O carro deslizou pela estrada sinuosa que levava à cidade costeira, e Isadora sentiu o peito apertar com cada curva.
O mar começava a aparecer no horizonte, azul e vasto, como se zombasse da sua tentativa de fugir do passado.
Ela jurou que nunca mais voltaria ali. Jurou que deixaria tudo e principalmente ele para trás.
Mas agora estava de volta, dez anos depois, obrigada pela morte da avó Helena e pela herança que precisava resolver.
A casa antiga, o terreno no alto do penhasco, os papéis que o advogado insistia que ela assinasse pessoalmente.
Nada daquilo importava.
O que realmente a assustava era o que o retorno despertava dentro dela, lembranças que ela pensava ter enterrado, e um nome que queimava em silêncio na sua mente.
Caio Moretti.
Ela tentou afastar o pensamento, mas era impossível.
A cada rua, a cada olhar curioso dos moradores, a cidade sussurrava o nome dele.
Santa Marina nunca esquece seus pecados nem seus amores.
O carro parou diante da casa da avó, uma construção antiga de madeira clara e janelas azuis.
O jardim estava tomado por ervas e o portão rangia como se reclamasse da ausência.
Isadora desceu, respirou fundo o cheiro do sal misturado ao das flores mortas, e sentiu uma pontada no peito.
— Lar — murmurou com ironia.
O vento trouxe lembranças.
O riso dela e de Caio correndo descalços pela areia.
O primeiro beijo atrás da velha igreja. As promessas sussurradas sob as estrelas.
E depois a noite do incêndio.
O grito.
A tragédia que separou suas famílias e destruiu tudo.
Ela balançou a cabeça, empurrando as memórias para longe.
Agora era mulher feita, madura, independente. Não deixaria o passado dominá-la.
Ou pelo menos tentaria.
******
No dia seguinte, a notícia correu rápido pela cidade, “Isadora Ferraz voltou.”
No café, no mercado, no porto, o nome dela estava na boca de todos.
E, inevitavelmente, chegou até ele.
Caio estava no escritório do porto, observando o carregamento de navios, quando ouviu.
A assistente, nervosa, comentou quase sem pensar.
— Parece que a neta da dona Helena voltou pra cidade.
Ele congelou.
O nome ecoou em sua cabeça como uma pancada.
Isadora.
Dez anos.
Dez anos tentando apagar aquele rosto, aquele perfume, aquele rastro de destruição e desejo que ela deixara.
Mas, de repente, era como se o tempo nunca tivesse passado.
O sangue ferveu. O coração endureceu.
— Não me interessa — respondeu, seco, virando as costas.
Mas mentiu.
Porque no fundo, tudo nele ainda a procurava.
*******
Isadora passou o dia arrumando os cômodos, mexendo em caixas, lendo papéis velhos.
Encontrou fotos antigas da avó e, no fundo de uma gaveta, uma carta endereçada a ela nunca foi aberta.
As mãos tremeram quando viu a caligrafia conhecida.
“Para minha querida Isa,
há verdades que o tempo esconde,
e mentiras que só o amor pode perdoar.
Quando voltar, procure a caixa de madeira no sótão.
Nela está tudo o que você precisa saber.”
O coração dela acelerou.
A caixa. O sótão.
Mas antes que pudesse subir, ouviu passos do lado de fora.
O barulho era firme, pesado, conhecido.
Um arrepio percorreu sua espinha antes mesmo de virar.
A porta se abriu.
E lá estava ele.
Caio Moretti.
O ar pareceu sumir da sala.
O mesmo homem do penhasco, agora à luz do entardecer, ainda mais intenso.
Terno escuro, camisa aberta no colarinho, o olhar cortante como lâmina.
— Você voltou. — A voz dele era baixa, rouca, carregada de algo que ela não sabia decifrar. Raiva? Dor? Desejo?
— Só por um tempo. Mas tentou parecer firme, mas a voz falhou.
Ele deu um passo à frente, os olhos percorrendo o rosto dela, o pescoço, o corpo que ele conhecia como ninguém.
— Dez anos e ainda mente m*l.
Ela engoliu em seco.
O som da voz dele a atingia como o toque de um fantasma.
— O que está fazendo aqui, Caio?
Um meio sorriso torto surgiu no canto da boca dele.
— Sou dono de metade da cidade agora. Inclusive das terras ao redor da sua casa.
— Então está aqui por negócios?
— Não exatamente.
O silêncio entre eles era quase palpável.
Isadora tentou se afastar, mas ele se moveu rapidamente, bloqueando a saída.
O cheiro dele amadeirado, familiar, devastador invadiu o ar.
— Não achei que teria coragem de voltar — murmurou, olhando-a nos olhos.
— Não tive escolha.
— Sempre teve.
— Ele se aproximou ainda mais, até que os corpos quase se tocaram.
— Você é boa em fugir, Isa. Foi o que fez de melhor da última vez.
A lembrança do passado queimou dentro dela como faca.
— Não começa.
— Já começou no momento em que pisou aqui.
Ela respirou fundo, lutando contra o impulso de gritar ou de tocá-lo.
Ele era raiva e saudade em carne viva.
E por mais que quisesse odiá-lo, o corpo dela reagia a cada segundo da presença dele.
— Eu não sou mais a mesma — disse por fim.
— Nem eu — respondeu ele, com um olhar sombrio.
— E talvez por isso, dessa vez, você não vá escapar.
O coração dela disparou.
Antes que pudesse responder, ele estendeu a mão e tirou delicadamente um fio de cabelo do rosto dela.
O toque foi leve, mas bastou para acender o fogo que ela achava extinto.
— Cuidado, Caio. — sussurrou.
— Já se queimou uma vez comigo.
— E faria de novo.
— A voz dele era pura tentação.
— Porque tem coisas que o fogo não destrói só transforma.
Por um instante, o mundo parou.
Os olhos se encontraram, o ar ficou denso, e o passado se misturou ao presente como uma chama prestes a consumir tudo.
Ele se afastou lentamente, o olhar fixo nela.
— Vamos ver quanto tempo aguenta fingindo, Isa.
E antes que ela pudesse responder, Caio saiu, deixando o eco da voz dele e o coração dela em ruínas.
Do lado de fora, o vento soprou forte, trazendo o cheiro do mar o mesmo cheiro do dia em que tudo começou.
Isadora fechou os olhos, sentindo o corpo inteiro tremer.
Ela jurou não cair de novo.
Mas o desejo já queimava, à flor da pele.