O Encontro

568 Words
O silêncio da casa parecia mais denso depois que a porta se fechou atrás dos adultos. Amélia ficou parada por alguns instantes na cozinha, ouvindo apenas o som abafado dos passos dos irmãos no andar de cima. O coração batia rápido, como se quisesse avisá-la de que algo estava fora de lugar. Lion se acomodou no sofá da sala, cruzando as pernas com naturalidade ensaiada. Seus movimentos eram lentos, calculados, quase felinos. Ele parecia completamente à vontade, como se a casa fosse dele. — Então… você vai completar dezoito anos em duas semanas? — perguntou, sem tirar os olhos dela. A pergunta a pegou desprevenida. Amélia se virou bruscamente, com uma expressão de incômodo. — É. Mas não sei por que isso te interessa. Lion riu baixo, um som grave que reverberou no ambiente. — É raro encontrar alguém da sua idade por aqui. Normalmente, ou são crianças… — ele fez uma pausa proposital, os olhos descendo lentamente pelo corpo da garota — ou adultos muito mais velhos. Amélia sentiu o rosto corar, mas não desviou. Queria mostrar firmeza, embora o calor que subia em sua pele a denunciasse. — Eu nem queria estar aqui — murmurou, cruzando os braços como se tentasse se proteger. — Eu sei. — Ele se inclinou para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. — Mas às vezes, os lugares que não queremos nos levam a descobertas inesperadas. Aquelas palavras ficaram ecoando dentro dela, e Amélia odiou a sensação de que havia algo escondido nelas. Uma promessa? Uma ameaça? Não sabia ao certo. De repente, Andrew gritou lá de cima: — Amie! A água do chuveiro demora muito pra esquentar! — Já vou! — respondeu, quase aliviada pela interrupção. Ela subiu as escadas depressa, mas não sem sentir os olhos de Lion a acompanharem. O peso daquele olhar queimava suas costas como fogo invisível. No quarto, ajudou Andrew a ajeitar o chuveiro, repreendendo-o pela bagunça. Anne, já de toalha nos cabelos, reclamava de tudo: da viagem, da casa, até do cheiro da madeira. — Vocês dois não saiam dos quartos, entendido? — ordenou Amélia, com uma firmeza que surpreendeu a si mesma. Quando desceu novamente, encontrou Lion ainda no sofá. Só que agora, ele observava o reflexo do lago pela janela. A luz do entardecer fazia a água cintilar em tons dourados e negros, como se escondesse segredos em suas profundezas. — Esse lugar… — ele murmurou, quase para si mesmo — tem uma energia peculiar. Você sente, não sente? Amélia hesitou. — Sinto o quê? Ele se virou, e naquele instante os olhos pareciam ainda mais escuros, como poços profundos. — Que não estão sozinhos. Um arrepio percorreu a espinha dela, e por um segundo a sala pareceu mais fria, mesmo com o calor sufocante que ele trazia. Amélia recuou um passo, mas não conseguiu desviar o olhar. Lion sorriu, lento, como quem saboreia um segredo. — Não tenha medo, Amélia. — Sua voz soava como um sussurro que se infiltrava direto nos pensamentos dela. — O medo só torna tudo… mais intenso. A respiração da garota ficou irregular. Um calor estranho se espalhava pelo seu corpo, contraditório ao frio que a envolvia. Era como se o ar ao redor dele fosse feito de magnetismo, de tentação e perigo ao mesmo tempo. E, pela primeira vez, ela percebeu: não sabia se queria fugir daquele homem… ou se queria se aproximar ainda mais.
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