CAPÍTULO 1

1039 Words
O carro deslizou pela estrada sinuosa que levava à cidade costeira, e Isadora sentiu o peito apertar com cada curva. O mar começava a aparecer no horizonte, azul e vasto, como se zombasse da sua tentativa de fugir do passado. Ela jurou que nunca mais voltaria ali. Jurou que deixaria tudo e principalmente ele para trás. Mas agora estava de volta, dez anos depois, obrigada pela morte da avó Helena e pela herança que precisava resolver. A casa antiga, o terreno no alto do penhasco, os papéis que o advogado insistia que ela assinasse pessoalmente. Nada daquilo importava. O que realmente a assustava era o que o retorno despertava dentro dela, lembranças que ela pensava ter enterrado, e um nome que queimava em silêncio na sua mente. Caio Moretti. Ela tentou afastar o pensamento, mas era impossível. A cada rua, a cada olhar curioso dos moradores, a cidade sussurrava o nome dele. Santa Marina nunca esquece seus pecados nem seus amores. O carro parou diante da casa da avó, uma construção antiga de madeira clara e janelas azuis. O jardim estava tomado por ervas e o portão rangia como se reclamasse da ausência. Isadora desceu, respirou fundo o cheiro do sal misturado ao das flores mortas, e sentiu uma pontada no peito. — Lar — murmurou com ironia. O vento trouxe lembranças. O riso dela e de Caio correndo descalços pela areia. O primeiro beijo atrás da velha igreja. As promessas sussurradas sob as estrelas. E depois a noite do incêndio. O grito. A tragédia que separou suas famílias e destruiu tudo. Ela balançou a cabeça, empurrando as memórias para longe. Agora era mulher feita, madura, independente. Não deixaria o passado dominá-la. Ou pelo menos tentaria. ****** No dia seguinte, a notícia correu rápido pela cidade, “Isadora Ferraz voltou.” No café, no mercado, no porto, o nome dela estava na boca de todos. E, inevitavelmente, chegou até ele. Caio estava no escritório do porto, observando o carregamento de navios, quando ouviu. A assistente, nervosa, comentou quase sem pensar. — Parece que a neta da dona Helena voltou pra cidade. Ele congelou. O nome ecoou em sua cabeça como uma pancada. Isadora. Dez anos. Dez anos tentando apagar aquele rosto, aquele perfume, aquele rastro de destruição e desejo que ela deixara. Mas, de repente, era como se o tempo nunca tivesse passado. O sangue ferveu. O coração endureceu. — Não me interessa — respondeu, seco, virando as costas. Mas mentiu. Porque no fundo, tudo nele ainda a procurava. ******* Isadora passou o dia arrumando os cômodos, mexendo em caixas, lendo papéis velhos. Encontrou fotos antigas da avó e, no fundo de uma gaveta, uma carta endereçada a ela nunca foi aberta. As mãos tremeram quando viu a caligrafia conhecida. “Para minha querida Isa, há verdades que o tempo esconde, e mentiras que só o amor pode perdoar. Quando voltar, procure a caixa de madeira no sótão. Nela está tudo o que você precisa saber.” O coração dela acelerou. A caixa. O sótão. Mas antes que pudesse subir, ouviu passos do lado de fora. O barulho era firme, pesado, conhecido. Um arrepio percorreu sua espinha antes mesmo de virar. A porta se abriu. E lá estava ele. Caio Moretti. O ar pareceu sumir da sala. O mesmo homem do penhasco, agora à luz do entardecer, ainda mais intenso. Terno escuro, camisa aberta no colarinho, o olhar cortante como lâmina. — Você voltou. — A voz dele era baixa, rouca, carregada de algo que ela não sabia decifrar. Raiva? Dor? Desejo? — Só por um tempo. Mas tentou parecer firme, mas a voz falhou. Ele deu um passo à frente, os olhos percorrendo o rosto dela, o pescoço, o corpo que ele conhecia como ninguém. — Dez anos e ainda mente m*l. Ela engoliu em seco. O som da voz dele a atingia como o toque de um fantasma. — O que está fazendo aqui, Caio? Um meio sorriso torto surgiu no canto da boca dele. — Sou dono de metade da cidade agora. Inclusive das terras ao redor da sua casa. — Então está aqui por negócios? — Não exatamente. O silêncio entre eles era quase palpável. Isadora tentou se afastar, mas ele se moveu rapidamente, bloqueando a saída. O cheiro dele amadeirado, familiar, devastador invadiu o ar. — Não achei que teria coragem de voltar — murmurou, olhando-a nos olhos. — Não tive escolha. — Sempre teve. — Ele se aproximou ainda mais, até que os corpos quase se tocaram. — Você é boa em fugir, Isa. Foi o que fez de melhor da última vez. A lembrança do passado queimou dentro dela como faca. — Não começa. — Já começou no momento em que pisou aqui. Ela respirou fundo, lutando contra o impulso de gritar ou de tocá-lo. Ele era raiva e saudade em carne viva. E por mais que quisesse odiá-lo, o corpo dela reagia a cada segundo da presença dele. — Eu não sou mais a mesma — disse por fim. — Nem eu — respondeu ele, com um olhar sombrio. — E talvez por isso, dessa vez, você não vá escapar. O coração dela disparou. Antes que pudesse responder, ele estendeu a mão e tirou delicadamente um fio de cabelo do rosto dela. O toque foi leve, mas bastou para acender o fogo que ela achava extinto. — Cuidado, Caio. — sussurrou. — Já se queimou uma vez comigo. — E faria de novo. — A voz dele era pura tentação. — Porque tem coisas que o fogo não destrói só transforma. Por um instante, o mundo parou. Os olhos se encontraram, o ar ficou denso, e o passado se misturou ao presente como uma chama prestes a consumir tudo. Ele se afastou lentamente, o olhar fixo nela. — Vamos ver quanto tempo aguenta fingindo, Isa. E antes que ela pudesse responder, Caio saiu, deixando o eco da voz dele e o coração dela em ruínas. Do lado de fora, o vento soprou forte, trazendo o cheiro do mar o mesmo cheiro do dia em que tudo começou. Isadora fechou os olhos, sentindo o corpo inteiro tremer. Ela jurou não cair de novo. Mas o desejo já queimava, à flor da pele.
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