O Dia Seguinte
O sol nasceu preguiçoso sobre o lago, tingindo a superfície de dourado. A mansão parecia diferente à luz do dia — menos ameaçadora, mais acolhedora. Mas, para Amélia, nada havia mudado. O peso da noite anterior ainda estava sobre ela.
Levantou-se devagar, como se seu corpo não tivesse descansado. Ao passar a mão na coxa, onde vira a marca da mão, estremeceu. Não havia mais nada ali, mas a lembrança do calor daquele toque era tão vívida que parecia real.
Os irmãos já corriam pela casa, explorando cada canto. Anne gritava com Andrew por mexer em suas coisas, e o barulho ecoava pelos corredores como numa rotina comum de férias. Mas para Amélia, nada estava comum.
Na cozinha, Teresa preparava café, cantarolando baixinho uma melodia antiga. Rachel organizava os mantimentos que haviam trazido do mercado na noite anterior. Patrick lia o jornal, tentando parecer despreocupado. A cena era quase pacífica.
Quase.
Lion estava lá. Sentado à mesa, como se fosse parte da família. Conversava com Patrick sobre a região, respondia às perguntas de Teresa com educação impecável, mas seus olhos… seus olhos sempre voltavam para Amélia.
Ela desviava sempre que percebia, mas o incômodo não diminuía. O pior era que, junto ao medo, havia algo mais. Uma pulsação estranha em seu corpo, como se a lembrança do sonho tivesse deixado um eco dentro dela.
— Dormiu bem, Amélia? — A voz dele rompeu o ar, direcionada apenas a ela.
Todos olharam, aguardando a resposta. A garota engoliu em seco.
— S-sim… — respondeu rápido demais.
Lion arqueou um leve sorriso, satisfeito.
Mais tarde, enquanto ajudava Teresa a arrumar os quartos, Amélia tentou distrair-se com tarefas simples. Mas cada sombra no corredor parecia observá-la, cada reflexo nos espelhos a deixava inquieta.
Em determinado momento, ao se aproximar da janela do quarto, viu o chalé do outro lado do lago. Isolado, silencioso, feito de madeira escura. Não havia barcos, não havia trilhas. Apenas água e árvores.
Um arrepio percorreu sua espinha.
— Bonito, não é? — a voz de Lion soou atrás dela.
Amélia se virou, sobressaltada. Ele estava parado no batente da porta, como se tivesse surgido do nada.
— Você… como entrou aqui?
Lion sorriu, um sorriso que parecia brincar com a ingenuidade dela.
— As casas antigas têm muitos caminhos. — Deu alguns passos, aproximando-se, até ficar tão perto que ela pôde sentir o calor do corpo dele. — Mas você… você ainda não descobriu todos os seus próprios.
Amélia recuou, sentindo o coração disparar.
— Não sei do que está falando.
— Sabe, sim. — Ele inclinou a cabeça, como se a estudasse. — Você sente. Sentiu desde que chegou.
As palavras oprimiam e atraíam ao mesmo tempo. Amélia abriu a boca para responder, mas Anne gritou lá de baixo:
— Amie! Vem ver isso!
Ela aproveitou a interrupção, escapando rapidamente do quarto. Mas, enquanto descia as escadas, não conseguiu ignorar a sensação de que Lion não estava apenas brincando com ela. Ele estava testando limites.
E, pior ainda: parte dela queria descobrir até onde ele iria.