Isadora sentiu o medo antes mesmo de entendê-lo.
Era um peso estranho no peito, uma impressão constante de que algo a observava desde as sombras.
O caminho de volta para casa pareceu mais longo naquela noite.
As ruas de Santa Marina estavam silenciosas demais, como se a cidade segurasse a respiração.
Ela acelerou o passo.
O som dos próprios passos ecoava atrás dela — toc, toc — ritmados demais para serem coincidência.
Isadora parou.
O som parou também.
O coração disparou.
— Não é nada — murmurou para si mesma, tentando manter a calma.
Mas quando retomou o caminho, a sensação voltou. Presença. Vigilância.
O passado respirava em sua nuca.
Quando finalmente chegou à casa da avó, trancou a porta com mais força do que o necessário.
As mãos tremiam. Encostou as costas na madeira, tentando controlar a respiração.
O beijo no corredor do clube ainda queimava em sua mente.
As palavras de Henrique ecoavam como ameaça.
E o olhar de Caio aquele olhar que misturava medo e posse.
Isadora subiu para o quarto, fechou a janela e puxou as cortinas.
Só então percebeu algo estranho.
A caixa do sótão não estava onde ela deixara.
O estômago se contraiu.
Ela caminhou devagar até a mesa. Os papéis estavam fora de ordem.
As cartas haviam sido mexidas.
Alguém estivera ali.
— Não,
— sussurrou.
O medo agora era real, palpável.
Ela pegou o celular e discou o único número que vinha à mente.
Caio atendeu no segundo toque.
— Você não devia ter vindo sozinha. — a voz dele saiu baixa, tensa.
— Alguém entrou na casa. — ela disse, sem rodeios.
— Mexeram nas coisas da minha avó.
O silêncio do outro lado durou apenas um segundo.
— Saia daí agora. Tranque-se no quarto. Estou a caminho.
— Caio
— Agora, Isadora.
A autoridade na voz dele não permitia discussão.
Ela obedeceu.
****
Caio chegou rápido demais para alguém que dizia não se importar.
O carro parou bruscamente em frente à casa.
Ele entrou sem bater, os olhos varrendo o ambiente como os de um predador em alerta.
Subiu as escadas em poucos passos e encontrou Isadora sentada na beira da cama, abraçando os joelhos.
— Está machucada? — perguntou, segurando o rosto dela com as duas mãos.
— Não. — a voz dela falhou.
— Mas alguém esteve aqui.
O olhar dele escureceu.
Caio desceu para a sala, examinou portas, janelas, marcas no chão. Nada fora levado.
Isso o deixou ainda mais inquieto.
— Não vieram roubar. — concluiu.
— Vieram avisar.
— Avisar do quê?
Ele voltou para perto dela, respirando fundo.
— Que sabem o que sua avó escondeu. E que sabem que você está mexendo nisso.
Isadora sentiu o frio subir pela espinha.
— Henrique?
— Ele ou alguém pior. — respondeu.
— O incêndio não foi o fim, mas sim Foi o começo.
Ela se levantou, os olhos marejados.
— Então por que ninguém nunca me contou?
Caio passou a mão pelo rosto, exausto.
— Porque te contar significava te colocar na mira, E eu jurei que isso nunca aconteceria.
— Mesmo que me perdesse no processo? — a dor na voz dela era nítida.
Ele se aproximou, a expressão se suavizando.
— Eu te perdi para te salvar.
O silêncio que se formou era pesado.
Isadora deu um passo à frente.
— Eu sinto medo, Caio. Mas sinto mais medo ainda de não saber a verdade.
Ele segurou o rosto dela, encostando a testa na dela.
— O passado não morreu, Isa, Ele respira, Observa, Espera.
O toque dele a acalmava e a incendiava ao mesmo tempo.
— Então fique comigo. — ela sussurrou.
— Só esta noite.
Caio hesitou.
Por um segundo, a luta interna foi visível.
— Ficar com você nunca é simples. — murmurou.
— Desde quando nós somos simples?
Ele cedeu.
Caio puxou Isadora para os braços, apertando-a contra o peito com força suficiente para prometer proteção e posse.
— Ninguém encosta em você. Enquanto eu respirar, ninguém.
O coração dela bateu forte.
Naquela noite, ela dormiu envolta pelo corpo dele, sentindo o calor, o cheiro familiar, a presença firme que afastava os medos.
Mas o sono foi inquieto.
Porque do lado de fora da casa, oculto na escuridão, alguém observava a luz do quarto apagar.
Henrique.
Ele fez uma ligação curta.
— Ela já sabe que não está segura. — disse.
— Agora é só uma questão de tempo.
Desligou, sorrindo.
O passado respirava.
E estava cada vez mais perto de despertar por completo.