O jeito que Romeu havia dito aquilo me fez ficar um tanto quanto em alerta, pois minha mente conseguia pensar em mil possibilidades de iniciação em que eu precisaria da minha arma, mas não me deixei abalar por causa disso. Eu fingi que nada me abalava, apesar de saber que apenas parte daquilo era verdade e tentei seguir a vida normalmente.
Agora que ele havia me ligado avisando que estava na hora de executar a minha iniciação, a ansiedade voltou com tudo. Eu não estava com medo de fazer, até porque se eu quisesse trabalhar para a Máfia precisava mostrar que faria o que quer que eles me mandassem, mas o problema era se fosse algo muito pesado de se fazer, não sei se conseguiria.
— Está tudo bem, sim — falei cínico para Kimberly, no piquenique — preciso ir, meu tio está me chamando.
Então eu a beijei nos lábios novamente, pressionando os meus dedos contra sua nuca, impedindo-a de escapar de mim. Ouvia ela arfar, como se estivesse se divertindo e perdendo o ar junto.
— Gosto de você, Kim — falei dando um último beijo — mas preciso ir.
Ela apenas assentiu e eu fui embora. Peguei a minha moto que eu havia ganhado de aniversário de dezoito anos de Victor e parti na direção do centro da cidade, mas desviando para o leste quando estava quase chegando.
Quando cheguei ao local que Romeu havia me indicado, eu vi que estava na frente de um motel. Conferi no papel que ele havia me dado para ter certeza que estava no lugar certo e sim, era o local indicado. Eu entrei no portão principal que estava aberto e sem nenhum tipo de segurança, então eu vi o carro de Romeu parado à frente de um dos quartos.
Quando cheguei mais perto, vi que ele me esperava encostado na parte de trás do carro. Ele jogou a bituca do cigarro no chão, a amassou com o pé e veio em minha direção.
— Um motel? — perguntei, ao chegar perto dele — não tinha um lugar menos comprometedor?
— Sr. Evans — ele disse, erguendo ums dos cantos de sua boca — o local precisava ser discreto e nada melhor do que um lugar comprometedor que ninguém iria querer entrar — ele deu dois passos — venha, vamos começar.
Eu o segui e nós entramos na cabine número 3, onde lá havia um homem de aparência jovial, deveria ter uns vinte e poucos anos, tendo a vida toda pela frente, mas estava sofrendo. Ele tinha muitos machucados no seu corpo inteiro, onde a maioria sangrava como em hemorragias, além de alguns hematomas espalhados pela sua pele. E via-se na cara do homem que aquilo doía muito, fazendo-lhe sofrer tanto que m*l conseguia respirar, pois ele arfava como um cachorro cansado.
O homem estava deitado na cama, sangrando e agonizando de dor, pois além dos machucados aparentes, deveria haver muita dor interna em seus órgãos. Ele me olhava em desespero e súplica. Era uma cena horrível de se ver, muito sangue e agonia da pessoa que estava ali deitada.
— O que está acontecendo? — perguntei, dando um passo para trás — quem é este homem?
— Sr. Evans, eu lhe apresento Ernesto, um dos nossos homens italianos — Romeu disse apontando para o homem — ele foi ferido mortalmente em um serviço e agora está agonizando de dor até a morte.
— Isso é bem perceptível, Romeu — eu estava assustado, pois não esperava ver aquilo — e o que eu tenho que ver isso?
— Esta é a sua iniciação — de repente, ele ficou muito sério — Ernesto vai morrer sofrendo, por um longo tempo até que o seu momento chegue — Romeu me olhou — você tem coragem de lhe tirar o sofrimento antes de ele morrer agonizando?
— Quer que eu o mate? — perguntei apontando para o homem que quase chorava de dor na cama.
— Matar é tirar a vida sem motivo aparente — ele disse — o que você fará é acabar com a dor dele por completo, tirando a sua vida que já está para acabar.
— Não posso matar um homem inocente — falei atônito — é errado.
— Sr. Evans, você estará fazendo um favor a este homem — Romeu apontou para Ernesto — ele está em agonia dos seus últimos minutos de vida, aponte a sua arma para ele e tire o sofrimento desse homem — ele gritou, com urgência.
Aquela situação toda era insana, Romeu queria que eu atirasse contra aquele homem que era inocente, apenas para tirar a sua dor extrema. Pobre Ernesto, estava agonizando na cama após um serviço o qual provavelmente havia falhado e além de ter que morrer sabendo que fracassou, ainda terá que se permitir ir com um tiro ou agonizando. Eu não sei se estava pronto para isso, para matar alguém, achava que poderia evitar isso ao máximo, mas pelo visto Victor queria garantir que eu fosse capaz de fazer isso caso necessário. E será que eu seria capaz de matar um homem inocente, um aliado, para poder tirar o seu sofrimento?
— Se não quiser fazer isso, tudo bem — disse Romeu — entendemos que não tem interesse em fazer parte da Máfia, mesmo depois dos anos de treinamento que teve.
Aquilo era chantagem emocional, ameaçar que eu não seria aceito na Máfia caso não fizesse aquilo. Mas Ernesto não merecia sofrer e agonizar até a morte, ele merecia ter a sua dor cessada, mesmo que fosse por um completo estranho como eu. Se eu não entrasse na organização, não tinha mais motivos de ainda estar nesse mundo, pois agora a Máfia era o meu único propósito, então eu precisava ajudar aquele homem, mesmo que isso fosse contra os meus princípios.
Saquei a minha 9mm da minha cintura e, ainda nervoso, apontei para Ernesto, que me olhava com desespero e diria que até mesmo medo. Ele suava frio de tanto que estava sentindo dor, principalmente internamente de si. Ele se contorcia naquela cama de motel suja, como se caso se mexesse a dor diminuísse, mas infelizmente nós dois sabíamos que aquilo não era possível.
Ele parecia pronto, apesar de seus tremores, mas acredito que eles eram de outras questões. O homem tentou controlar todos os seus calafrios e expressões de dor, mantendo-se parado tanto quanto pôde, pois ele queria dizer algo, e aquelas seriam suas últimas palavras. Ernesto finalmente aceitou o seu momento final, respirou fundo e sibilou as últimas coisas audíveis que sairiam da sua boca.
— Obrigado, senhor — Ernesto me agradeceu, então fechou os olhos.
Apontei o revólver para ele, engoli em seco todo o meu nervosismo de primeira morte e puxei o gatilho. Bam. A bala foi diretamente para o meio da sua testa, deixando uma circunferência onde o projétil foi depositado e dali sangrou, deixando cair duas nascentes de sangue, caindo além das sobrancelhas, formando lágrimas vermelhas.
Ernesto já não me olhava mais com desespero, agonia ou dor alguma, pois agora ele não olhava mais para mim, já que não estava mais nesse plano. Ernesto estava morto e eu me sentia um assassino, pois acabara de matar um homem inocente para entrar em
uma organização criminosa. Eu sabia que precisava ter sangue frio para trabalhar nisso, mas era recém o meu primeiro serviço, então mesmo que eu não aceitasse, foi preciso tirar a dor daquele homem, assim como eu gostaria que fizessem comigo, se necessário.
Consegui finalmente compreender o sentido daquela iniciação: se fosse um companheiro meu de batalha ou serviço, eu iria ter que fazer o sacrifício de tirar a sua vida para livrá-lo daquela dor horrível de estar à beira da morte, sofrendo. Ernesto já era um colega de serviço, de outra pessoa dentro da organização, mas que eu havia sido responsabilizado para ajudá-lo daquela maneira.
— Avise ao Sr. Queen que ele tem mais um soldado — falei assoprando a ponta da arma e colocando-a de volta na minha cintura.