CAPÍTULO 7

755 Words
Isadora sentiu o medo antes mesmo de entendê-lo. Era um peso estranho no peito, uma impressão constante de que algo a observava desde as sombras. O caminho de volta para casa pareceu mais longo naquela noite. As ruas de Santa Marina estavam silenciosas demais, como se a cidade segurasse a respiração. Ela acelerou o passo. O som dos próprios passos ecoava atrás dela — toc, toc — ritmados demais para serem coincidência. Isadora parou. O som parou também. O coração disparou. — Não é nada — murmurou para si mesma, tentando manter a calma. Mas quando retomou o caminho, a sensação voltou. Presença. Vigilância. O passado respirava em sua nuca. Quando finalmente chegou à casa da avó, trancou a porta com mais força do que o necessário. As mãos tremiam. Encostou as costas na madeira, tentando controlar a respiração. O beijo no corredor do clube ainda queimava em sua mente. As palavras de Henrique ecoavam como ameaça. E o olhar de Caio aquele olhar que misturava medo e posse. Isadora subiu para o quarto, fechou a janela e puxou as cortinas. Só então percebeu algo estranho. A caixa do sótão não estava onde ela deixara. O estômago se contraiu. Ela caminhou devagar até a mesa. Os papéis estavam fora de ordem. As cartas haviam sido mexidas. Alguém estivera ali. — Não, — sussurrou. O medo agora era real, palpável. Ela pegou o celular e discou o único número que vinha à mente. Caio atendeu no segundo toque. — Você não devia ter vindo sozinha. — a voz dele saiu baixa, tensa. — Alguém entrou na casa. — ela disse, sem rodeios. — Mexeram nas coisas da minha avó. O silêncio do outro lado durou apenas um segundo. — Saia daí agora. Tranque-se no quarto. Estou a caminho. — Caio — Agora, Isadora. A autoridade na voz dele não permitia discussão. Ela obedeceu. **** Caio chegou rápido demais para alguém que dizia não se importar. O carro parou bruscamente em frente à casa. Ele entrou sem bater, os olhos varrendo o ambiente como os de um predador em alerta. Subiu as escadas em poucos passos e encontrou Isadora sentada na beira da cama, abraçando os joelhos. — Está machucada? — perguntou, segurando o rosto dela com as duas mãos. — Não. — a voz dela falhou. — Mas alguém esteve aqui. O olhar dele escureceu. Caio desceu para a sala, examinou portas, janelas, marcas no chão. Nada fora levado. Isso o deixou ainda mais inquieto. — Não vieram roubar. — concluiu. — Vieram avisar. — Avisar do quê? Ele voltou para perto dela, respirando fundo. — Que sabem o que sua avó escondeu. E que sabem que você está mexendo nisso. Isadora sentiu o frio subir pela espinha. — Henrique? — Ele ou alguém pior. — respondeu. — O incêndio não foi o fim, mas sim Foi o começo. Ela se levantou, os olhos marejados. — Então por que ninguém nunca me contou? Caio passou a mão pelo rosto, exausto. — Porque te contar significava te colocar na mira, E eu jurei que isso nunca aconteceria. — Mesmo que me perdesse no processo? — a dor na voz dela era nítida. Ele se aproximou, a expressão se suavizando. — Eu te perdi para te salvar. O silêncio que se formou era pesado. Isadora deu um passo à frente. — Eu sinto medo, Caio. Mas sinto mais medo ainda de não saber a verdade. Ele segurou o rosto dela, encostando a testa na dela. — O passado não morreu, Isa, Ele respira, Observa, Espera. O toque dele a acalmava e a incendiava ao mesmo tempo. — Então fique comigo. — ela sussurrou. — Só esta noite. Caio hesitou. Por um segundo, a luta interna foi visível. — Ficar com você nunca é simples. — murmurou. — Desde quando nós somos simples? Ele cedeu. Caio puxou Isadora para os braços, apertando-a contra o peito com força suficiente para prometer proteção e posse. — Ninguém encosta em você. Enquanto eu respirar, ninguém. O coração dela bateu forte. Naquela noite, ela dormiu envolta pelo corpo dele, sentindo o calor, o cheiro familiar, a presença firme que afastava os medos. Mas o sono foi inquieto. Porque do lado de fora da casa, oculto na escuridão, alguém observava a luz do quarto apagar. Henrique. Ele fez uma ligação curta. — Ela já sabe que não está segura. — disse. — Agora é só uma questão de tempo. Desligou, sorrindo. O passado respirava. E estava cada vez mais perto de despertar por completo.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD