A chegada de Guilherme para almoçar não surpreendeu Tábata, supôs ser parte da rotina dele, o que causou estranheza foi que ele parecia mais preocupado em alimentá-la do que comer.
Desde que pisou os pés na casa, encontrando-a assistindo televisão, Guilherme esquentou a comida do dia anterior e a chamou para comerem juntos. Tábata teve a ligeira impressão que não fez o prato dela, porque se antecipou montando-o.
— Vai comer só isso? — ele questionou olhando com reprovação a comida em seu prato
— Tem bem mais do que no seu — afirmou apontando para o dele com o garfo
— Mesmo grávida está muito magra. Não parece se alimentar direito.
Ela o encarou irritada.
— Apesar do que insinua, me alimento bem, é o estresse... E você bancando o meu pai não vai ajudar em nada.
— Não tive a intenção de ofender — ele retrucou em choque com a reação dela. — Só me preocupo com sua saúde e a do bebê.
Ele baixou o olhar para o próprio prato, e Tábata se sentiu m*l pelo modo que o tratou.
Estendeu a mão, pousando-a no antebraço dele.
— Está sendo um amigo maravilhoso, mas é um exagero essa sua proteção, fica parecendo meu pai ou do meu filho — indicou mantendo um leve sorriso, quando por dentro queria chorar. Logo ficou séria ao ver ele se empertigar e desviar os olhos como se seu comentário o magoasse. — Não leve a m*l, só acho exagero.
— Entendi — ele disse parecendo chateado, aumentando o desconforto dela. Porém, logo a sensação de culpa passou quando ele disse cheio de razão: — Quando passar pela obstetra verá quem está certo.
Tábata revirou os olhos, exasperada.
— Ok. Se estiver certo farei tudo o que mandar.
Guilherme a olhou longamente fazendo-a pensar nas interpretações que ele poderia fazer.
— Me lembrarei disso — ele disse com um meio sorriso. — O que será em dois dias. Marquei uma consulta pra você — ele contou.
— Consulta? — Ela sacudiu a cabeça, tomada pela surpresa. — Não precisava. Já faz tanto por mim. Não quero incomodar mais do que já incomodo.
— Não está incomodando — ele garantiu. — Faço isso porque somos amigos, certo? E, enquanto estiver aqui, te darei todo o suporte que você e o bebê precisarem.
Ela abaixou o olhar para o prato, sentindo a garganta apertar. As palavras dele a tocavam profundamente, mas havia algo dentro dela que não acreditava merecer tamanho cuidado. Sua família nunca demonstrou esse tipo de apoio, e o namorado foi um canalha quando mais precisou, era difícil aceitar que alguém de fora faria isso sem esperar nada em troca.
— Guilherme... — sua voz saiu num sussurro fraco. — Nem sei como te agradecer. Eu... — As palavras travaram, e, antes que percebesse, lágrimas começaram a descer por seu rosto. — Odeio esses hormônios... — resmungou secando os olhos.
Sem hesitar, ele aproximou suas cadeiras e a puxou em um abraço, envolvendo-a com seus braços firmes, o perfume amadeirado e seu calor envolvendo-a.
— Vai ficar tudo bem, Taby. — A voz de Guilherme era suave, quase um sussurro em seu ouvido. — Você não precisa fazer isso sozinha.
Ela fechou os olhos, sentindo-se pequena, frágil, e, ao mesmo tempo, acolhida. Havia algo confortante naquele abraço, uma proteção que nunca teve antes. Mas logo, uma voz amarga dentro dela sussurrou:
“Ele só faz isso por pena”.
Afundou o rosto no peito dele, afastando os pensamentos negativos e focando no calor do momento. Preferia fingir que era mais do que apenas compaixão. Queria acreditar que alguém, finalmente, a via como merecedora de cuidado.
~*~
Ficando novamente sozinha, Tábata estava no sofá da casa de Guilherme, os dedos deslizando por seu ventre, os olhos no seriado no televisor, embora sua mente revivia o abraço de horas antes.
Era impressionante que o tempo não diminuiu a atração que sentia por ele. Ou talvez fossem os hormônios. Seja o que fosse tinha de parar, se ordenou.
Assustou-se quando o celular em seu bolso começou a vibrar. O pegou apressada e ao ver o nome de seu irmão caçula, Tomás, seu coração deu um pequeno salto. Ao mesmo tempo em que ansiava acabar com a saudade pelo afastamento forçado, preocupou-se.
— Tomás? Tá tudo bem?
— Oi, Tatá! Comigo está tudo bem e com você? — ele devolveu, a voz preocupada e carregava de nervosismo. — Tô com saudade.
Tábata sorriu. Tomás sempre foi o mais afetuoso dos irmãos, o único que a tratava bem.
— Estou bem na medida do possível, e também estou com saudade. Como você tá? Como estão as coisas aí? — perguntou, tentando manter a conversa leve, mas sentindo o aperto no peito. A expulsão, a falta de acolhimento da família, ainda doía.
— Tá tudo mais ou menos, né? — Ele hesitou. — Você faz falta aqui. Só eu cuido do pai agora... Bem, mas eu queria saber se a gente pode se ver qualquer dia desses.
— Claro que pode, Tomás! — respondeu animada por manter pelo menos o caçula do seu lado. — Podemos marcar o dia que você puder.
— E onde você está?
— Na casa de um amigo. — Imaginando que o irmão queria visita-la ali, avisou: — Posso falar com ele, pra saber se você pode vir aqui.
— Casa de um amigo? O pai do seu bebê? — ele perguntou, a curiosidade evidente.
Tábata inspirou fundo, se afundando no sofá. Em algum momento teria de falar sobre o pai de seu filho, mas não seria agora.
— Não. Estou na casa do Guilherme, amigo do primo Lee.
— Legal! A mãe fica de olho em mim, mas assim que der marcamos um dia — Tomás se explicou.
— Eu entendo, Tomás. — Tábata suspirou. — Pode me ligar sempre. E, por favor, se precisar de algo, me avisa.
— Valeu, Tatá. Eu te amo, sabia?
Tábata piscou, surpresa com a declaração. Seu irmão raramente verbalizava esses sentimentos, mas naquele momento, parecia genuíno e necessário.
— Eu também te amo, Tomás — respondeu, com a voz embargada. — Muito.
Depois de encerrar a ligação, Tábata ficou por um momento olhando para o celular. Parte de si estava feliz por ainda ter uma conexão com alguém de sua família. A outra parte, queria ter a mesma relação com os demais, principalmente com sua mãe.
Acariciou sua barriga, pensando no bebê crescendo em seu interior. Seria uma boa mãe e daria ao seu filho tudo que necessitasse e que ela própria não teve. Inesperadamente a imagem de Guilherme voltou a sua mente, junto com o pensamento que ele seria um bom pai.