Olhei no fundo dos olhos dele, tentando decifrar o que aquilo significava.
- Eu não sei do que está falando – Falei, mas não convenci a ninguém com isso.
- Não fuja da pergunta. Você estava com os Cullen?
Abaixei a cabeça, sentindo-me como se fosse uma garotinha sendo pega fazendo algo errado.
- Como sabe sobre eles? – Indaguei.
- Sente-se. Vamos ter uma longa conversa.
Nunca vi o Charlie tão sério na vida. Geralmente ele era passivo, sem jeito e tentava sempre me agradar. Nunca soou tão sério antes.
Eu me sentei perto dele e abri a boca algumas vezes, como se estivesse tomando coragem para dizer algo, mas nada saiu. Meu pai apoiou os cotovelos nos joelhos e ficou em silêncio por um instante para refletir antes de falar.
- Eu não vou permitir que se aproxime deles – Declarou.
- Mas por quê? O que tem de errado?
Sua mão golpeou a mesa com força, quase derrubando a espingarda, e o som fez com que eu me encolhesse de medo.
- Você sabe o que eles são! – Ele gritou. - Eu não quero saber de você perto de qualquer um daqueles malditos chupadores de sangue outra vez!
Meu corpo estremeceu.
- Pai, eu...
- Você o que, Isabella? Acha que eles são inofensivos? Acha que só por que eles não são as criaturas grotescas do cinema eles são menos perigosos?
Eu me encolhi mais ainda e me segurei para não chorar.
- Eu sinto muito.
Charlie respirou fundo para se acalmar e levou a mão até o rosto.
- Como diabos você foi se meter com eles?
- Eu... encontrei o Edward por acaso há um tempo...
- Quanto tempo?
- No dia em que quase fui atropelada.
- Há meses? Você conhece aquelas coisas há meses e nunca sequer pensou em me contar nada? Tem ideia do que poderia ter acontecido?
- Eu queria falar, mas...
- Mas nada! Os Cullen são aberrações, são monstros que vivem apenas para m***r!
- Não... Eles não machucam ninguém, poderiam ter me ferido várias vezes, mas nunca me fizeram nada.
- Outra pessoa foi morta nas redondezas. O sangue foi drenado do cadáver até a última gota. Quem você acha que fez isso?
Eu me senti a pessoa mais estúpida do planeta. Fiquei tão distraída com Edward que tinha apagado da mente a grande possibilidade de ele estar envolvido com aquelas mortes. Eu me senti burra, uma i****a.
- Eu sinto muito, pai... – Falei, e não consegui mais segurar as lágrimas.
Ele levou a mão até a boca e mordeu o dedo indicador.
- Eu odeio ser tão duro com você, mas não estou falando isso apenas como pai. Eu sou o responsável por manter as coisas em ordem, e não posso aceitar que isso está acontecendo no meu condado.
- Você... O quê?
Seu olhar despencou, e a fúria dele pareceu se tornar cansaço.
- Eu sou xerife há anos, acha que eu não sei das coisas que acontecem aqui?
- Você sabia de tudo desde o começo... – Murmurei. – Então o “eles” que os Cullen falaram era você. Eles...
- Eles não te mataram porque você é minha filha.
Ele afastou a espingarda, pegou uma garrafa térmica de cima da mesa, encheu duas xícaras e me ofereceu uma.
- Nos últimos dias você vem tomando bastante café – Comentou.
- Passei a gostar, eu acho...
Tomei um gole e o observei fazer o mesmo.
- Passei muitas noites em claro de tocaia tentando descobrir o que diabos estava matando alguns animais nas redondezas. A isca era uma c***a, e eu montei vigia em uma árvore, tão imóvel quanto uma pedra e com uma roupa camuflada de folhagem. Eu era bem jovem na época, tinha bastante energia e disposição, então fiquei de tocaia toda noite por mais de uma semana.
Ele balançou a xícara enquanto observava o líquido dentro dela girar.
- Eu detestava café, mas esta porcaria era minha única companhia na solidão da noite – Continuou. – Ajudava a me manter acordado, então era o único movimento que eu me permitia fazer, balançar a xícara um pouco antes de levá-la até a boca. Eu ouvia todos zombarem de mim, dizendo que o que eu estava fazendo era ridículo, mas, no fim, o tempo que investi deu frutos. Vi o que parecia ser uma pessoa se aproximando da c***a, e por um momento achei que ele quisesse roubá-la, mas antes que eu pudesse chamar a atenção do intruso, eu o vi cravando suas presas no pescoço do animal.
- Era um deles...
- Sim, era um deles. Por um momento fiquei sem entender, achando que era só um retardado beijando o pescoço de uma c***a antes de tentar currá-la, mas quando liguei os holofotes que instalei, vi que ele estava se banhando com o sangue dela. Não pensei duas vezes e atirei, e podia jurar por Deus que acertei direto no peito, mas ele simplesmente saiu correndo mais rápido que um ser humano normal correria.
- Armas normais não funcionam em vampiros... – Comentei. – Quando conheci Edward, ele disse que precisava me m***r porque ninguém poderia saber da existência deles. Por que não foram atrás de você?
Ele me olhou com firmeza, levantou um pouco a camisa e revelou uma cicatriz gigante que ia do flanco esquerdo até quase o umbigo.
- Eles vieram.
Arregalei os olhos.
- Deus... Então os Cullen...
- Não, não foram eles. Foi um outro clã.
- Se você sobreviveu... O que aconteceu com esse clã?
Ele terminou de tomar o café em um gole, deixou a xícara sobre a mesa, pegou a espingarda e continuou limpando-a com um pano.
- Como eu disse, eles vieram atrás de mim.
- Você os matou? Mas como isso é possível?
- Eles subestimam os humanos por serem mais fortes que nós. Mandaram apenas um deles para me silenciar na minha própria casa, e quando ele me atacou, me deu uma surra que nunca vou esquecer.
Charlie levantou a perna da calça e mostrou uma cicatriz na coxa direita e puxou a manga direita da caminha e mostrou outra cicatriz no ombro.
- Eu tentei resistir, mas o desgraçado era muito forte. No fim, ele me atirou sobre uma mesa de madeira, mas quando tentou subir sobre mim para me m***r, consegui agarrar uma lasca de madeira da mesa quebrada e a enfiar no peito dele.
- Uma estaca de madeira no peito?
- Ele tombou na hora. Liguei para a delegacia e contei o que aconteceu, mas é claro que eles não acreditaram em nada além de que fui atacado. Foi só no dia seguinte que levaram o corpo e descobriram a verdade. Mesmo depois de morto, o maldito ainda não podia sair à luz do sol.
- Vocês viram a face verdadeira dele... Quem mais sabe?
- Alguns policiais mais velhos da delegacia, os peritos que vieram para levar o corpo naquele dia e alguns poucos civis para quem tivemos que revelar.
- Como você sobreviveu? Digo... Eles não mandaram outros atrás de você?
- É claro que mandaram, mas a notícia de que fui atacado na minha própria casa chegou até os Black, e Billy veio falar comigo. Foi assim que o conheci.
- Os Quileutes, os inimigos dos vampiros. Então eles protegeram você.
- Me proteger? – Ele riu com desdém. – Quando Billy percebeu que eu sabia que aquele cara não era humano, ele me falou dos apotamkis e disse que eu deveria me m***r para manter a paz.
Minha mente foi consumida por dúvida. Billy não era o melhor amigo do meu pai?
- Isso não está fazendo sentido para mim – Pousei a xícara de café sobre a mesa sem terminar de beber.
- Os Quileutes e os apotamkins têm um acordo de não-agressão. Ambos protegem a identidade uns dos outros para preservar a própria segurança. O fato de eu poder revelar os apotamkins para todos era um risco, pois os apotamkins poderiam revelar a identidade dos Quileutes também. A única coisa que Billy me disse foi o nome “apotamkin”, e o resto eu descobri sozinho. Como vi que o sol revelava aquelas coisas, imaginei que eles viriam à noite. Um pedaço de madeira no peito matou um deles, mesmo que um tiro não o fizesse. Não demorou muito para eu descobrir do que se tratava. Felizmente eu assisti muitos clássicos de terror antigamente e conhecia bem as lendas sobre vampiros.
- E então?
- A família toda veio duas noites depois, e eu matei a todos.
Levantei da cadeira em um misto de surpresa e incredulidade.
- Impossível – Falei.
- Está com seu spray de pimenta?
O peguei na bolsa e entreguei para ele. Charlie o sacudiu e usou no ar. O cheiro não era de pimenta, como eu havia imaginado.
- Spray de alho – Disse ele. – Causa alergia, coceira, bolhas e atordoa um apotamkin.
- Então você estava desde o começo desconfiando que eu estava me encontrando com o Edward.
- Eu sempre estive protegendo você, Bella. Quando matei o clã que me atacou, outros apotamkins se sentiram ameaçados. Alguns se mudaram de Forks, mas outros, como os Cullen, vieram até mim e disseram que tudo o que queriam era viver em paz. Como prova de confiança, eles me contaram quantos clãs havia e quantos membros cada clã possuía. Era do interesse deles que eu conseguisse amedrontar os clãs, pois isso evitava que eles ganhassem atenção e fossem descobertos. Então me disseram quais clãs eram “vegetarianos” e quais caíam na tentação de caçar pessoas. Após fazer os desgraçados assassinos de exemplo, os pacíficos quiseram me incluir no acordo de não agressão. Nenhum apotamkin machucaria um humano, desde que não fosse uma causa justificada, e, por outro lado, eu não iria mais atrás deles, assim como nenhum outro humano.
- Por isso você sempre estava ocupado com o trabalho... Você estava sempre mantendo a ordem...
- Não só isso. Os Quileutes me falaram sobre algumas formas de lidar com os apotamkins, já que eu estava me tornando um aliado involuntário ao diminuir os números de vampiros. Quando você nasceu, levei você até eles e fizemos um rito de p******o contra os apotamkins, para que eles nunca tivessem influência contra você.
- Um rito? Tipo, um ritual?
- Mais ou menos isso.
Sua voz falhou por um segundo, e nem tive coragem de perguntar o que foi preciso fazer para esse ritual ser feito.
- Quantos clãs ainda estão em Forks? – Indaguei.
- Há alguns no condado, mas eles vêm e vão como pássaros migratórios. Geralmente, se eles matam pessoas onde viviam, logo se mudam para não serem encontrados. O condado é quase como um refúgio para esses fugitivos, já que é um local isolado e supostamente sem conflitos por causa dos Quileutes, que não podem caçá-los e irão proteger suas identidades a todo custo. Os clãs evitam m***r em Forks, ou então podem perder seu refúgio.
- E o que são os Quileutes?
Ele abriu a boca, mas hesitou antes de falar.
- Descendentes de lobos que podem assumir a forma de seus ancestrais sob a benção do espírito da lua cheia.
- Lobisomens.
- Basicamente isso.
- Então o Jacob é um lobisomem?
- Ainda não. Eles atingem a maturidade aos 18 anos e se tornam um com seu espírito.
- Então ele só vai se transformar na primeira lua cheia depois de fazer 18.
Ele assentiu com a cabeça.
- Meu Deus... É muita informação de uma só vez para digerir.
- Então é a sua vez de me dar informações – Disse ele, e assumiu novamente seu tom autoritário. – O que eles queriam com você?
- Como sabe que eu estava com eles?
- Quando você começou a falar comigo sobre os assassinatos, comecei a desconfiar. Jacob está chegando à maturidade dos Quileutes, e está começando a desenvolver um bom olfato. Ele sentiu o cheiro daqueles mortos-vivos em você há uns dias e me contou. Investiguei suas amizades na universidade e descobrir que você quase não tem nenhuma, e a única amiga que está aqui é a Jessica, para quem liguei e descobrir que não estava com você.
- Está me investigando?
- Você me deu motivos para isso.
Sequei as lágrimas com as costas da mão.
- E você acha que Edward se aproximou de mim para um dia poder me usar contra você.
- Exatamente.
Meu coração então se despedaçou. Edward parecia uma pessoa boa, alguém legal, e todo o tempo que passamos juntos foi especial para mim, mas no fim tudo não passou de uma mentira. Olhei para meu pai e senti as lágrimas descendo de novo. Ele desfez sua carranca e me deu um olhar de lamentação antes de me abraçar.
- Eu lamento, querida... – Disse ele.
Mas sei que ele não lamentava mais que eu.
* * *
Fiquei algumas horas na cama apenas olhando para o teto e refletindo. Eu queria voltar para casa, queria sumir de Forks e nunca mais voltar. Meu pai era um Van Hellsinig do mundo moderno, o cara de quem eu gostava era um vampiro sanguinário, o palerma que era apaixonado por mim desde que consigo me lembrar era um lobisomem. Senti que tudo na minha vida era uma mentira.
Por um momento fiquei com vontade de rir ao lembrar que meu pai sempre apoiou que eu saísse com Jacob por ele ser um rapaz legal, mesmo sendo um lobisomem, já que ele era tão pateta que não parecia nem ser uma ameaça, mas no momento seguinte meu rosto se fechou de novo com a possibilidade de ele querer que eu ficasse perto daquele palerma para que eu tivesse um guarda-costas lobisomem para me proteger.
Fiquei refletindo sobre Edward, sobre o fato de ele ter me hipnotizado para tentar me usar, o fato de que tudo o que ele me fez sentir fora uma mentira, mas então veio o entendimento. Charlie disse que fez um ritual para que eu fosse imune à influência dos apotamkins.
Se fosse assim, tudo o que eu sentia por ele era verdade, não era? O fato de eu gostar tanto de conversar com ele era porque eu realmente gostava dele, não era? Eu estava... gostando dele de verdade, não era?
- Bella – Ouvi uma voz no centro do quarto.
Quase gritei de susto, mas de certa forma eu já estava me acostumando com aquilo.
- Edward, da próxima vez que fizer isso, eu vou fazer uma torta de alho e esfregar na sua cara! Eu já falei que não quero saber de você invadindo meu quarto no meio da noite!
- Precisamos conversar.
- Nós não temos nada para conversar. Você mentiu para mim.
- Eu não menti...
- Tudo bem, você escondeu a verdade de mim.
- Assim como seu pai fez.
- Ele fez isso para me proteger.
- E acha que eu escondi para te prejudicar?
Suspirei, tentando me acalmar.
- O que você ainda quer de mim? – Indaguei. – Eu já sei de tudo, sei que sua família só não me matou porque tem medo do meu pai. Eu não estou viva porque gostaram de mim ou porque somos amiguinhos, eu só estou viva porque vocês não podem encostar em mim.
- Não vou negar isso, Bella, mas quero que escute o meu lado também.
A porta do quarto abriu com força, e antes que Edward pudesse se virar, meu pai entrou no quarto e atirou na sua perna. Seu joelho dobrou e foi de encontro ao chão, e um segundo depois meu pai bateu com a parte de trás da espingarda no rosto dele. Edward caiu e começou a se contorcer e gemer de dor enquanto um tipo de fumaça saía de seu rosto.
- Vampiro desgraçado. Eu avisei para ficar longe da minha filha! – Meu pai gritou.
Vi de relance a cabo de sua arma e reparei que havia um baixo-relevo em formato de cruz. Provavelmente aquilo fez o rosto de Edward queimar. Fraqueza de vampiro número 1: sol. Fraqueza número 2: alho. Fraqueza número 3: cruzes.
E então meu pai apontou o cano da arma para a cara dele.
- Pai, não! – Gritei, mas não sei por que quis protegê-lo.
- Não vou deixar que esta praga entrar na minha casa, ameaçar a minha filha e sair andando pela porta – Rosnou.
- Não pode fazer isso...
- Me dê um bom motivo para não estourar a cara dele neste momento.
- Eu o amo.
Minhas palavras me surpreenderam. Eu não sei por que disse aquilo, até então nunca tinha me questionado se gostava tanto assim dele, mas a surpresa maior foi a do meu pai. Seu queixo caiu, seus olhos se arregalaram e ele ficou desarmado. Bom, figurativamente desarmado, já que ele em momento algum soltou a espingarda.
- Sr. Swan... – Disse Edward. - Eu não ia machucá-la, eu só...
Meu pai o olhou em fúria.
- Cale a boca, chupa-sangue desgraçado!
E acertou seu rosto novamente com o cabo da espingarda.