A chuva caía pesada quando chegaram à casa.
O céu de Santa Marina parecia refletir exatamente o que fervilhava entre eles carregado, instável, prestes a desabar.
Isadora entrou primeiro, largando a bolsa sobre a mesa com força demais.
Caio fechou a porta atrás deles, o som seco ecoando pela casa silenciosa.
— Você não pode falar daquele jeito comigo. — ela disse, sem se virar.
Caio ficou imóvel por um instante.
— Eu falei do jeito que precisava.
Ela se virou então, os olhos brilhando de raiva e algo mais profundo — medo.
— Não. Você falou como se eu fosse sua propriedade.
O maxilar dele se contraiu.
— Eu falei com alguém que sabe que você está em perigo.
— Você não decide isso sozinho! — a voz dela subiu. — Não decide onde eu vou, com quem falo, o que faço!
Caio deu um passo à frente, a presença dele ocupando o espaço como uma tempestade.
— E você acha que eu estou exagerando? Depois de tudo o que já aconteceu?
— Eu acho que você está deixando o medo mandar em você! — Isadora rebateu.
— Está se escondendo atrás da proteção para controlar!
O silêncio caiu pesado entre os dois.
Caio passou a mão pelos cabelos, andando pela sala como um animal enjaulado.
— Você não faz ideia do que eu precisei me tornar pra sobreviver aqui.
— Então não me arrasta pra isso! — ela respondeu, a voz trêmula agora. — Eu não pedi por esse mundo escuro!
Ele parou diante dela.
— Mas ele veio até você. Querendo ou não.
Isadora sentiu as palavras como um golpe.
— Você acha que eu não sinto? — ela disse, levando a mão ao peito.
— Que eu não acordo com o coração disparado, com a sensação de estar sendo observada? Que eu não tenho lembranças estranhas, lapsos, dores que não sei explicar?
O olhar dele vacilou.
— Você devia ter me contado.
— E você devia ter confiado em mim! — ela respondeu.
— Mas prefere decidir tudo sozinho, como se eu ainda fosse aquela garota quebrada de anos atrás!
A chuva bateu mais forte contra as janelas.
Caio se aproximou lentamente, a voz mais baixa, perigosa.
— Eu não posso perder você, Isadora.
— E eu não posso viver sufocada. — ela respondeu, firme.
— Não posso amar alguém que tenta me proteger me machucando.
A palavra amar pairou no ar, pesada demais para ser ignorada.
Caio fechou os olhos por um segundo. Quando os abriu, havia dor ali. E culpa.
— Você não entende — ele disse, a voz rouca.
— Toda vez que alguém chega perto de você, eu vejo aquela noite.
Vejo o fogo.
Vejo o corpo do seu pai no chão.
E eu perco o controle.
Isadora sentiu as pernas fraquejarem, mas manteve-se firme.
— Então olha pra mim agora. — ela disse, aproximando-se.
— Eu não sou o passado. Eu estou aqui. Viva. Escolhendo você apesar de tudo.
Ele a encarou, o olhar carregado de conflito.
— Eu tenho medo de quem eu me tornei. — ele confessou.
— Tenho medo de machucar você tentando te salvar.
Ela ergueu a mão, tocando o rosto dele com cuidado.
— Então aprende a me proteger comigo, não de mim.
O toque dela o desmontou.
Caio segurou o pulso dela por um instante, como se lutasse contra si mesmo, depois a puxou para um abraço forte demais, quase desesperado.
— Não me provoca assim — murmurou.
— Eu não sei ser meio-termo quando se trata de você.
— Eu sei. — ela respondeu, enterrando o rosto no peito dele.
— É por isso que estamos brigando.
Eles se afastaram lentamente. O ar ainda estava carregado, mas algo havia mudado. Não havia mais gritos. Só verdades nuas.
— Henrique não vai parar. — Caio disse.
— E quando ele atacar de novo, vai ser mais perto.
— Então a gente enfrenta juntos. — Isadora respondeu. — Sem segredos. Sem decisões solitárias.
Ele assentiu, ainda relutante.
— Vou tentar.
Ela o encarou com intensidade.
— Não é suficiente tentar, Caio. Eu preciso confiar em você.
O olhar dele se fixou no dela, sério, profundo.
— Então fica. Mesmo quando eu falhar.
Isadora respirou fundo.
— Fico. Mas não me cale.
O trovão soou alto, quase um aviso.
Naquele momento, ambos sabiam:
a discussão não os afastara.
Apenas deixara claro o quão perigoso e necessário era o que sentiam.
E enquanto a chuva continuava a cair, lavando a cidade sem apagar seus pecados, algo novo se formava entre eles.
Não paz.
Mas aliança.
E isso mudaria tudo.