Santa Marina sabia celebrar como sabia esconder pecados, com música alta, sorrisos forçados e luzes suficientes para cegar consciências.
A praça central estava tomada por bandeirolas coloridas, barracas de comida típica e um palco montado em frente à igreja antiga.
O cheiro de fritura, açúcar e álcool se misturava ao som das risadas.
Para qualquer visitante, parecia apenas mais uma festa tradicional.
Para quem conhecia a cidade, era um palco perfeito para mentiras.
Isadora sentiu isso no instante em que pisou ali.
— Se quiser ir embora — Caio murmurou ao lado dela.
Ela segurou a mão dele com firmeza.
— Não. — respondeu.
— Se o passado vai nos encarar, que seja à luz de todos.
Caio a observou por um segundo a mais do que o necessário.
Havia orgulho no olhar dele. E algo mais perigoso: decisão.
Ela vestia um vestido azul-escuro, simples, mas que abraçava o corpo de um jeito que fazia os olhares se voltarem.
Caio percebeu cada um deles. O maxilar dele se contraiu.
— Não gosto quando olham pra você assim.
— Santa Marina sempre olhou. — ela respondeu.
— A diferença é que agora eu olho de volta.
Eles caminharam pela praça, e os sussurros começaram imediatamente.
— É ela,
— A neta da Helena.
— Voltou com o Moretti.
— Coragem ou loucura?
Isadora manteve a cabeça erguida. Mas sentia. Cada palavra era uma lâmina invisível.
No palco, a banda afinava os instrumentos. Crianças corriam, casais dançavam, mas havia algo errado no ar.
Uma tensão sutil, quase imperceptível, como o silêncio antes da tempestade.
— Ele está aqui. — Caio disse de repente, em tom baixo.
— Quem?
— Henrique.
Isadora seguiu o olhar dele.
Henrique estava perto da barraca de bebidas, elegante demais para o lugar, o sorriso fácil, os olhos atentos demais.
Quando percebeu que fora visto, ergueu o copo num brinde irônico.
— Ele não mudou nada. — ela murmurou.
— Mudou. — Caio respondeu.
— Agora ele não finge mais.
Henrique se aproximou com passos tranquilos, como se estivesse indo cumprimentar velhos amigos.
— Isadora Ferraz. — disse, abrindo um sorriso ensaiado.
— Santa Marina fica mais bonita quando você aparece.
— Não posso dizer o mesmo de você. — ela respondeu, sem baixar os olhos.
O sorriso dele vacilou por um segundo.
— Sempre direta. Gostei disso em você desde o olhar dele deslizou lentamente sempre.
Caio deu um passo à frente.
— Fala o que quer e sai.
Henrique riu baixo.
— Ainda mandando em tudo, Moretti? Ou só no que você acha que é seu?
O clima ficou pesado. Pessoas começaram a perceber a tensão, mas ninguém se afastava.
Santa Marina adorava um escândalo , desde que não fosse seu.
Henrique se inclinou levemente em direção a Isadora.
— Sua avó tinha muitos segredos. Alguns não deveriam ter voltado à superfície.
O coração dela acelerou.
— Você não toca no nome dela.
— Ou o quê? — provocou.
— Vai contar à cidade quem realmente causou aquele incêndio?
O silêncio caiu como um golpe.
Caio agarrou o braço de Henrique com força.
— Chega.
— Cuidado. — Henrique sussurrou.
— A verdade é frágil. Às vezes explode.
Ele se afastou, misturando-se à multidão como se nada tivesse acontecido.
Isadora respirava com dificuldade.
— Ele sabe. — ela disse.
— Sabe que encontramos algo.
— Sim. — Caio respondeu.
— E quer nos testar.
A música começou. Uma canção lenta, antiga, conhecida por todos. Casais se formaram na praça.
Caio virou-se para ela.
— Dance comigo.
— Aqui? Agora?
— Principalmente agora.
Ele a puxou para perto, a mão firme em sua cintura. O corpo dele era uma âncora. Um aviso silencioso.
Enquanto dançavam, Isadora sentia cada batida do coração dele, cada músculo tenso, cada gesto possessivo disfarçado de cuidado.
— Eles estão olhando. — ela murmurou.
— Que olhem. — ele respondeu.
— Quero que vejam.
— Ver o quê?
— Que você não está sozinha. Nunca esteve.
O olhar deles se prendeu. O desejo ali não era leve.
Era intenso, carregado de passado, culpa e promessas não ditas.
De repente, as luzes da praça piscaram.
Uma explosão seca ecoou perto do palco.
Não grande o suficiente para ferir, mas forte o bastante para espalhar pânico. Gritos. Correria. Crianças chorando.
Caio envolveu Isadora com o próprio corpo, protegendo-a instintivamente.
— Fique atrás de mim! — ordenou.
A energia voltou segundos depois.
O prefeito tentou acalmar a multidão, dizendo que fora apenas um problema técnico.
Mas Caio sabia.
— Isso foi um aviso. — disse, sério.
Isadora sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha.
— Ele quer nos assustar.
— Não. — Caio respondeu, o olhar duro, procurando Henrique entre as pessoas.
— Ele quer mostrar que pode nos alcançar em qualquer lugar.
Henrique não estava mais ali.
A festa continuou, forçada, artificial.
Mas algo havia mudado. A cidade sentira o gosto do medo outra vez.
Caio segurou o rosto de Isadora entre as mãos.
— A partir de agora, você não dá um passo sem eu saber.
— Isso soa como controle.
— É proteção. — corrigiu.
— E eu não vou pedir desculpas por isso.
Ela não recuou.
— Então esteja preparado. Porque eu não vou mais fugir.
Ele encostou a testa na dela.
— Nem eu.
Ao longe, o mar rugia, invisível, mas atento.
A festa terminou.
Mas a guerra tinha acabado de começar.