A Cidade Queimou Primeiro
Ravenshade nunca esqueceu o fogo.
As pessoas fingiam que sim — reconstruíram casas, pintaram fachadas, criaram festivais para turistas curiosos —, mas o cheiro de cinzas ainda vivia entranhado no solo. Elson sentiu isso no instante em que cruzou o limite da cidade. Não era imaginação. Vampiros sentiam a memória da terra.
Ele parou o carro à beira da estrada principal e respirou fundo, embora não precisasse respirar. O ar carregava ecos antigos: gritos, correria, súplicas que nunca foram atendidas. O passado não dormia ali. Apenas esperava.
— Ainda fede a mentira… — murmurou.
Séculos haviam se passado desde a última vez que esteve naquele lugar. Mesmo assim, cada rua parecia reconhecê-lo. Cada poste de luz iluminava lembranças que ele jamais quis guardar, mas nunca conseguiu apagar.
Ravenshade cresceu sobre cadáveres.
Elson saiu do carro com movimentos calmos, calculados. Vestia-se como qualquer homem moderno: casaco escuro, camisa ajustada, expressão indiferente. Ninguém ali poderia imaginar que sob aquela aparência havia um predador antigo — alguém que já viu impérios ruírem, cidades sumirem do mapa e civilizações se matarem em nome do medo.
Ele voltou porque prometeu.
A promessa havia sido feita diante das chamas, com o corpo do irmão ainda queimando, o cheiro de carne e desespero rasgando sua sanidade. Naquela noite, Elson deixou de acreditar em coexistência.
Naquela noite, ele nasceu de novo.
Agora, tudo o que precisava fazer era ter paciência.
Ravenshade era pequena demais para esconder seus pecados por muito tempo.
Eliza Hale odiava chegar atrasada.
Ela correu pela calçada estreita, equilibrando a bolsa no ombro e segurando o celular com força. O dia já começara errado: o despertador não tocou, o café queimou e o céu estava pesado demais para uma manhã comum.
— Ótimo… — resmungou, ao quase trombar com alguém na esquina.
Ela levantou o rosto pronta para reclamar — e esqueceu o que ia dizer.
O homem à sua frente não parecia real.
Era alto, postura impecável, olhar escuro e atento demais para alguém distraído. Não havia sorriso, mas havia algo pior: A presença.
Eliza sentiu como se o mundo ao redor tivesse diminuído de volume, como se tudo se concentrasse apenas nele.
— Me desculpe — ele disse, a voz grave, baixa, controlada.
Eliza piscou, tentando reorganizar os pensamentos.
— Não… eu que estava distraída — respondeu, sem conseguir afastar os olhos.
O silêncio que se formou entre os dois foi denso. Estranho. Intenso demais para um simples encontro casual.
Elson a observava com atenção calculada.
Ela não era como ele imaginara.
Havia algo no jeito como ela respirava, no olhar firme apesar da surpresa, na energia que pulsava sob a pele humana. Não era frágil. Não era vazia. E, pior de tudo… não era indiferente a ele.
O cheiro dela o atingiu como um golpe.
Sangue quente. Vivo. Forte.
Elson conteve o impulso imediato que percorreu seu corpo como uma descarga elétrica. Ele não se alimentava sem controle havia décadas. Ainda assim, algo nela o provocava de um jeito perigoso — não apenas fome, mas desejo.
— Você é nova na cidade? — ele perguntou, apenas para ouvir a voz dela de novo.
Eliza franziu levemente a testa.
— Nasci aqui — respondeu. — Ravenshade nunca foi exatamente grande.
Claro que não, pensou Elson.
— Eu sou Elson — disse, estendendo a mão.
Quando os dedos deles se tocaram, o mundo perdeu o equilíbrio.
Eliza sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. A mão dele estava fria demais — não de um jeito desconfortável, mas… diferente. O toque não foi demorado, mas deixou uma marca invisível, como se algo tivesse sido despertado dentro dela.
— Eliza — disse, soltando a mão rápido demais. — Eliza Hale.
O sobrenome ecoou na mente de Elson como um tiro.
Hale.
Por um segundo, o autocontrole quase se quebrou. Imagens do passado invadiram sua mente: tochas, gritos, o rosto do homem que deu a ordem.
O mesmo sobrenome.
Então era ela.
A filha do assassino.
Elson manteve a expressão impassível. Séculos de prática o ajudaram a não demonstrar nada. Por dentro, porém, algo se revirava — e não era apenas ódio.
— Prazer — respondeu, com um meio sorriso contido. — Acabei de chegar à cidade.
— Espero que goste — disse Eliza, hesitante. — Ravenshade é… intensa.
Ele quase riu.
— Tenho certeza disso.
Eles se despediram, mas Elson não se moveu imediatamente. Observou enquanto Eliza se afastava apressada, o cabelo balançando com o vento, o coração batendo forte demais para alguém que acreditava ter apenas esbarrado em um estranho.
Ela não sabia.
Ainda.
E ele usaria isso.
Naquela noite, Elson observou a cidade do alto do prédio que acabara de adquirir — um dos muitos passos iniciais do plano. Luzes acesas. Pessoas vivendo. Ignorantes.
— Ela é filha dele — disse Liam, surgindo das sombras. — O destino tem um humor c***l.
— Não é destino — respondeu Elson. — É oportunidade.
— Vai usá-la?
Elson demorou a responder.
A imagem de Eliza vinha à mente com uma insistência irritante. O jeito como ela o encarou sem medo. Como o toque dela ainda parecia preso à sua pele.
— Sim — disse por fim. — Mas não do jeito que você imagina.
Liam arqueou a sobrancelha.
— Isso é perigoso.
— Tudo vale quando se trata de vingança.
Mas quando Elson fechou os olhos, não foi o rosto do homem que matou seu irmão que ele viu.
Foi o dela.
E isso…
isso não fazia parte do plano.
Elson não sabia ainda, mas ao tocar Eliza Hale naquela manhã, ele não apenas voltou à cidade onde tudo queimou.
Ele despertou algo que poderia destruir sua vingança…
ou condenar os dois para sempre.
A noite avançava silenciosa demais para uma cidade que fingia normalidade.
Do alto, Elson observava Ravenshade como um predador paciente. As luzes das casas acesas, os carros passando lentamente, casais caminhando pelas calçadas — todos ignorantes do fato de que estavam sendo avaliados, medidos, lembrados. Humanos tinham essa capacidade irritante de acreditar que o tempo apagava tudo.
Não apagava.
A cidade respirava sobre ossos.
— Você sentiu, não sentiu? — Liam perguntou, encostado na parede, braços cruzados. — O cheiro dela.
Elson permaneceu imóvel, o olhar fixo no horizonte.
— Não confunda as coisas — respondeu com frieza. — Ela é apenas parte do plano.
Liam soltou um riso curto, sem humor.
— Já ouvi isso antes. Antes de vampiros perderem o controle. Antes de guerras começarem por causa de sentimentos humanos.
Elson virou-se lentamente, os olhos escuros refletindo a luz fraca do ambiente.
— Eu não perco o controle.
— Não — concordou Liam. — Você apenas finge que não sente.
O silêncio voltou a se espalhar entre eles, pesado como uma ameaça.
Elson dispensou Liam com um gesto breve. Precisava ficar sozinho. Precisava pensar. Ou, talvez, precisava não pensar.
Mas o rosto dela insistia.
Eliza Hale.
O sobrenome ainda queimava.
Eliza tentou se concentrar no trabalho, mas falhou miseravelmente.
As palavras na tela do computador se embaralhavam. O café esfriava ao lado. A mente, traidora, insistia em voltar para o encontro da manhã — ou melhor, para o homem.
Elson.
Ela se recostou na cadeira e soltou um suspiro frustrado.
— Ridículo… — murmurou.
Não era como se nunca tivesse achado um homem atraente antes. Ravenshade podia ser pequena, mas não era um deserto. Ainda assim, havia algo diferente nele. Algo que não conseguia explicar e que a incomodava mais do que deveria.
A voz grave.
O olhar que parecia ver além.
O toque frio que ainda arrepiava sua pele quando lembrava.
Eliza fechou os olhos por um instante, tentando afastar aquela sensação estranha — uma mistura de curiosidade, alerta e uma atração incômoda demais para um desconhecido.
— Você está pálida — comentou Maya, sua colega de trabalho, aproximando-se da mesa. — Aconteceu alguma coisa?
— Não — Eliza respondeu rápido demais.
— Só… manhã longa.
Maya a analisou por alguns segundos, desconfiada, mas acabou sorrindo.
— Se continuar assim, vai acabar tropeçando em alguém de novo.
O comentário fez o estômago de Eliza revirar levemente.
— É… — respondeu, forçando um sorriso.
Ela não contou sobre Elson. Não sabia explicar por quê. Talvez porque falar tornaria real demais algo que ela ainda tentava racionalizar.
À meia-noite, Elson deixou o prédio.
A cidade dormia. Ou fingia dormir.
Ele caminhava pelas ruas com passos silenciosos, passando por locais que um dia haviam sido campos de execução. A praça central — agora iluminada e decorada — fora o local onde vampiros haviam sido queimados vivos. Onde seu irmão havia morrido.
Elson parou ali.
As lembranças vieram violentas.
— Monstros!
— Matem todos!
— Não deixem nenhum vivo!
Ele fechou os punhos.
— Você prometeu… — murmurou para o vazio.
A promessa era clara. Simples. Irrevogável.
Mas então, contra a própria vontade, outra imagem se impôs:
Eliza, com o cenho franzido, pedindo desculpas por quase esbarrar nele.
Eliza, sem medo.
Eliza, humana… mas diferente.
Elson rosnou baixo, irritado consigo mesmo.
Sentimentos eram fraqueza.
Desejo era distração.
E ela era perigosa por razões que iam muito além do sobrenome.
Ainda assim, seus pés se moveram sozinhos.
Ele parou diante da casa dela.
Modesta. Aconchegante. Luz fraca acesa na sala.
Elson sentiu o coração dela antes mesmo de vê-la. Ritmo firme. Vivo. Pulsante.
Ela estava sozinha.
O instinto predatório despertou de forma lenta e traiçoeira. Não como fome urgente, mas como algo mais profundo — uma vontade de se aproximar, de sentir, de testar limites.
Ele se manteve nas sombras.
Não hoje, decidiu.
Mas em breve.
Eliza estava no sofá, envolta em um cobertor fino, quando sentiu o arrepio.
Era aquela sensação de novo. Como se estivesse sendo observada.
Ela se levantou devagar e caminhou até a janela, afastando a cortina apenas o suficiente para olhar para fora. A rua estava vazia. Silenciosa demais.
— Deve ser cansaço… — sussurrou.
Ainda assim, o coração acelerou sem motivo lógico.
Do lado de fora, oculto pela escuridão, Elson observava cada movimento. A forma como ela se aproximava da janela. O jeito vulnerável com que abraçava o próprio corpo.
— Não olhe… — murmurou, mais para si do que para ela.
Se ela o visse agora, algo se quebraria cedo demais.
Elson recuou, desaparecendo na noite com a mesma facilidade com que surgira.
Mas levou algo consigo.
A certeza de que aquela mulher não seria apenas um detalhe em seu plano.
Ela seria o ponto mais fraco…
ou o mais forte.
De volta ao apartamento, Elson se encarou no espelho.
Por um instante, deixou que a máscara caísse. Os olhos refletiram algo antigo, ferido, perigoso. As presas surgiram lentamente, não por fome — mas por conflito.
— Você não pode amá-la — disse em voz baixa. — Você nem deveria desejá-la.
O reflexo não respondeu.
Porque no fundo, ele já sabia.
Ravenshade não seria apenas o lugar da vingança.
Seria o lugar onde ele teria que escolher entre cumprir uma promessa feita às cinzas…
ou enfrentar o impossível:
amar a filha do homem que destruiu tudo.
Enquanto Elson lutava contra o próprio instinto, Eliza deitou-se sem conseguir dormir, o coração inquieto por razões que não sabia explicar.
Naquela mesma noite, dois destinos foram selados.
Nenhum deles sabia ainda…
mas a cidade que queimou primeiro
estava prestes a queimar de novo.