Quando Guilherme chegou em casa, Tábata sentiu imediatamente o cheiro irresistível que emanava das sacolas em suas mãos. Seus olhos brilharam enquanto o seguia até a cozinha, a curiosidade aguçada pelo aroma saboroso.
— Nossa, que cheiro bom! O que é? — perguntou seguindo-o até a cozinha.
Ele pousou as sacolas na mesa e, sem responder imediatamente, abriu as embalagens, revelando os pratos que comprou no caminho.
— Chow mein [1]com molho de ostra, legumes e carne de porco — disse, sorrindo satisfeito ao abrir a segunda embalagem antes de olhar para ela. — Ah, e tem guioza[2] também.
O estômago de Tábata pulou eufórico de felicidade e seus olhos salivaram diante dos pratos.
— São os meus favoritos!
— Eu sei — ele disse com um sorriso de puro orgulhoso por sua façanha. — Pode comer à vontade, é tudo seu.
Tábata soltou um pequeno riso ao se dar conta que ele comprou todas aquelas delícias em sua missão de fazê-la comer mais. Ele tinha encontrado um modo de garantir que ela se alimentasse bem, comesse mais do que o fazia e sem reclamar, como tinha feito mais cedo.
— Ah, Gui, você é maravilhoso! — exclamou e, impulsivamente, se jogou nos braços dele, sentindo uma onda de calor se espalhando a partir de seu peito.
Agradecida e tomada pela alegria do momento, em sua empolgação se ergueu na ponta dos pés para brindar a bochecha com um agradecimento estalado, mas, no último segundo, Guilherme se moveu levemente, e o que era para ser um beijo no rosto acabou sendo na boca.
Por um instante, ainda abraçados, ambos congelaram em choque pela proximidade inesperada. Tábata só conseguiu desviar os olhos das íris cor de mel quando reparou que estavam fixas em sua boca e, copiando-o, deslizou o olhar para a boca macia que provou tão brevemente. Queria beijá-lo novamente, provar sua maciez mais uma vez, sentir a língua dele de encontro a sua. Sendo honesta, queria aquela boca por todo seu corpo.
Arfou ao sentir o toque dos dedos dele em seu rosto em uma carícia suave.
A boca sedutora se curvou em um sorriso.
— Se gostou tanto, vai ter que comer tudo até o fim — disse ele, se curvando para beijá-la, infelizmente no rosto, porém, bem perto dos lábios dela. — Vamos jantar!
Com a mão firme, mas gentil, ele a guiou até uma cadeira, que puxou para que se sentasse. Sem mencionar o momento embaraçoso, ele moveu-se pela cozinha em busca de pratos e bebidas para ambos antes de ocupar a cadeira ao seu lado.
Entorpecida, Tábata sentia o beijo formigando em seus lábios. Tinha sido um acidente, mas seu coração, mente e seu corpo reagiam de outra maneira.
Era frustrante que nada em Guilherme demonstrasse que tinha sido afetado. Agia como tinha feito no passado, criando um distanciamento gentil e educado, movendo a atenção dela para uma conversa informal.
Decidida a fazer o mesmo, e tendo uma refeição deliciosa a sua frente, começou a comer e o acompanhou na conversa casual comentando sobre o ocorrido à tarde:
— Hoje recebi uma ligação do Tomás, meu irmão mais novo.
Guilherme ergueu os olhos do prato.
— Sério? E o que ele queria?
— Ele disse que está com saudade e quer me ver. — Ela sorriu, o coração aquecido ao pensar no caçula. Era raro alguém da sua família demonstrar carinho genuíno, e o fato de Tomás ter ligado significava muito para ela. — Ele é um bom garoto, sempre foi. Teria me ajudado se pudesse... — comentou desanimada.
Guilherme a observava atentamente, seus olhos dourados captando a importância daquela conversa para ela.
— Passa o endereço daqui pra ele — ele disse, de repente. — Diz que pode te visitar quando quiser.
Tábata o olhou surpresa, sentindo um nó de gratidão na garganta. Aquilo significava tanto. Guilherme, sem nenhuma obrigação, mais uma vez mostrava seu coração generoso.
Era estranho ter alguém cuidando dela, alguém que não estava esperando nada em troca, alguém que, de fato, se importava. Não estava acostumada a isso.
— Obrigada, Gui... Eu não sei nem como te agradecer... Está sendo muito bom comigo...
Ele sorriu de um jeito reconfortante.
— Não precisa me agradecer, Taby. — Ele deu um sorriso caloroso. — Quero que você se sinta à vontade aqui. Você e esse pequeno aí — complementou, apontando para a barriga dela.
— Encontrarei um modo de agradecer — ela garantiu, comentando empolgada: — Até decidi limpar a casa para isso, mas esse lugar é tão limpo.
— Não precisa fazer nada. Ocasionalmente pago uma diarista.
— Por favor, enquanto estiver aqui eu faço isso — ela insistiu. Não sabia exatamente como retribuir aquele cuidado, e isso a fazia sentir-se vulnerável. Queria fazer algo.
Dando de ombros, ele enfim concordou.
— Mas não se esforce muito e se precisar de ajuda não hesite em me avisar.
Tábata assentiu, contente em arranjar um modo de retribuir a bondade dele, mesmo que só mantendo a casa em ordem.
“Temos alguém especial cuidando da gente, bebê”, disse mentalmente para a criança em seu ventre. “E a mamãe vai se controlar e não vai estragar as coisas dessa vez”, prometeu passando uma mão suavemente pela barriga e observou Guilherme.
Ele ergueu o olhar, apontou para o prato dela, incentivando-a a comer e sorriu. Um simples inclinar de lábios e ela se derreteu como manteiga num pãozinho quente.
“A mamãe é fraca”.
[1] Chow mein, prato de macarrão chinês frito com legumes e, às vezes, carne ou tofu.
[2] Guioza, ou gyoza, espécie de pastel recheado com vegetais e/ou carne, que pode ser frito ou feito apenas no vapor.