Capítulo 13 — Me arrastando de volta para você

1819 Words
POV DANTE LEONE Eu não imaginei que hoje terminaria do jeito que terminou. Quando acordei esta manhã, a única coisa que passava pela minha cabeça era a escala de plantão na delegacia e o olhar decepcionado da minha ex-mulher enquanto eu deixava nosso filho com ela. Eu tento ser o pai que nunca tive, tento ser o homem que a farda exige, mas o peso do passado é um inquilino que não paga aluguel e se recusa a sair. Eu estava na delegacia, ajustando o coldre e ouvindo o rádio quando a conversa no café me atingiu como um tiro de advertência. — O Tenente não veio hoje — um dos novatos comentou, rindo baixo. — Foi buscar a mulher no hospital. Parece que a Sra. Blackwolf deu um susto na alcateia de novo. Eu sabia exatamente de quem eles estavam falando. Júlia. A mulher que me assombrou desde a primeira vez que a vi, quando éramos apenas garotos brincando com fogo. A mulher que me fez ir até o inferno, perder minha liberdade e carregar a marca de criminoso por anos. Meus dedos se fecharam em volta da caneca de café até as juntas ficarem brancas. "p***a, até quando vou ficar preso a ela?", pensei, sentindo aquela música maldita do Arctic Monkeys começar a tocar na minha cabeça, já ouvi milhões de vezes pensando nela. Eu levo minhas mãos ao rosto tentando me dar um pouco de claridade a simples menção do nome dela fodia comigo. Passei o dia como um morto-vivo. Meus amigos me arrastaram para o Blackwolf Bar sob a desculpa de "beber para esquecer", mas a verdade é que eu estava constantemente à beira de algo. À beira de ligar para ela após três doses, à beira de me arrastar de volta para uma vida que me destruiu. E então, ela apareceu. E o mundo todo parou. Eu não consigo parar de olhá-la. Ela sabe que eu estou olhando e olha pra mim. Aquele olhos amarelos, a cor da minha destruição. Agora, aqui no bar, eu estava tentando apenas ser um cara normal bebendo com os amigos. Mas então, o ar mudou. O cheiro de limão, flores e baunilha invadiu o ambiente antes mesmo de eu vê-la. Meu corpo reagiu instantaneamente. Cada músculo ficou tenso, e meu lobo... meu lobo deu um rosnado longo e profundo, um som que só eu ouvia, mas que vibrava em cada osso. Porra, não acredito que ela tá aqui. Eu não conseguia parar de olhar. Nenhuma mulher no mundo me deixa assim, em estado de alerta máximo, apenas por entrar no ambiente. Eu sou um homem de quase dois metros, treinado, mas perto dela, eu me sinto um garoto desarmado. — Pô, cara, se controla. Para de olhar — um dos meus amigos sussurrou, me dando um toque no ombro. Bufei, sem desviar os olhos dela no balcão. Como se eu conseguisse fazer isso. Eu não tinha controle nenhum. É como se houvesse um ímã enorme dentro dela, e eu fosse apenas um pedaço de metal barato sendo arrastado. Mas então, algo que nem nos meus sonhos mais loucos aconteceu. Algo que, em todos esses anos de obsessão silenciosa, nunca tinha acontecido. Ela saiu do balcão. E veio na minha direção. O mundo parou. O jazz ao fundo sumiu, as conversas das outras mesas viraram ruído branco. Meu coração parecia que ia sair pela porcaria do peito. — Dante Leone. A voz dela... droga. O meu nome nos lábios dela era demais para mim. Senti cada poro do meu corpo se arrepiar. — Você gostaria de beber comigo? A voz parecia saída direto do céu. Um anjo falando comigo no meio do inferno. Levei alguns segundos para processar, para não deixar o queixo cair na frente de todo mundo. Mas então, a realidade me atingiu como um soco. Isso tinha que ser uma piada. Os desgraçados dos Blackwolfs deviam ter enviado ela para me ferrar. Alguma armadilha política, algum jogo sujo de alcateia. Eu não podia vacilar. Eu não era mais aquele moleque inconsequente que aceitava qualquer briga por um olhar dela. Eu tinha o meu filhote agora. Ele precisava de mim. Eu estava com a droga da vida estabilizada. "Não posso perder o controle. Meu filhote precisa de mim", repeti mentalmente, como uma oração para me manter firme. Meus amigos começaram com os sons de deboche, tapinhas nas minhas costas, rindo da situação. Eu, no entanto, a encarei sério. O maxilar travado até doer. — Qual é a piada, Júlia? — Minha voz saiu mais rouca do que eu pretendia. — Os Blackwolfs te mandaram aqui para montar uma armadilha? Ela ergueu uma sobrancelha e me deu um leve sorriso de canto de boca. Aquele sorriso que fode com o meu juízo desde que eu me entendo por gente. — Não, querido. Não tem armadilha nenhuma. Estou lhe convidando porque quero. Não está a fim? Pigarreei, sentindo o calor subir pelo meu pescoço. Me arrumei no banco, tentando desesperadamente recuperar a postura de Tenente da Polícia, de homem centrado. — Essa é nova... você querendo beber comigo? — Me levantei devagar, olhando para todos os cantos do bar, desconfiado de cada sombra, de cada movimento. Eu esperava ver o Gabriel saindo de trás de uma pilha com uma arma ou uma ordem de prisão. — Sim... — Ela deu um passo para frente, entrando no meu espaço pessoal. — Ou seu interesse por mim acabou? Aquilo foi o meu limite. Perdi o ar. Me empertiguei na mesma hora, a altura de 1,98m servindo apenas para eu olhar para ela de cima e ser derretido completamente naqueles olhos. — O dia que eu não te quiser, Júlia Montserrat... pode me enterrar, porque eu já tô morto. Fomos para uma mesa reservada. Eu sabia que era perigoso. Sabia que era um erro. Mas eu estaria mentindo se dissesse que não estava me arrastando de volta para ela como um viciado. É eu sou um maldito viciado nessa mulher. Depois de trocarmos palavras que eu nunca achei que ouviria, nos sentamos em uma mesa reservada. O silêncio era incômodo, carregado de uma bagagem que quase nos esmagava. Mas o álcool e a proximidade estavam derretendo as barreiras. Júlia me encarava. Ela estava diferente. A exaustão nos olhos dela era visível, mas havia uma chama nova ali. — Júlia, eu realmente não acredito, nem por um segundo, que você esteja interessada em mim — soltei, mexendo na minha cerveja, tentando manter a guarda alta. — Eu e Gabriel nos divorciamos, Dante. Estou solteira e você estava bem aqui. Pensei: por que não? Ergui uma sobrancelha. Por que não? Havia mil motivos. Mas ela sorriu. Um sorriso triste que me deu vontade de quebrar o mundo até vê-la feliz. — Ou a graça era só eu ser inalcançável para você? — Ela provocou, a voz descendo um tom que fez meu sangue ferver. — Posso me fazer de difícil se você quiser. Sem esforço. Eu ri. A gargalhada quebrou o gelo, mas o que veio depois foi o que me destruiu. Júlia me encarou com os olhos semisserrados, as bochechas coradas pela bebida e pela ousadia. Ela mordeu os lábios devagar, uma expressão tão natural e, ao mesmo tempo, tão depravada que meu juízo foi pro espaço. Caralho, eu quase perdia o controle ali mesmo. Ela acabava comigo. O jeito que ela me olhava... eu estava constantemente à beira de beijá-la, à beira de esquecer que estávamos em um bar público e apenas tomá-la para mim. — Ah, porra... não me olha assim — rosnei, a voz rouca de desejo. — Assim como? — Ela fez aquela cara de santa, mas os olhos entregavam tudo. — Assim... com essa cara de quem fode com meu juízo. Ela se inclinou. O cheiro dela me embriagava mais que a cerveja. — Talvez eu queira f***r mais do que só o seu juízo, Leone... — sussurrou. Eu estava pronto para me arrastar de volta para ela. Para qualquer lugar que ela quisesse me levar. — Eu vou no banheiro e já volto — murmurei, precisando de um segundo para não atacá-la ali mesmo. Me inclinei e deixei um beijo de leve no rosto dela. Foi o erro da minha vida. Quando saí do banheiro, ajeitando a camisa e tentando respirar, o paraíso virou inferno. Meus olhos foram para a mesa, mas Júlia não estava sentada. Eu vi a sombra. Um vulto de preto, mascarado, batendo nela com uma violência que me cegou. O desgraçado a agarrou, arrastando-a em direção à mata como se ela fosse um fardo. Mas o quê? Eu não estou tão bêbado. Eu sou um Alfa, míseras garrafas de cerveja não me embebedariam. Eu não estou vendo coisas! O sangue escorreu da cabeça dela, manchando a areia. Meu corpo reagiu com um rugido que pareceu rasgar minha garganta. — EI, FILHO DA p**a! SOLTA ELA! Eu corri. A areia voava sob minhas botas. A figura olhou na minha direção, mas não soltou o corpo dela imediatamente. Ele olhou para a Júlia no chão, a perna dela erguida na mão dele, já quase entrando na floresta. O homem olhou para mim de novo. Ele não parecia assustado. Enquanto eu corria em sua direção, ele parecia calcular cada centímetro do meu avanço. Ele soltou a perna dela e eu me choquei contra ele com o peso de uma locomotiva. Eu o derrubei, mas o impacto foi como bater em ferro. Começamos a lutar ali mesmo, no limite da escuridão. Eu desferi socos brutais, usei toda a minha força de Alfa, mas aquele cara era forte demais. Era uma luta técnica, fria e letal. Ele se esquivava com uma agilidade que eu nunca vi em nenhum lobo da região. Em um movimento brusco, ele conseguiu se desvencilhar, me empurrando com uma força sobre-humana e sumindo entre as árvores da mata fechada. Pensei em segui-lo. Meu lobo uivava por sangue. Mas então olhei para trás. Júlia estava caída, imóvel. — p***a! — soltei, correndo até ela. — Júlia, acorda! Pelo amor da Lua, acorda! Chequei o pulso dela. Estava fraco. O pânico tomou conta. "Se eu levar ela para o hospital, eu vou preso de novo. Como da última vez. Vão dizer que fui eu. p***a, o que vai ser do Matteo sem mim?" — Não, não, não... — As memórias da cela gelada tentaram me paralisar, mas o rosto ensanguentado de Júlia foi o meu despertar. Tomei a decisão. Não haveria polícia dessa vez. Não haveria juízes. Passei os braços por baixo dela, sentindo o peso do meu mundo em meus braços, e a levei em direção ao carro. Eu tiro os cabelos dela do rosto, o sangue estava grudando na testa, ela parecia gelada. — Eu to aqui meu anjo, vou te salvar. – prometo pra ela. Eu estava me arrastando de volta para ela, e dessa vez, eu não deixaria ninguém tirá-la de mim.
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