O Escolhido
Do outro lado do lago, no silêncio profundo do chalé, Dantalion observava.
Para a família, ele era apenas Lion, o caseiro. Mas sob a pele humana, havia muito mais — séculos de fome, desejo e poder contido.
Ele sempre se alimentara de energia vital. O contato físico, o prazer roubado dos mortais, era a chama que mantinha sua essência acesa. Mas, por mais intensa que fosse a entrega das mulheres que conheceu, nenhuma delas foi suficiente. Nenhuma preenchia o vazio que se expandia dentro dele a cada geração.
Dantalion precisava de mais.
Precisava de um herdeiro.
Não um filho comum, mas alguém que pudesse carregar em si a fusão de sua essência demoníaca e da energia única de uma alma humana escolhida. Uma descendência que o libertaria da prisão do lago, das árvores, da terra. Que o tornaria mais do que apenas um demônio preso a este pedaço esquecido do mundo.
Por séculos, esperou. Observou. Seduziu. Rejeitou.
As mulheres vinham e iam, belas, frágeis, tentadoras… mas todas vazias. Nenhuma tinha a centelha que ele buscava.
Até agora.
Na noite em que a família chegou, ele a viu: Amélia.
A jovem não o olhou como as outras. Não foi apenas medo, nem apenas fascínio. Foi algo maior, um reconhecimento instintivo. Como se sua alma sensitiva tivesse despertado ao cruzar com a dele.
E Dantalion sentiu.
Um calor violento que percorreu seu corpo quando seus olhos encontraram os dela.
Um arrepio queimando sua pele quando tocou sua mão.
Uma onda de energia rara, quase sagrada, misturada a um desejo bruto que o deixou faminto.
Ela.
Não havia mais dúvidas. Era ela.
O corpo ainda juvenil, prestes a florescer, guardava uma alma antiga, cheia de mistério e poder.
Ela era o recipiente perfeito.
— Minha herdeira… — murmurou para si mesmo, enquanto observava a janela iluminada do quarto dela. — Não importa quanto tempo precise esperar. Você será minha.
Dantalion sabia: precisava agir com cuidado. Os pais desconfiariam, a avó poderia intuir, os irmãos eram distrações. Mas Amélia já estava marcada.
O sonho da noite anterior fora apenas o primeiro passo — uma fagulha plantada em sua mente, um ensaio do que viria.
Ele sorriu, satisfeito. O lago estava em silêncio, como se a própria água esperasse pelo ritual.
Logo, muito em breve, aquela garota não seria apenas sua amante.
Seria a mãe de sua descendência.
E juntos, eles romperiam as amarras deste lugar.