- Eu dei a placa, o modelo e última localização, como você não consegue rastrear o carro? – Gritei ao telefone.
- Charlie, acalme-se. Estou fazendo tudo o que posso – A voz ao telefone respondeu.
- Então faça mais! – Berrei, e desliguei.
Cruzei os dedos em frente ao rosto e cobri os olhos com as mãos. Bella foi levada por minha causa, e não pude fazer nada para protegê-la. Respirei fundo, tentando manter a calma. A delegacia não iria ajudar. Casos com apotamkins eram abafados para não chamar atenção dos que não sabiam de nada. Eu era a pessoa que resolvia isso, e agora que eu quem precisava de ajuda...
Olhei para o telefone e mordi o lábio. Disquei o número de Billy e esperei chamar. Ele atendeu depois do terceiro toque.
- Alô – Disse a voz, mas não era Billy.
- Jacob, onde está o Billy?
- Sr. Swan? Bem, ele está aqui. Aconteceu alguma coisa?
- Bella foi levada – Falei, e senti um amargo na boca com aquelas palavras.
- O quê? O que aconteceu?
- Chame o Billy, preciso da ajuda dele.
Ouvi movimentação do outro lado da linha, um grito e uma pequena discussão.
- Charlie, sou eu – Disse Billy.
- Billy, precisa me ajudar. Bella... Ela foi levada pelos apotamkins. Eles querem que eu vá encontrá-los hoje à noite no velho estúdio de ballet. Não posso fazer isso sozinho, preciso da sua ajuda.
Do outro lado da linha, ouvi apenas o chiado da ligação e a leve respiração dele.
- Billy, por favor... Não – Implorei.
- Desculpe, Charlie – Ele finalmente respondeu.
- Conheço você há anos, Bella é como sua sobrinha – Tentei argumentar, lutando para convencê-lo.
- Sabe que não posso interferir. Lamento, Charlie, mas não posso ajudar.
- Escute, por favor, não posso fazer nada enquanto eles estiverem com ela. Eles esperam que eu vá sozinho, sabem que ninguém da delegacia pode fazer nada. Billy, por favor, é a minha filha.
- Sei como se sente, e não posso dizer que isso não me dói. Se pessoalmente eu pudesse fazer algo, saiba que faria, mas estou em uma cadeira de rodas e não sou útil para você. Como amigo, eu faria de tudo para salvá-la, mas como líder, não posso deixar o clã fazer parte de algo que vai causar uma guerra. Os apotamkins não querem Bella ou a nós, eles querem você. Se interferirmos, só causaremos mais conflitos. Espero que possa me perdoar. Adeus, Charlie.
- Billy, não desligue! Billy! Billy!
Mas ouvi a ligação ser encerrada, e foi como se eu tivesse levado um soco na cara. Abaixei o telefone devagar, pois precisava me controlar para não arremessá-lo na parede.
Merda.
Merda, m***a, m***a!
Tive que parar um segundo para respirar, e então disquei outro número.
O telefone chamou uma vez, chamou duas vezes, chamou três vezes e continuou chamando até entrar na caixa de mensagem. Respirei fundo, desliguei e liguei novamente.
Depois de mais uma tentativa, finalmente alguém atendeu.
- Alô? – Ouvi a voz do outro lado.
- Carlisle, é o Charlie – Tentei manter a calma, mas estava sendo difícil.
- Oh, Chary, desculpe. Não recebemos muitas ligações, então não estávamos atentos ao telefone.
- Eles a levaram – Falei.
Houve um segundo de silêncio que pareceu uma eternidade.
- Perdão?
- Eles levaram a Bella. Querem que eu vá até o estúdio de ballet ao anoitecer. Sabem que ninguém vai me ajudar, e com Bella como refém, não posso fazer nada contra eles.
Mais silêncio.
- O que temos a ver com isso?
Senti um ódio profundo daquele vampiro filho da p**a, mas não poderia externar nada.
- Estou pedindo a sua ajuda – Confessei.
- Imagino que não fui sua primeira opção.
- O clã não vai me ajudar, a delegacia também não pode fazer nada. Não tenho mais a quem recorrer.
- Charlie, sabe que não posso fazer nada quanto a isso.
- Carlisle, por tudo que há de mais sagrado... É a minha filha...
- Palavras sagradas me queimam, e você sabe disso. Não vou envolver minha família em uma briga com outro clã. Além do mais, você mesmo disse que queria que ficássemos longe dela.
Fiquei um instante procurando o que falar, mas não encontrei. Deus...
- Lamento, Chary – Disse ele, e ouvi o telefone sendo colocado no gancho.
Malditos vampiros. Malditos lobisomens. Malditos humanos. Desgraçados amaldiçoados, todos eles!
Ninguém iria me ajudar, e sozinho eu não poderia fazer nada. Entrei no meu quarto e olhei todo o equipamento que eu tinha. Cruzes, balas feitas de crucifixos derretidos, armas benzidas, sprays de alho, estacas, rosários, correntes, socos-ingleses. No fim, mesmo me preparando tanto, eu subestimei os malditos apotamkins.
É mais fácil derrubar alguém em que você só precisa cuspir alho do que alguém que um humano normal, mas quando você não pode usar o equipamento, nenhum humano pode fazer frente à um apotamkin. Eu sabia que assim que chegasse lá, eles me mandariam largar tudo que eu levasse em troca da segurança de Bella. Durante a noite, quando eles estão com força máxima, era impossível confrontá-los de mãos nuas, e mesmo que eu pudesse, o perigo que Bella corria me colocava em cheque.
Eu não podia deixar de ir, mas sabia que isso significaria minha morte. Fui morto no momento em que eles a levaram, e minha única esperança é a de que eles a poupassem, mas mesmo nisso as chances eram mínimas.
Droga, o que eu estava pensando? Eles a matariam assim que me tirassem da jogada. Eu não poderia salvá-la. Não havia qualquer cenário onde ela ficasse viva, mesmo se eu desse minha vida em troca.
Senti uma lágrima descendo pelos meus olhos, e eu soube o que precisava fazer. Bella morreria, não importa o que eu tentasse fazer para evitar isso. Carreguei minha espingarda, limpei minha pistola e preparei todo o meu equipamento.
Se eu não poderia salvá-la, ao menos a vingaria.
Eu me forcei a comer para não ficar indisposto, mesmo que eu não estivesse com fome, alonguei membros e juntas para me livrar das dores da noite passada e aguardei o tempo passar. Com certeza eles não arriscariam fazer nada durante o dia, então eles só estariam no lugar combinado à noite. Não adiantaria me apressar para estar lá, e as horas que fiquei esperando tudo acontecer foram infernais.
Olhei no relógio para conferir as horas e vi o céu começar a escurecer. Estava quase na hora. Ajeitei o equipamento, empunhei minha arma e me levantei. De surpresa, ouvi uma batida na porta da frente e quase atirei nela por reflexo.
- Quem é? – Questionei, apontando o cano da espingarda para a porta.
Como resposta, só ouvi outra batida. Suei frio, nervoso, e dei alguns passos até a porta. Quando girei a maçaneta, senti como se o mundo congelasse. Se fossem eles, quantos eu poderia m***r até que eles me mostrassem Bella? Eu teria que parar assim que a visse, mas até lá poderia distribuir disparos. Eles não a machucariam se eu parasse, ou não faria sentido eles a usarem de refém. Com quantos eu conseguira lidar se tudo saísse do controle? Como eu poderia afastá-los de Bella? Eu conseguiria dar um tiro preciso no que estivesse agarrando-a mesmo sabendo que se eu errasse eu poderia acertá-la?
Tudo passou pela minha mente entre o momento em que toquei a maçaneta e movi a porta. Quando a porta abriu, havia apenas um rosto atrás dela, e era um semblante familiar.
- Você... – Falei, incrédulo.
* * *
E cá estamos nós, refletindo sobre a morte.
Claro, no momento ela estava bem perto, então era um pouco mais que um simples devaneio. Os vampiros não me amarraram nem nada do tipo, mas isso era porque não precisavam. Havia alguns me vigiando, e cada um deles poderia arrancar minha cabeça com as mãos, não importa o quanto eu tentasse correr.
Eu não sabia quantos eles eram, pois tinha simplesmente sido arrastada para aquele estúdio por dois deles e jogada em um canto, mas só pelo que pude ver, eram muitos deles.
Se meu pai chegasse ali, tenho certeza que ele morreria. Comigo de refém, ele não reagiria, pois me ama demais para isso. Eu era um fardo, a faca que furaria o coração dele.
- Se quer saber, não é nada pessoal – Um dos apotamkins deu alguns passos até mim.
O olhei de cima a baixo, e como qualquer um deles, ele parecia completamente normal. Um jovem loiro, branco e bonito.
- Por que vocês querem matá-lo? – Questionei.
Ele riu com escárnio.
- Por que você acha? Eu sou um caçador, o maior dos caçadores, ou pelo menos era até seu pai nos descobrir e começar a nos caçar.
- Ele deu a vocês uma chance. Há um acordo...
- Um acordo?! – Ele berrou e socou a parede atrás de mim fazendo seu punho entrar até o pulso na madeira. – Um leão não aceita fazer acordos com gazelas! Aquele desgraçado massacrou vários dos nossos e depois exigiu que ficássemos quietos quanto a isso.
Eu me encolhi até ficar sentada no canto da parede.
- Vocês matam pessoas, não finja que é inocente – Arrisquei dizer, mas nunca me senti tão acuada quanto naquela hora.
- Você está certa, nós matamos pessoas. As coisas sempre foram e sempre serão assim. Ele é quem quer mudar isso. Imagine se uma dos touros de um fazendeiro começa a m***r os funcionários e exige que eles parem de comer as vacas. Ele oferece um acordo onde você pode comer os vegetais das plantações, mas não pode mais comer carne.
- Não somos gado.
- Se vacas falassem, também diriam que não querem ser devorados.
Desviei os olhos, mas ele agarrou meu rosto e me fez olhar em seus olhos.
- Uma vaca como você nunca entenderia isso – Disse ele.
- Não se esqueça de que ela também era uma vaca... – Comentei.
Ele levantou sobrancelha.
- Quem?
- A sua mãe.
Ele cerrou os dentes e bateu com tanta força no meu rosto que achei que todos os meus dentes fossem cair, mas quando meu cérebro parou de chacoalhar na minha cabeça, senti que valeu a pena.
Senti gosto de sangue na minha boca, e quando abri os olhos, percebi que quase apaguei por um segundo. O chão frio sob minha bochecha era gostoso, o frio que fazia naquele começo de noite era agradável, mas mesmo que eu falasse para mim mesma que estava tudo bem, eu sabia que não estava, e deixei uma ou duas lágrimas escorrerem.
- Vou ensinar seu lugar, vaquinha – Disse ele, levantando a mão para me bater novamente.
- Já chega, James. Vai acabar matando ela antes de ele chegar – Gritou outro apotamkin.
Ele se interrompeu, mas agarrou minha blusa e me puxou para ele. Eu ainda estava atordoada, mas estava acordada o bastante para entender o que aconteceu. Ele me beijou, mas talvez seja melhor descrever como ele lambendo o sangue na minha boca.
- Sua hora vai chegar – Caçoou, soltando minha blusa e me deixando cair.
- Seu babaca... – Falei, mas soei tão baixo que não sei se ele me entendeu.
- Sabia que seu pai matou a minha namorada? – Disse ele, e soou com tanta naturalidade que por um instante não pareceu que ele falou da morte de alguém com quem ele se importava.
- Ele devia ter matado você também – Falei, e consegui levar a mão até o rosto para tocar onde doía.
Ele soltou uma breve risada em um suspiro.
- O nome dela era Victoria. Ela era humana quando a conheci, mas era tão linda que resolvi transformá-la. Infelizmente seu papaizinho deu cabo dela há alguns anos. Ele tirou algo importante para mim, e agora vou tirar algo importante para ele.
O apotamkin, James, deu as costas e foi até os outros.
Massageei meu rosto e tentei me recompor. Ele era forte, muito forte. Não havia como eu escapar, e assim que meu pai chegasse, nós dois morreríamos. Chorei, pois era a única coisa que eu podia fazer.
Fiquei um tempo quieta olhando os arredores. Longe demais da porta e de qualquer janela. O salão era enorme, e o espaço entre onde eu estava e a saída era muito distante. Não havia moveis ou qualquer coisa que eu pudesse usar para me esconder ou improvisar como arma, apenas espelhos nas paredes. Era o lugar perfeito para eles montarem a armadilha.