As lágrimas de um vampiro

1938 Words
Vi algumas gotas de sangue no chão e senti o cheiro forte invadindo minhas narinas. Eu me aproximei, tentando me estabelecer geograficamente, mas no fim só andei na direção em que o cheiro me guiava, e ao chegar lá, vi um garota ensanguentado caído no chão. Parecia ainda estar viva, pois seu peito subia e descia conforme ele respirava. Eu me agachei ao lado dela para se estava bem, mas quando senti o cheiro de sangue sobre ela mais de perto, minha mente viajou para longe, e os instintos tomaram conta de mim. Cravei meus dentes em seu pescoço sem pensar duas vezes, e quando senti o sabor doce de sangue tocando minha língua e descendo pela minha garganta, eu me senti tão bem que por um momento ignorei que estava consumindo a vida de uma pessoa. Bebi até satisfazer minha sede, e quando parei, o rosto dela estava pálido e sem vida. Levantei assustada, surpresa, e olhei para minhas próprias mãos com desdém. Eu tinha me transformado em um monstro. Eu não era mais eu. Eu era outra coisa, e a verdadeira Bella estava morta aos meus pés. Acordei quase em um salto, mas pelo menos pude segurar a voz para não gritar. Olhei para o relógio que marcava 4h27min da manhã e voltei a me deitar. Não consegui mais dormir, então fiquei olhando para o teto enquanto refletia a m***a que tinha sido a última noite de sonho que tive na vida. Nunca mais dormir, hein? Há quem ache essa ideia uma maravilha, mas na realidade é uma m***a. Nunca dormir significa nunca descansar e nunca desligar um pouco o cérebro para esquecer um pouco os problemas. Esperei até às 5h em ponto e me levantei. Fiz o café-da-manhã o melhor que pude, mas eu de verdade não sabia fazer muita coisa. Bolo de frutas. Meu pai se levantou não muito depois de eu terminar, e se por um lado fiquei um pouco incomodada por ele não ter acordado antes de mim para passar mais tempo comigo no nosso último dia juntos, por outro lado entendi que ele precisava descansar bastante para se recuperar de seus ferimentos. - Bom dia, querida – Disse ele, assim que chegou na cozinha, e parecia com dor nas costas. - Bom dia, pai. Dormiu de mau jeito? Ele sorriu um pouco torto. - Que bom que não perdeu seu senso de humor – Brincou. - Bom, é meu último dia aqui, então quero deixar de lado a ideia de que minha vida chega ao fim hoje. Seu olhar ficou pesaroso e seus olhos se fecharam por um segundo. - Sinto muito... Foi tudo culpa minha. Eu ofereci um sorriso simpático. - Não é – Consolei-o. – Você fez de tudo para me salvar, e apesar de tudo, eu não poderia ter me sentido mais amada. Ele virou o rosto para segurar o choro, e então deu um passo à frente para me abraçar. - Eu amo você, Bella. - Eu amo você, e fico feliz que você seja meu pai, e não o motoqueiro b****a que comeu minha mãe no banheiro de um bar. Ele sorriu, mas teve mais sentimentos ali que orgulho por causa do meu comentário. - Estava cozinhando? – Questionou. - Sim. - Bolo de frutas? - Nada melhor para minha última refeição. - Devia ter me acordado, eu ajudaria você. - Quem sabe na próxima vez. Seu olhar ficou pesaroso novamente. Não haveria uma próxima vez. Nós nos sentamos e comemos, e como foi bom estar com ele no meu último dia. Foi simples, o bolo estava h******l, o café estava forte demais, mas foi a melhor refeição da minha vida. Colocamos o papo em dia falando dos filmes antigos que gostávamos e fizemos uma pequena maratona dos nossos favoritos. Foi divertido, gerou algumas piadas e discussões se tal filme passava ou não na regra dos 15 anos, se algo que não víamos há muito tempo era tão bom quanto nos lembrávamos e tudo mais. Assistimos tudo na velocidade 2x mais rápido, assim um filme de 90 minutos ficava com 45minutos, e dessa conta se podia tirar uns 5 minutos dos créditos finais. Era uma ótima estratégia para ver coisas mais rapidamente, apesar de que se pedia o timing de boa parte da obra, mas, ei, pense pelo lado bom, é possível ver um filme muito r**m de 2h em menos da metade do tempo. Teve um filme em especial que se encaixou perfeitamente nisso, e foi assistindo assim que percebi que ele era desnecessariamente longo, poderia facilmente ter 30 minutos e que ainda assim dava sono. Pensei até em refazer essa história de uns 15 capítulos para provar que qualquer um faria melhor, mas desencanei da ideia. Que tipo de i****a perderia tempo reescrevendo uma história dessas? Eu definitivamente não. Enfim, já era meio da tarde quando vimos o último filme, e até que me diverti bastante babando ovo para meus favoritos e hateando os filmes que eu detestava. Foi muito bom sentir essas emoções dessa forma uma última vez. Ouvimos o som da buzina de um carro do lado de fora, e quando olhamos, vimos Billy e Jacob, e meu pai foi recebe-los e os guiou até dentro de casa. - Bom dia, Bella – Disse Billy. - Oi, Billy – Acenei sem muito humor. - Querida, temos algumas coisas para resolver. Voltamos logo – Disse Charlie. Dei de ombros e fui com Jacob para a sala. Sou obrigada a confessar, ele mudou bastante desde que ficou “adulto” e se transformou pela primeira vez. Cortou o cabelo, parecia mais seguro de si e deixou de estar sempre desconfortável na minha presença. - Como você está? – Ele questionou. Olhei para minhas mãos, mexi os dedos e suspirei. - Não posso dizer que estou tranquila, mas poderia estar bem pior. - Lamento muito... Tentei chegar o mais rápido possível, mas meu pai se recusava a dizer onde você estava. Tive que farejar e... - Jacob, está tudo bem, não foi sua culpa. Ele balançou a cabeça. - Não consigo não me culpar. - Se te faz sentir melhor, fiquei feliz por você ter ido lá por mim. - Eu sempre vou estar lá por você, Bella. Ele sorriu, e, por Deus, foi um lindo sorriso. Aquele rapaz com cara de pateta tinha morrido e dado lugar a um cara muito charmoso. Fiquei um pouco constrangida, e acho que eu que fiquei com cara de pateta naquela hora, mas no fim o abracei e lhe dei um beijo na bochecha. - Obrigada, Jacob. Conversamos um pouco mais até que começou a escurecer. Ele se despediu com um sorriso desajeitado só para que eu não me esquecesse que ele ainda era o mesmo pateta apaixonada de sempre, mas de forma alguma achei aquilo r**m. Charlie e eu entramos no carro e dirigimos por um caminho que parecia mais longo toda vez que percorríamos. No fim da estrada, nós nos vimos naquela mesma casa de antes, a pequena grande mansão dos Cullen. Toda a família estava lá para me receber, e na hora eu soube que minha antiga vida tinha acabado. Eu jamais comeria bolo de frutas de novo, jamais iria ao café da Cora de novo, jamais iria para a universidade de novo, jamais veria princesinha, loirinha, asiático e trancinhas de novo e jamais teria uma vida normal de novo. - Está pronta? – Charlie perguntou. - Não, vamos voltar para casa e esquecer tudo isso – Falei sem dar muita bola para sua perspicaz pergunta. Ele riu e saiu do carro. Suspirei e saí também, e então andamos até os Cullen. A primeira a me cumprimentar foi Alice, que me abraçando como se estivesse morrendo de saudade de mim. - Eu tenho certeza que seremos boas amigas – Disse ela. - Bom, eu espero que sim. Olhei para Rosalie e nos encaramos por um instante antes de ela dar as costas e entrar em casa. Emmet sorriu um pouco sem jeito, como se estivesse se desculpando, e então entrou atrás dela. - Seja bem-vinda – Disse Jasper, segurando a mão de Alice. - Obrigada – Tentei sorrir, mas não sei se pareci muito sincera. - Espero que não tenha ressentimentos, Chary – Disse Carlisle. - Sentimos muito por não termos ajudado Bella quando ela precisava – Completou Esme. Olhei para meu pai e dei uma cutucava em seu braço com o cotovelo. Vi seus dentes rangendo por um instante para forçar um sorriso e seu rosto se contorcendo para suavizar sua expressão. - Eu entendo. Sei que não podiam fazer nada. Agradeço a Edward pela ajuda. Soou tão robótico que quis rir. - Bella – Disse Edward, aproximando-se. Quis abraçá-lo com todas as forças, mas tive o respeito de não fazer isso na frente do meu pai. Ele já estava muito m*l pelo que aconteceu. Para me salvar, Edward acabou me mordendo, e a transformação estava sendo lenta o bastante para Charlie resolver as coisas. Quando Edward me ajudou, não só foi contra a própria família como infligiu o acordo e se intrometeu em assuntos pessoais dos humanos e se expôs publicamente. Quando a polícia chegou ao estúdio onde tudo aconteceu, meu pai teve de enrolar muito bem a todos para encobrir tudo. Como a família de Edward ficaria marcada como simpatizantes demais com os humanos, meu pai prometeu p******o a eles dos outros clãs de apotamkins e dos quileutes em troca dos Cullen cuidarem de mim. Era um árduo trabalho para um apotamkin se tornar um vegetariano, algo que meu pai não poderia fazer por mim, então minha única opção era ficar com os Cullen para aprender com eles. Para todos os efeitos, Isabella Swan foi sequestrada e assassinada naquela noite, e agora eu me chamava Isabella Cullen. - Prometo que cuidaremos bem dela, Sr. Swan – Disse Edward, e percebi que meu pai quis puxar uma arma e descarregar na cara dele. - Sei que vai, ou então eu irei m***r você – Charlie retrucou. Edward sorriu e estendeu a mão para ele, e mesmo a contragosto, meu pai a apertou. - Bella – Meu pai se virou para mim. – Eu prometo vir sempre para te visitar. - Cuidado para não m***r a todos quando fizer isso. - Não prometo nada. Eu ri, ele riu, e nos abraçamos, mas assim que tivemos contato, senti algo queimando meu peito. - Deus, desculpe - Disse ele, tirando um cordão com um rosário do pescoço. Doeu, mas teria doído mais se eu já estivesse completamente transformada. Felizmente, ainda restavam algumas horas até lá. - Tudo bem – Falei, abraçando-o novamente. Senti seu corpo quente envolta de mim. Talvez fosse a última vez que eu sentiria calor humano, mas fiquei feliz por ser o do meu pai. Trocamos mais algumas palavras e nos despedimos. Não foi triste, na verdade, pois eu continuaria a vê-lo, mas aquilo me marcava de uma forma que eu não conseguia explicar. Quando ele entrou no carro e partiu, todos entraram em casa, e apenas eu e Edward ficamos olhando-o ir. Senti algo no meu rosto, uma humidade, uma gota de água salgada. Vampiros não tinham fluídos corporais, então também não tinham lágrimas. Aquilo era um sinal de que eu ainda era humano, e talvez fosse minha última lágrima. Edward me abraçou, secou minha preciosa lágrima com a mão e me ofereceu o sorriso mais doce que já vi na vida. Eu teria chorado mais se conseguisse, mas como não pude, a única coisa que pude fazer foi sorrir de volta, e então o apertei entre meus braços, beijando sua boca.
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