coração dela. Minha possessividade silenciosa. Amanhã à noite, os dentes de outro perfurariam a pele dela. O meu lobo rosnou, enlouquecido pela impotência. Fechei os olhos e minha mente foi arrastada brutalmente para o passado... para a primeira vez que me senti exatamente assim: um covarde assistindo outro homem tocá-la. "Será que ela vai escolher o Arthur?" O conselho a queria com ele. A política exigia. E, no passado, ela já havia dito "sim" para aquele desgraçado uma vez. O pânico de perdê-la de novo, justo agora que eu sabia a verdade sobre o meu bloqueio, apertou a minha garganta até eu quase sufocar. A exaustão física e mental finalmente quebrou as minhas defesas. Fechei os olhos, deixando o cheiro fraco de baunilha dela me entorpecer. Ouvindo as batidas lentas sob a minha mão, minha mente foi arrastada brutalmente para o passado. Para a época em que o meu inferno começou. O som seco das bolas de sinuca estalando umas nas outras invadiu os meus pensamentos... [FLASHBACK DO PASSADO] O cheiro de uísque caro e o suor de centenas de lobos no cio faziam o ar da Mansão Blackwolf parecer sólido. Eu segurava o taco de sinuca com tanta força que a madeira rangia. Meus nós dos dedos estavam brancos, quase rasgando a pele. — Para de olhar, cara. Já está ficando constrangedor essa sua dor de cotovelo. — A voz de Gustavo veio da direita. Eu não desviei os olhos. No sofá do canto, Arthur e Júlia estavam agarrados. Um romance que faria qualquer um sorrir. Em mim, provocava o desejo de assassinar alguém: Arthur. — Não tô olhando... — murmurei, a mentira saindo seca e temperada com o gosto de bile. — Tá olhando tanto que daqui a pouco faz um furo na nuca dela — Killian soltou uma risada, gizando o taco. — Eu não entendi por que não escolheu ela? — Daniel, meu irmão, perguntou. Ele bebia, analisando o jogo e a minha vida. — Você vivia agarrado com ela... mas escolheu a irmã dela. Não faz sentido. Cogitei não assassinar Arthur e começar por Daniel. Ele tinha razão. Escolhi Jade. Ela não era r**m; só não era quem eu queria. Quem eu queria estava se agarrando com outro bem na minha frente. E Jade? "Ficou estudando". A frieza dela só destacava o calor que emanava de Júlia. — Eu e a Júlia somos amigos e só, nunca aconteceu nada entre nós. Escolhi a garota certa e fim de papo! — rosnei, ninguém ali engoliu minhas mentiras. Então, o golpe final. Arthur deslizou a mão pela cintura de Júlia e a pousou, com posse, bem na b***a dela. Ele a puxou para um beijo quente. Lento. Público. Meu maxilar trincou tanto que senti uma pontada na têmpora. Eu a tinha rejeitado. Eu escolhi a Jade. Mas ver outro saboreando o que eu joguei fora era o meu inferno particular. Arthur não sabia que eu e ela tínhamos começado a namorar em segredo antes da minha escolha. Ele passou três anos fora, cuidando do avô doente. Ele não sabia do nosso rastro de segredos. Júlia levantou do colo dele para falar com as amigas. O oxigênio voltou aos meus pulmões. Mas Arthur veio em nossa direção, pegando uma cerveja. O rosto dele era uma máscara de desejo e satisfação pura. — E aí, cara... tá apaixonadão mesmo, hein? — Alguém zoou. Arthur se recostou na mesa de sinuca, bem ao meu lado. Erro fatal. — p***a, pior que tô mesmo... ela é maravilhosa e... — Sem detalhes — interrompi. — Seja homem e não exponha as intimidades dela para outros homens! O silêncio caiu. O clima pesou. Arthur ergueu uma sobrancelha, surpreso com o meu tom. A bebida era combustível pro ciúme que eu não conseguia esconder. — Quer dizer... eu vi ela crescer, somos amigos. E ela é minha cunhada. É como uma irmã para mim. — Tentei consertar. As palavras saíram como cinzas. Arthur relaxou o ombro. — Eu concordo... mas eu não ia dizer nada que a expusesse. Eu ia dizer que estou pensando em pedi-la em casamento. Já comprei até a aliança. O ar saiu dos meus pulmões. Meu coração parou. — O quê? — Eu não acreditei no que ouvia. Arthur sorria. Aquela satisfação estampada na cara dele me dava nojo. Eu simplesmente não consegui me conter. A barreira de autocontrole que eu tentava manter desmoronou como vidro. — Você o quê? A raiva era latente na minha voz, um estalo de chicote no meio da música. Arthur se virou para mim. Arthur se virou para mim. Eu sempre o achei um tanto limitado, lento... talvez a montanha de músculos que ele carregava o deixasse assim. Ele claramente não estava percebendo o abismo onde estava pisando. E eu já não conseguia mais esconder o monstro que rugia dentro de mim. Eu não aguentei perdi totalmente o controle. E parti pra cima dele.
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