CAPÍTULO 14

771 Words
A chuva caía pesada quando chegaram à casa. O céu de Santa Marina parecia refletir exatamente o que fervilhava entre eles carregado, instável, prestes a desabar. Isadora entrou primeiro, largando a bolsa sobre a mesa com força demais. Caio fechou a porta atrás deles, o som seco ecoando pela casa silenciosa. — Você não pode falar daquele jeito comigo. — ela disse, sem se virar. Caio ficou imóvel por um instante. — Eu falei do jeito que precisava. Ela se virou então, os olhos brilhando de raiva e algo mais profundo — medo. — Não. Você falou como se eu fosse sua propriedade. O maxilar dele se contraiu. — Eu falei com alguém que sabe que você está em perigo. — Você não decide isso sozinho! — a voz dela subiu. — Não decide onde eu vou, com quem falo, o que faço! Caio deu um passo à frente, a presença dele ocupando o espaço como uma tempestade. — E você acha que eu estou exagerando? Depois de tudo o que já aconteceu? — Eu acho que você está deixando o medo mandar em você! — Isadora rebateu. — Está se escondendo atrás da proteção para controlar! O silêncio caiu pesado entre os dois. Caio passou a mão pelos cabelos, andando pela sala como um animal enjaulado. — Você não faz ideia do que eu precisei me tornar pra sobreviver aqui. — Então não me arrasta pra isso! — ela respondeu, a voz trêmula agora. — Eu não pedi por esse mundo escuro! Ele parou diante dela. — Mas ele veio até você. Querendo ou não. Isadora sentiu as palavras como um golpe. — Você acha que eu não sinto? — ela disse, levando a mão ao peito. — Que eu não acordo com o coração disparado, com a sensação de estar sendo observada? Que eu não tenho lembranças estranhas, lapsos, dores que não sei explicar? O olhar dele vacilou. — Você devia ter me contado. — E você devia ter confiado em mim! — ela respondeu. — Mas prefere decidir tudo sozinho, como se eu ainda fosse aquela garota quebrada de anos atrás! A chuva bateu mais forte contra as janelas. Caio se aproximou lentamente, a voz mais baixa, perigosa. — Eu não posso perder você, Isadora. — E eu não posso viver sufocada. — ela respondeu, firme. — Não posso amar alguém que tenta me proteger me machucando. A palavra amar pairou no ar, pesada demais para ser ignorada. Caio fechou os olhos por um segundo. Quando os abriu, havia dor ali. E culpa. — Você não entende — ele disse, a voz rouca. — Toda vez que alguém chega perto de você, eu vejo aquela noite. Vejo o fogo. Vejo o corpo do seu pai no chão. E eu perco o controle. Isadora sentiu as pernas fraquejarem, mas manteve-se firme. — Então olha pra mim agora. — ela disse, aproximando-se. — Eu não sou o passado. Eu estou aqui. Viva. Escolhendo você apesar de tudo. Ele a encarou, o olhar carregado de conflito. — Eu tenho medo de quem eu me tornei. — ele confessou. — Tenho medo de machucar você tentando te salvar. Ela ergueu a mão, tocando o rosto dele com cuidado. — Então aprende a me proteger comigo, não de mim. O toque dela o desmontou. Caio segurou o pulso dela por um instante, como se lutasse contra si mesmo, depois a puxou para um abraço forte demais, quase desesperado. — Não me provoca assim — murmurou. — Eu não sei ser meio-termo quando se trata de você. — Eu sei. — ela respondeu, enterrando o rosto no peito dele. — É por isso que estamos brigando. Eles se afastaram lentamente. O ar ainda estava carregado, mas algo havia mudado. Não havia mais gritos. Só verdades nuas. — Henrique não vai parar. — Caio disse. — E quando ele atacar de novo, vai ser mais perto. — Então a gente enfrenta juntos. — Isadora respondeu. — Sem segredos. Sem decisões solitárias. Ele assentiu, ainda relutante. — Vou tentar. Ela o encarou com intensidade. — Não é suficiente tentar, Caio. Eu preciso confiar em você. O olhar dele se fixou no dela, sério, profundo. — Então fica. Mesmo quando eu falhar. Isadora respirou fundo. — Fico. Mas não me cale. O trovão soou alto, quase um aviso. Naquele momento, ambos sabiam: a discussão não os afastara. Apenas deixara claro o quão perigoso e necessário era o que sentiam. E enquanto a chuva continuava a cair, lavando a cidade sem apagar seus pecados, algo novo se formava entre eles. Não paz. Mas aliança. E isso mudaria tudo.
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