PRÓLOGO
O cheiro do mar ainda era o mesmo que se lembrara.
Salgado, denso, carregado de lembranças que Isadora tentou enterrar por uma década.
Mas bastou um passo naquele porto antigo para tudo voltar , o som das gaivotas, o vento frio cortando a pele, e o nome que ecoava dentro dela como um sussurro proibido.
Caio.
Dez anos.
Dez malditos anos tentando esquecê-lo, tentando apagar o gosto, o toque, a promessa que nunca se cumpriu.
Mas o tempo não apaga o que arde , apenas transforma a dor em cicatriz.
A cidadezinha parecia parada no tempo, mas Isadora não.
Tinha o olhar de quem sobreviveu a algo, de quem aprendeu a não se entregar tão fácil.
E ainda assim, bastou um movimento no alto do penhasco , uma silhueta familiar para o chão sumir sob seus pés.
Ele estava ali.
De terno escuro, barba por fazer, olhos de tempestade.
O mesmo homem que ela amou, mas agora havia algo de sombrio nele.
Algo que o mar parecia refletir: fúria contida, perigo e saudade.
O coração dela disparou.
O dele, ela não sabia.
Porque Caio Moretti não deixava nada escapar. Nem dor. Nem desejo.
Os olhos dele a encontraram e o mundo pareceu parar.
Nenhuma palavra, apenas o silêncio denso de quem carrega segredos demais.
Ele a observou como quem encara um fantasma.
E ela, por um instante, quis correr. Mas não conseguiu.
O vento soprou, levantando o vestido leve, e Isadora sentiu o arrepio subir pela pele.
Aquele olhar, ainda a despia.
Ainda a possuía.
O mar rugiu.
E Caio deu um passo à frente, devagar, como um predador que reconhece sua presa.
— Achei que nunca mais voltaria — a voz dele soou baixa, rouca, perigosa.
Isadora respirou fundo, tentando disfarçar o tremor.
— Eu também.
Mas quando ele se aproximou, quando o calor dele tocou o ar entre os dois, ela percebeu uma verdade c***l,
poderia ter fugido do passado, de tudo…
menos dele.
E naquele instante, sem precisar de palavras, ambos sabiam,
a história deles estava prestes a começar outra vez.
Mais sombria.
Mais intensa.
E muito mais perigosa.