Acordando pra vida
Helena estava apática, assentada abaixo de uma grande árvore. Sobretudo, ela se sentia uma perdedora contumaz.
Olhando para o céu azul daquele dia e sentindo a brisa que tocava seu rosto, ela se deu conta de que nada do que havia pensado para sua vida de fato se concretizou.
Ela sonhou com o dia em que conquistaria o respeito de seus familiares, e isso só seria possível caso ela obtivesse um grande sucesso profissional.
Ela se sentia vazia, e todas as vezes em que via uma família feliz, ela questionada a Deus o porquê de ela não ter nascido em um lar assim.
A verdade é que sua família era um completo desastre. Eram humildes e viviam no campo. Mas isso não era o pior, ruim mesmo era ter que se meter no meio das brigas incessantemente para não presenciar uma agressão entre eles.
Ela se lembrou com pesar do dia em que desistiu de se meter entre eles e seu pai de fato agrediu sua mãe. Faltavam seis meses para os seus quinze anos e o único momento que havia lhe trazido alguma felicidade ao longo dos últimos anos não ocorreria mais.
Por causa da briga entre os pais, o seu tão sonhado aniversário de quinze anos foi desmarcado e ela viu seu único sonho adolescente ruir.
Nesse dia, ela decidiu que aos seus dezesseis anos iria embora de casa. E foi exatamente o que ela fez.
Ao se afastar daquela pequena cidade, surgiu um pequeno fio de esperança em seu coração, de certa forma, ela ainda tinha a oportunidade de recomeçar e poderia alcançar todos os seus objetivos.
Ao chegar em Fortlander, percebeu o tamanho da cidade e o quão sozinha ela estava. Nunca foi fácil sua vida. Trabalhava em um restaurante a noite e estudava pela manhã. Em muitas ocasiões dormia de 2 a 3 horas por noite e se sentia exausta.
Quanto aos homens, muitos tentaram compra-la, mas ela nunca cedeu a nenhum deles.
Um pequeno sorriso passou pelo seu rosto ao se lembrar daquele período em que trabalhou no restaurante de luxo. Muitos homens lhe ofereceram casas, pensões e muitas outras coisas para que ela se deitasse com eles.
Claro, ela era bonita, de fato não se poderia negar. Era morena, magra, mas com curvas de dar inveja. Sua cintura era fina e seus quadris mais largos, seu corpo era como um violão. Além disso, tinha longos cabelos pretos, que iam até abaixo da cintura e uma boca carnuda que tirava suspiros de qualquer um.
Mas o fato é que ela jamais cogitou se vender. E apesar de todos os benefícios que poderia obter. Ela ainda pensava que poderia conhecer um homem que de fato lhe faria feliz e mereceria tocar em seu corpo.
Infelizmente, nem isso ela conseguiu. Certo dia, entrou para trabalhar com ela um rapaz, ele era lindo, moreno, alto, de olhos verdes, da cor de esmeraldas. Mas o que mais a fascinou foi a atenção com que ele a tratava.
Ele cativou tanto Helena, que ela que prometeu jamais se apaixonar, deixou-se seduzir por ele e por mais que fosse avisada de que ele em verdade era uma farsa, não acreditou.
Dessa vez, ela sorriu com amargura ao se lembrar do que passou nos meses seguintes. Aquele anjo era em verdade o próprio demônio encarnado.
Ele aproveitou-se de toda sua doçura e lhe retirou o que ela mais preservava com toda brutalidade possível. Em uma noite fria, ele pediu para dormir em sua casa, pois seu veículo estava estragado e já era tarde.
Ela por óbvio concordou, sem saber que essa noite lhe traria lembranças tão dolorosas. Ele transformou-se em um monstro voraz e violentou-a.
Como ela havia sido criada em um lar Cristão, sua vontade era se guardar para um futuro casamento e esse era inclusive o motivo pelo qual nunca passou pela sua cabeça tirar proveito da sua beleza para conseguir nada.
A noite foi como um suplício, ele a violou mais de uma vez e ao amanhecer avisou que se ela não fosse dele, não seria de mais ninguém.
Sem opções, se viu obrigada a voltar para sua cidade e ali ficou escondida, sofrendo em silêncio por dois longos anos, até terminar o ensino médio.
Muitos achavam que Helena estava doente, devido a sua falta de interesse por tudo. A verdade é que a vida já não fazia mais sentido depois da terrível violência que sofreu.
Ela continuou calada e ninguém teve conhecimento dos fatos, pois ela se sentia suja todas as vezes que se lembrava do ocorrido.
Ao final daqueles dois longos anos, ela conseguiu voltar ao local do seu martírio. Conseguiu também outro emprego e esperava pela resposta da faculdade.
Havia se decidido por fazer o curso de Direito, no entanto precisava conseguir uma bolsa de estudos, pois não conseguiria arcar com os custos.
Seis meses se passaram e nada aconteceu, ela já havia perdido as esperanças de cursar sua tão sonhada faculdade, até mesmo porque parecia mais um devaneio da sua cabeça, que uma realidade.
Onde já se viu , uma perdedora como ela, que não foi capaz nem de se preservar, achar que seria capaz de passar em um curso tão concorrido não é mesmo?
Nesse momento, um lampejo de raiva brilhou em seus olhos, pois ela se lembrou das palavras de sua avó materna.
A sua avó nunca gostou dela e fez questão de jogar na sua cara que uma faculdade desse nível não era pra ela. Ela nunca conseguiria alcançar isso.
Pela primeira vez, desde que se assentou ali, ela se mexeu, seus punhos se fecharam e ela implorou a Deus que lhe ouvisse e que lhe concedesse ao menos uma chance.
Era tudo que ela precisava naquele momento, uma chance para mudar sua realidade e não desejar a morte.
Só quando seu telefone tocou, foi que saiu de seus pensamentos e voltou a realidade. Era da faculdade a qual ela havia se candidatado.
A pessoa que estava do outro lado da linha informou que ela havia conseguido uma bolsa total e que precisava entregar todos os documentos necessários em dois dias, caso contrário, perderia sua vaga.
Rapidamente ela se levantou e pensou nas palavras de sua avó. Essas palavras tornaram-se combustível para que ela conquistasse sua tão almejada vaga na faculdade.
Ela pegou seu telefone e ligou para sua mãe que estava na cidade acompanhando sua irmã que estava grávida.
Não que ela quisesse compartilhar a sua alegria com a mãe ou mesmo que sua mãe se importasse com tal conquista.
Mas ela precisava de alguns documentos que somente sua mãe poderia fornecer. Então não restou nenhuma saída a não ser fazer tal pedido a ela.
No entanto, mesmo sabendo que sua recusa poderia acabar com essa única oportunidade que o destino deu a Helena. Sua mãe se recusou a deixar sua irmã um pequeno tempo sozinha para providenciar os documentos.
Mas é claro que isso aconteceria, Isabele sempre foi a queridinha da mãe. Era para quem a mãe devorava toda a sua atenção e agora estando grávida, as coisas apenas e amplificaram.
Helena viu-se em desespero, pois a única chance que havia aparecido em sua vida, aparentemente lhe escaparia e ela não pôde deixar de chorar.
Todavia, no momento seguinte, ela se lembrou de Lucas, um homem que havia conhecido ao sair um dia da igreja.
Eles apenas conversaram, mas ele lhe disse que precisaria de uma esposa por um intervalo de 6 meses, para que seu pai lhe confiasse os negócios da família.
Eles eram advogados e advogavam apenas para os maiores empresários do país. Ela ainda pensou por um momento, mas resolveu que ligaria para ele e solicitaria a sua ajuda.
Lucas aceitou resolver toda a sua situação e ao final da tarde, como que em um passe de mágica ela estava realizando sua matrícula na tão sonhada faculdade.
As aulas se iniciariam na próxima semana e ela estava muito ansiosa. Tudo parecia em plena tranquilidade, quando recebeu um telefonema do Sr. Carlos, gerente do restaurante onde trabalhava.
Ele apenas disse que precisava vê-la com certa urgência. Ela se apressou indo direto ao seu encontro. Mas ao chegar no local, logo percebeu que não seria uma conversa nada boa.
O Sr. Carlos logo disse que eles iriam precisar demitir os funcionários que não conseguissem trabalhar em dois turnos e ela era claramente um desses funcionários.
Seu mundo ruiu, como ela poderia agora se manter e iniciar sua faculdade. Não havia ninguém com o qual ela pudesse comprar.
Ela saiu do local e vagou por muito tempo, ainda desnorteada pela cidade. Até que avistou um carro preto que parou loga a sua frente.
Para sua surpresa era ninguém menos que Lucas e ele pediu para que ela entrasse no carro para conversarem.
Ele estava com um semblante sério e a levou para um local tranquilo. Ao questionar o que se passava, ele apenas lhe disse que faria dela sua esposa pelos 6 meses e que após este período ela seria livre.
Helena quis mais explicações, no entanto, recebeu apenas o contrato para assinar e foi informada de que a partir daquele momento, moraria com ele.
Não houve como conversar, nem mesmo avisar aos familiares dela. Ela apenas o seguiu.