Capítulo 11 — O Prenúncio do Abismo

1705 Words
O surgimento de um Leone no meu território era como jogar gasolina em uma ferida aberta. Meus olhos travaram na figura que eu não via há anos: Felipe Leone. Ele deveria estar na Itália, apodrecendo por lá, mas agora estava parado no meu bar. No passado, ele era um moleque, um pirralho de óculos e aparelho que vivia no pé da Júlia como uma sombra irritante. Arthur, meu primo que namorava com ela na época, quase enlouquecia de ciúmes, achando que Felipe era a ameaça. Pobre Arthur. Ele não sabia que o verdadeiro perigo para o relacionamento dele era eu. Felipe ou Dante nunca tiveram chance com a Júlia. Não enquanto eu respirasse perto dela. Mas o moleque tinha crescido. Ele estava alto, o rosto limpo, sem os óculos ou o aparelho que o faziam parecer inofensivo. Tinha virado um homem, mas para mim, continuava sendo apenas mais um Leone imundo. — Ele chegou há pouco tempo — Killian sussurrou ao meu lado, a voz carregada de nervosismo. — Gabriel, sério, eu não vi a Júlia sair com o Dante, mas... eles estavam bebendo. Aquelas palavras foram o estopim. Minha visão escureceu, as bordas do meu campo de visão ficaram vermelhas. Dante Leone. O homem que eu mandei para a cadeia. O homem que sempre olhou para a minha mulher como se ela fosse o prêmio que eu roubei dele. Não pensei. Meu corpo agiu por puro instinto de Alfa. Parti para cima de Felipe como um predador que acaba de encontrar a brecha na defesa da presa. Minhas mãos se fecharam no colarinho da camisa dele, o impacto jogando-o contra uma das vigas de madeira do bar com uma força que fez o teto tremer. — CADÊ O MALDITO DO SEU IRMÃO? — rugi, minha voz saindo distorcida, metade homem, metade lobo. O cheiro de sangue da Júlia na areia lá fora estava me enlouquecendo, e a presença de um Leone ali, enquanto ela sumia, não era coincidência. Era uma declaração de guerra. — Onde ele a levou, Felipe? Se você não abrir a p***a da boca agora, eu juro que mando o que sobrou da sua família para o inferno antes do amanhecer! Felipe me encarou, e para a minha surpresa, não vi o pavor que eu esperava. Havia algo mais nos olhos dele. Algo que me fez apertar ainda mais o seu pescoço. Os amigos ao redor se levantaram imediatamente, o clima no bar ficando denso, saturado com a minha fúria. Eu o agarrava pela gola, sentindo o tecido esticar sob meus dedos. No passado, ele teria tremido. Mas agora, Felipe Leone apenas sustentou o meu olhar e sorriu de forma tranquila, uma calma que me deu vontade de arrancar a cabeça dele ali mesmo. — Eu não sou o guardião do meu irmão, e não sei onde ele está — ele disse, a voz firme, sem o tremor do moleque que costumava ser. — Corta essa p***a! — apertei ainda mais o colarinho dele, o rosto a centímetros do seu. — O que vocês estão tramando de novo? Da última vez que ela se envolveu com vocês, saiu da casa de vocês morta! A lembrança do passado, daquela noite em que quase a perdi para sempre por culpa do Dante, era uma ferida que nunca cicatrizou. Felipe então me empurrou com uma força que eu não esperava. — Me solta! — ele rosnou, ajeitando a camisa com um desprezo frio. — Eu não sei onde caralhos está o Dante. Não nascemos grudados. Acabei de chegar e só vim beber com meus amigos. Girei o corpo, deixando-o para trás, e encarei os outros homens na mesa. Eles estavam brancos, intimidados, as respirações curtas diante da presença de um Alfa em fúria absoluta. — Falem, seus merdas! Onde ele está com a minha mulher? — Eu soco a mesa com tanta força que os copos saltaram e a madeira estalou. — Quem não abrir a p***a da boca vai sair daqui sem os dentes! O som do meu rosnado fez o bar silenciar por completo. Um deles, tremendo, levantou as mãos em sinal de rendição. — Dante saiu sozinho! Ela disse que ia para casa dela! — ele gritou, desesperado. — Eu juro! Ela foi para casa! Eu travei. Respirei fundo, o cheiro de uísque e suor me sufocando. Levei uns minutos processando a informação, minha mente trabalhando rápido demais. "Ela não sairia com ele. Não. Com certeza ele a intimidou, como sempre fez. Ela bebeu com ele por medo, para não criar cena, e foi embora assim que pôde." O ciúme possessivo tentou me dizer o contrário, mas a lógica da proteção falava mais alto. Se ela estava em casa, era lá que eu deveria estar. Sem dizer mais uma única palavra, dei as costas para os Leone e para aquele bar maldito. Saí pisando forte na areia, o sangue ainda fervendo, mas com um destino traçado. Eu precisava ver Júlia. Precisava confirmar que ela estava segura na cama dela, longe das garras de qualquer Leone. Atravessei o salão da mansão com o semblante fechado, sentindo-me como uma muralha de gelo no meio do incêndio que era aquela festa. O som da música e as risadas dos convidados me atingiam como agressões físicas, perfurando meus ouvidos. Eu não parei para falar com ninguém; ignorei cada olhar curioso, cada tentativa de contato. Minha aura devia estar pesada como chumbo, porque as pessoas abriam caminho antes mesmo de eu rosnar. Segui direto para a ala dos quartos, onde o silêncio era o único refúgio. No corredor, encontrei uma das babás Ômegas organizando roupas. Ela estancou na mesma hora, a respiração dela travando enquanto sentia a pressão do meu comando de Alfa, mesmo que eu não estivesse tentando usá-lo. Parei diante dela. Minha respiração ainda estava pesada, o cheiro de uísque e mar impregnado na minha pele. Falei baixo, mas a autoridade na minha voz era inquestionável, quase desesperada: — A Júlia voltou? Ela passou pelos quartos para ver os meninos? A Ômega baixou a cabeça, intimidada pelo meu tom. A voz dela saiu trêmula, pequena: — Não, Senhor Blackwolf. Eu não a vi desde que ela saiu no início da noite. Os meninos estão dormindo profundamente, mas a Sra. Júlia ainda não retornou à mansão. O mundo pareceu girar sob meus pés. A calma que tentei forçar ao sair do bar evaporou, sendo substituída por um frio cortante que subiu pela minha espinha. Se ela não estava na mansão, e se os Leone disseram que ela tinha ido embora... o silêncio da noite lá fora agora gritava uma verdade que eu me recusava a aceitar. Júlia não tinha voltado. E o sangue na areia não era uma ilusão da minha mente embriagada. Senti uma pressão absurda no peito. Eu a deixei ir. Eu a empurrei para fora desta casa com um papel assinado e, enquanto eu fingia que meu futuro era Jade, minha loba — a mãe dos meus filhos — estava sangrando em algum lugar ou nas mãos de um inimigo. A negação caiu por terra. O pânico, cru e violento, assumiu o controle. Eu ia pegar as chaves, pronto para sair e voar em direção à casa onde eu e Júlia construímos nossa vida, mas uma voz me fez travar no meio do corredor. — Gabriel? "A p***a, que merda." Era Jade, logo atrás de mim. Ela estava de camisola, os braços cruzados sobre o peito, descalça e com os cabelos bagunçados pelo sono. Parecia a imagem da mulher que esperei por sete anos, mas agora aquela visão me sufocava. — Onde você está indo? — ela questionou, os olhos semicerrados pela sonolência. Meu peito apertou. O que eu diria? Se eu confessasse que ia atrás da Júlia, quebraria de vez o que estávamos tentando reconstruir. Mas eu era mestre em inventar mentiras rápidas, uma habilidade que desenvolvi para sobreviver ao meu próprio caos. Me virei com a cara mais cínica do mundo. — Ah, eu ia buscar bebidas. O pessoal pediu e eu aproveitei para ver se os meninos estavam dormindo bem. Essa alcateia bebe demais, Jade, tento dar uma segurada, mas não tem jeito. Ela levantou a sobrancelha, o rosto erguido, me analisando. Eu sentia o peso do meu próprio cinismo. Eu não podia continuar assim. Como ia construir um relacionamento novamente com essa base de falsidade? Ela não merecia isso, mas a verdade agora era uma arma que eu não tinha coragem de disparar. — Eu vou com você, então — ela disse, decidida. "p**a que pariu, ela vai me prender a noite toda." O pensamento me desesperou, mas o que adiantaria protestar? Eu fiz minha escolha, agora tinha que sustentá-la como homem. — Hum, claro, amor. Vai lá se trocar, eu te espero. Tive que ir. Comprei as bebidas com ela, voltamos e tive que deitar de novo. Ela tentou me beijar, mas eu disse que estava cansado. Não preguei o olho. Não adiantava tentar sair de novo; ela estava com medo, o sono estava fraco e ela se mexia o tempo todo. Droga, eu estava sendo um péssimo companheiro para ela de novo. Exatamente como no passado. O dia raiou e a luz do sol parecia uma acusação. Descemos para tomar café e a primeira coisa que fiz foi procurar pela Júlia. Nada. O lugar dela na mesa estava vazio, o prato limpo, o silêncio ensurdecedor. — Alguém viu a Júlia? — perguntei, tentando manter a voz casual. Jade se incomodou ao meu lado, o tilintar da colher na xícara soando como um tiro. — Não a vimos desde ontem — Miguel respondeu, trocando um olhar tenso comigo. A angústia começou a se transformar em pânico físico. No meio do café, fomos interrompidos pelos meus homens fardados. Eles entraram no salão com as expressões transfiguradas pelo pavor, os rostos pálidos e as respirações curtas. Dei um pulo da cadeira, derrubando metade do meu café. Meu coração acelerou a um ponto que o sangue latejava nas minhas têmporas. — Tenente... — o guarda começou, a voz trêmula, sem coragem de me encarar. — Eu sinto muito. O ar sumiu dos meus pulmões. O silêncio que se seguiu no salão era o de um funeral antes do corpo chegar.
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