CAPÍTULO 16

809 Words
O cheiro veio antes do som. Caio parou no meio da rua estreita que levava ao porto, os sentidos em alerta como nos velhos tempos. Não era o cheiro salgado do mar, nem o diesel dos barcos de pesca. Era ferro. Óleo velho. E algo mais pólvora. Perigo. Ele apertou o maxilar, os músculos do corpo se retesando. A cidade parecia calma demais naquela manhã. Pescadores conversavam como se nada estivesse fora do lugar. Turistas caminhavam distraídos. Mas Caio sabia. Aprendera da pior forma que o perigo nunca anunciava sua chegada. E Isadora estava sozinha em casa. O pensamento atravessou sua mente como um golpe. Virou-se no mesmo instante, passos largos, decididos. O coração batia forte, não de medo por si mas por ela. Sempre por ela. **** Isadora sentiu o arrepio antes de entender o motivo. Estava na cozinha, preparando café, quando um perfume estranho invadiu o ambiente. Não era familiar. Forte demais para ser do mar, doce demais para ser natural. Um perfume masculino invasivo. Ela fechou os olhos por um segundo, tentando se convencer de que era imaginação. Mas o arrepio desceu pela espinha novamente. Alguém esteve ali. O copo escorregou de seus dedos e se quebrou no chão. O som ecoou alto demais na casa silenciosa. Isadora respirou fundo, o coração acelerado, tentando manter a calma. — É só nervosismo — sussurrou para si mesma. Mas quando se virou, viu. A porta dos fundos estava entreaberta. Ela tinha certeza absoluta de tê-la trancado. O medo subiu lento, traiçoeiro. Ainda assim, algo dentro dela talvez orgulho, talvez teimosia , a fez avançar alguns passos. — Tem alguém aí? — perguntou, a voz mais firme do que se sentia. Silêncio. Mas o cheiro estava mais forte agora. **** Caio chegou à casa como uma tempestade. A porta aberta foi tudo o que precisou ver. — Isadora! — chamou, entrando sem pensar. O instinto tomou o controle. Cada canto da casa foi verificado em segundos. Nenhum sinal de luta. Nenhuma janela quebrada. Mas havia algo errado. Ele sentiu. — Caio — a voz dela veio da cozinha, baixa, tensa. Quando a viu, o alívio foi imediato, seguido por uma fúria silenciosa. Ele se aproximou rápido, segurando o rosto dela com as duas mãos, examinando cada detalhe. — Você está machucada? — Não, eu acho que não. — respondeu, confusa com a intensidade. — Mas alguém esteve aqui. O olhar dele escureceu. — Eu sei. Ele inspirou fundo, sentindo o mesmo cheiro que o alertara antes. A mão deslizou pela cintura dela, puxando-a contra o corpo com força suficiente para deixá-la sem ar não de medo, mas da presença dele. — Esse cheiro — ela murmurou. — Não é seu. — Não. — respondeu entre dentes. — E não é daqui. Caio a conduziu até a sala, posicionando-a atrás de si, como um escudo vivo. O gesto era instintivo, possessivo, protetor. — A partir de agora, você não fica sozinha. — decretou. — Você não pode decidir isso sozinho. — ela tentou argumentar, mas a voz saiu fraca. Ele se virou, os olhos presos nos dela. — Eu posso quando alguém invade a minha casa pra sentir o cheiro da mulher que eu amo. A confissão foi dita sem pensar. O ar entre eles ficou pesado. Isadora sentiu o corpo reagir antes da mente. O medo misturava-se ao desejo de um jeito perigoso, confuso. Ela odiava admitir, mas se sentia segura nos braços dele , e isso a assustava. — Caio… — ela começou, mas foi interrompida. — Não agora. — ele disse, mais baixo. — Agora você confia em mim. Ele a puxou para perto outra vez, o nariz enterrado em seus cabelos, como se precisasse reafirmar que ela estava ali. Viva. Intocada. — Esse não foi um aviso qualquer. — ele murmurou. — Foi alguém dizendo que sabe que você voltou. E que sabe o quanto você importa pra mim. Isadora engoliu em seco. — O que você não está me contando? — perguntou. Caio fechou os olhos por um instante. — Coisas que eu enterrei no fundo do mar. — respondeu. — E que resolveram boiar. Ele se afastou apenas o suficiente para olhá-la. — A cidade não é tão pequena quanto parece. — continuou. — E nem todos esqueceram o que aconteceu anos atrás. O medo agora tinha nome. Passado. E ele estava mais vivo do que nunca. Caio encostou a testa na dela, a voz baixa, firme, carregada de promessa e ameaça. — Quem entrou aqui hoje — disse — vai se arrepender de ter respirado o mesmo ar que você. Isadora sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo. Não sabia quem os observava. Não sabia o que queriam. Mas sabia de uma coisa com absoluta certeza. O perigo não estava chegando. Ele já estava ali. E tinha o cheiro da morte misturado ao desejo.
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