Nunca cometi nenhum crime grave, mas a sensação de que isso estava acontecendo era forte. Meu pai e eu estávamos de carro indo para Deus-sabe-onde com Edward acorrentado no porta-malas da viatura. Eu me senti como uma cúmplice de um policial corrupto desovando um corpo.
- Pai... – Chamei.
Vi seus dedos apertarem o volante, mas ele não respondeu.
- O que vai fazer com ele? – Insisti.
- Dar uma carona.
- Você não vai... matá-lo, certo?
Ele girou o volante bruscamente, virando uma curva fechada tão rápido que os pneus do carro deslizaram. Resolvi ficar calada, pois ele já estava irritado demais.
Saímos do asfalto e entramos em uma trilha de terra entre as árvores. Senti meu coração acelerar quando reconheci aquela parte da mata. Estávamos indo para a casa de Edward. Após a palpitação, senti que meu coração ia parar, pois estávamos indo para uma toca de vampiros no meio da noite com um refém no porta-malas.
Mais alguns minutos dirigindo e pude ver a casa marrom e preta. Meu pai deixou os faróis ligados em direção à porta, saiu do carro e pegou a arma.
- Fique no carro – Meu pai ordenou.
Quis protestar, mas ele engatilhou e me olhou f**o. Foi o bastante para que eu achasse melhor não discutir. Meio minuto depois, Jasper abriu a porta da frente. Atrás dele vieram Rosalie e Emmett.
- Sr. Swan? – Disse Jasper, e vi certo desconforto em seus olhos.
- O que quer aqui? – Rosnou Rosalie.
- Vim devolver uma coisa – Vociferou, depois foi até o porta-malas e puxou Edward para fora. – Vocês esqueceram isto lá em casa.
- Ed... – Soou Emmett.
- Só vou dizer isto uma vez – Meu pai gritou. – Seria muito menos trabalhoso trazer apenas a cabeça dele em uma estaca, e a única razão para eu não fazer isso é porque Bella veio aqui e vocês a deixaram voltar intacta.
Não foi uma retribuição justa. Edward não estava intacto.
- Seu desgraçado! – Rosalie berrou.
Ela avançou, e m*l tive tempo de sentir medo. Ela correu tão rápido que meus olhos não acompanharam direito.
Meu pai, por outro lado, manteve-se firme, e antes que eu pudesse me sentir órfã, ele enfiou a mão no bolso e jogou algum ** no ar. Rosalie parou e começou a grunhir e esfregar os olhos. Seu rosto parecia arder, e um segundo depois meu pai deu com a coronha da arma na testa dela.
- Rosalie! – Emmett gritou.
Ele fez menção de atacar, e Jasper o segurou. Nesse meio tempo, meu pai colocou algo na boca e começou a mastigar.
- Não faça isso – Disse Jasper.
Emmett ignorou o aviso e avançou. Ele agarrou meu pai pela camisa e o jogou contra o capô do carro, derrubando a arma. Levantou o punho para bater nele, mas meu pai cuspiu algo no rosto dele. Emmett saiu de cima dele e começou a se contorcer. Rosalie se recompôs e tentou pegar a espingarda, mas pareceu levar um choque e apenas a chutou para longe.
Charlie levantou, tirou dois socos-ingleses do bolso e os calçou.
- Não preciso de armas – Falou, e soou como uma ameaça.
Rosalie foi até Emmett, e Jasper praguejou e se juntou a eles. Os três avançaram, um de cada lado e Rosalie indo frente a frente, mas a garota caiu com o primeiro soco e um chiado estranho soou de seu rosto.
Emmet acertou um soco no meu pai, derrubando-o. Seu rosto ficou banhado em sangue, mas ele pareceu mais alerta que nunca, e chutou o joelho de Emmett. De relance vi a sola do sapato do meu pai refletindo a luz do farol, e quando a pernas de Emmet emitiu um chiado como se estivesse queimando, imaginei que nas solas de Charlie havia uma cruz. Jasper, ao ver os dois outros vampiros no chão, hesitou, e quando tomou coragem para atacar, meu pai já estava de pé.
Jaspert deu alguns socos no ar, pois meu pai desviou de todos. Aparentemente ele estava lento por estar nervoso, já que os outros caíram tão facilmente. Não foi difícil para Charlie acertar o primeiro soco, e quando Jasper cambaleou, meu pai o agarrou pela camisa e começou a bater no rosto dele várias e várias vezes, e quando o soltou, a cara de Jasper parecia uma melancia que caiu do quinto andar de um prédio.
Charlie tirou um pano do bolso e começou a limpar o sangue do rosto, e fiquei me perguntando quantas coisas cabiam naqueles bolsos.
Emmett tentou agarrá-lo por trás de surpresa, já com as presas saltadas e pronto para mordê-lo, mas Charlie percebeu e saltou para o lado para desviar. Rosalie avançou e o chutou no peito. Ambos foram para cima, e por um minuto pensei que meu pai iria morrer.
Inocência da minha parte, ele tinha tudo sob controle. Charlie jogou o pano para o lado, e os vampiros instintivamente olhavam a mancha carmesim e fizeram menção de ir até o tecido. Esse tempo bastou para meu pai tirar mais coisas do bolso.
Ele se levantou, deu uma cuspida de sangue no chão, levou algo até a boca, começou a murmurar algo em latim e encarou os vampiros. Os dois se lembraram de parar de olhar para o pano e se voltaram para ele. Quando avançaram, meu pai pulou, deixando que Emmett o derrubasse, mas também o agarrou, prendendo sua cabeça debaixo do braço e laçando sua cintura com suas pernas.
Emmett tentou se desvencilhar, mas aprendi assistindo lutas na TV que não importa o quão forte você seja, se alguém o agarrar do jeito certo, você não vai conseguir se soltar, principalmente se você for um vampiro e a pessoa estivesse empurrando um soco-inglês anti-vampiro contra sua nuca.
Rosalie saltou sobre meu pai para tentar mordê-lo, mas, contra todas as expectativas, meu pai soltou Emmett, puxou Rosalie sobre si e aproveitou sua boca aberta para beijá-la. Aquilo pegou tanto a mim de surpresa quanto a própria Rosalie, e um segundo depois a garota se levantou e tossiu. Ela gritou, berrou, e saiu fumaça de sua boca. Charlie deu alguns socos nos flancos de Emmett, fazendo suas costelas arderem em fumaça, e depois o empurrou para o lado deixou agonizar.
Ele se levantou, viu Jasper desacordado e Emmett e Rosalie em dores no chão, depois foi até sua arma. Pegou a espingarda, conferiu se não estava danificada e foi até Emmett. Charlie o chutou, pisou no peito dele, fazendo soar um chiado quando o sapato o tocou, e então tocou o cano da arma em sua testa, o que também fez a pele do vampiro queimar.
- Chary – Ouvi a voz estranhamente calma vindo da porta da casa. – Gostaria de pedir para parar de bater nos meus filhos.
- Boa noite, Carle – Meu pai respondeu, e soou estranhamento respeitoso.
Ele levantou a arma e a apoiou sobre o ombro, depois tirou o pé do peito de Emmett. Alice correu de dentro da casa e foi até Jasper, que ainda estava desacordado. Carlisle foi até Rosalie, tirou um frasco do bolso e derramou o líquido na boca da garota. Um instante depois ela tossiu e voltou a respirar.
- Você sempre foi bem criativo com o alho, Chary – Comentou Carlisle.
- E você sempre foi bom em ficar quieto, Carle. Pelo menos até agora.
Ambos encararam um ao outro por um tempo, até que Esme passou pela porta da casa e ficou ao lado de Carlisle.
- Temos algumas sobras do jantar que fizemos para Bella, Chary – Disse ela. – Íamos jogar fora, mas se estiver com fome, por favor, entre e sirva-se.
- Não quero abusar da hospitalidade, Es – Charlie retrucou, e foi áspero como uma lixa. – Além disso, não tenho tempo. Vim só dar uma carona para o filho de vocês.
Carlisle foi até Edward.
- Será que pode soltá-lo agora? – Questionou.
Não tive como ver Charlie tirando tantas coisas do bolso sem me lembrar da bolsa sem fundo da Hermione. Ele pegou a chave do bolso e jogou para Carlisle, que destrancou o cadeado que prendia as correntes de Edward.
- Me desculpe – Disse Edward, e seu olhar era de derrota.
- Conversamos sobre isso depois.
Olhei para Carlisle, que foi até meu pai, e se eu ainda tivesse unhas para roer, roeria.
- Fique longe da minha filha, Carle – Disse Charlie. – Deixei minhas ferramentas em casa em respeito aos anos que você manteve a palavra, mas vou deixar minha gentileza de lado se qualquer um de vocês se aproximar da minha filha de novo.
- Não tínhamos intenção de machucá-la.
- Sabia que era a minha filha, e mesmo assim deixou que ele se aproximasse.
- Ela veio até ele.
- Por erro dele.
- Ela estava sangrando quando ele estava caçando, é óbvio que ele foi atraído pelo cheiro.
- E imagino que se fosse qualquer outra pessoa, ele a teria matado, mas ele sabia que era minha filha, e então a deixou ir. A dúvida que não sai da minha cabeça é por que vocês não se afastaram e me informaram?
Carlisle rangeu os dentes e abaixou a cabeça. Esfreguei os olhos, sem acreditar. Ele estava com medo do meu pai.
Charlie deu um passo à frente e soprou no rosto dele. Carlisle fechou os olhos e deu uma tossida.
- Desculpe, não gosta do meu hálito? Comi bastante alho antes de vir – Ele comentou, e soou como uma ameaça.
- Chary, sabe que não foi nossa intenção... – Disse Esme, mas sem ter coragem de se aproximar.
- Então não foi a intenção deles me atacar assim que cheguei? – Meu pai apontou para os três vampiros nos quais deu uma surra.
Alice ainda cuidava de Jasper, cuja consciência havia voltado, mas o formato do rosto ainda não. Rosalie ajudou Emmett a se levantar, mas ainda tossia.
- Você veio armado até minha casa com alguém da minha família acorrentado no porta-malas – Disse Carlisle, como se tentasse justificar aquilo tudo. – Não pode culpar meus filhos por se sentirem ameaçados.
- Mas posso culpar seu filho por invadir o quarto da minha filha.
E soou como um golpe, um que Carlisle não teve como rebater.
Edward se levantou, mas parecia fraco. Esme passou por Charlie e Carlisle e foi até ele.
- Você está bem?
Mas Edward balançou a cabeça em negação.
- A culpa é minha – Disse ele. – Sr. Swan, eu...
Meu pai se virou para ele e apontou a espingarda.
- Mais uma palavra e o próximo tiro não vai ser mais de aviso. Só uma coisa me impediu de estourar sua cabeça hoje, mas vou reconsiderar se você não calar a p***a da boca.
Uma coisa o impediu. Eu o impedi.
Era a pior hora possível, mas eu decidi intervir. Saí do carro e fui até ele, colocando-me entre a arma e Edward.
- Pai, por favor, já chega – Falei.
Ele não desviou a arma para que eu não ficasse na mira, mas não relaxou.
- Não interfira, Bella.
- Vou interferir.
Ele rangeu os dentes e abaixou a arma.
- Carle, lembre-se do meu aviso – Disse ele.
- É uma mensagem que não tenho como esquecer – Soou Carlisle.
Meu pai deu as costas a ele e veio até mim.
- Vamos conversar em casa.
- Não – Falei. – Quero resolver tudo aqui.
- Não há o que resolver. Você vai voltar para a casa da sua mãe.
Meus olhos tremeram, e por um relance de segundo vi Edward reagindo como se fosse protestar, mas no fim ele não disse nada. m***a de vampiro covarde!
- Eu não vou voltar – Anunciei. - Não tem ninguém lá.
- Antes sozinha que na companhia de sanguessugas.
- Eu quero ficar.
- Você não tem querer aqui! – Ele gritou.
Eu me encolhi e me senti tão ameaçada quanto se ele estivesse apontando a arma para mim, talvez até mais. Vi seu peito subir inflar e murchar quando ele respirou fundo.
- Estou te mandando embora para o seu próprio bem – Decretou.
- Eu não vou embora, pai. Vou ficar.
- É por causa dele? – Apontou para Edward, que estava se apoiando em Esme atrás de mim.
Foi a minha vez de respirar fundo.
- Eu o amo, pai.
- Não sabe o que está dizendo.
- Você disse que quando eu era pequena você fez algo para que eles não tivessem influência sobre mim. Isso quer dizer que eles não pode me hipnotizar, certo?
- Está certo – Ele concordou a contragosto.
- Então eu sinto algo de verdade por ele.
Ele me encarou, olhou sobre meu ombro, para Edward.
- Isso não muda nada.
- Muda para mim.
Ele apertou a arma entre seus dedos e se esforçou para se conter.
- Parece que o grande caçador tem um fraco pela filha... – Disse Rosalie, provocando, mas sua voz quase não saiu.
Charlie ia apontar a espingarda para ela, mas por mais que eu adoraria imaginar como Rosalie ficaria com alguns buracos de bala no peito, segurei o braço dele para fazê-lo parar.
- Já chega, Charlie – Falei, e senti que o acertei bem forte quando não o chamei de pai.
- Você sabe o que eles são, sabe o que fazem e sabe o que comem. Ainda assim está bem com isso?
Assenti, e quando o vi dar um suspiro de frustração, eu o abracei. Ele me acolheu nos braços e olhou de canto de olho para Carlisle.
- Volto para conversarmos mais civilizadamente depois.
- Avise por ligação para que possamos preparar algo para comerem.
Meu pai se virou para Edward.
- Quero conversar com você também – Decretou. – Não me esqueci do que aconteceu com a Katherine.
Edward abaixou a cabeça e assentiu, derrotado.
- Eu entendo.
Charlie me guiou até o carro, esperou que eu entrasse e entrou também. Ele deu a ré e manobrou, e pouco depois estávamos indo embora. Sei que havia muita coisa na qual eu poderia estar pensando no momento, mas uma dúvida não saía da minha mente.
Quem era Katherine?