CAPÍTULO 12

738 Words
A chuva começou fina, quase tímida, como se Santa Marina também tivesse medo de tocar no que estava exposto. Isadora observava as gotas escorrendo pelo vidro da janela, o corpo envolto em um silêncio inquieto. A casa parecia diferente da luz cinzenta do dia menos acolhedora, mais honesta. Ali, tudo parecia carregar história demais. — Você não dormiu direito. — Caio disse atrás dela. Ela não se virou. — Nem você. Ele se aproximou devagar, como fazia quando sabia que qualquer movimento brusco poderia quebrar algo invisível. Parou a poucos centímetros, respeitando o espaço que ela ainda precisava para organizar pensamentos e memórias. — Aquele olhar — Isadora murmurou. — O seu. Ele me seguiu a noite inteira. — Porque eu estava lembrando. — ele respondeu. — E lembrar dói. Ela se virou então, apoiando as costas na janela. — Do quê? Caio respirou fundo, como quem decide arrancar um curativo antigo. — Do dia em que tudo queimou. O nome não foi dito, mas o peso dele caiu entre os dois. — Eu vi o primeiro fogo. — ele continuou. — Estava no porto quando senti o cheiro. Corri, mas já era tarde demais. A casa a voz falhou por um segundo já estava perdida. Isadora sentiu o peito apertar. — Eu lembro da fumaça. Lembro da sirene. Mas minha mente apagou o resto. — Porque foi assim que você sobreviveu. — Caio disse. — Eu não tive essa opção. Ele passou a mão pelos cabelos, inquieto. — Quando encontrei seu pai — a frase morreu antes de terminar. Isadora fechou os olhos. — Ele tentou parar alguém. — Caio continuou, a voz baixa, crua. — E eu cheguei tarde demais. O silêncio se estendeu, pesado como chumbo. — Você carrega isso sozinho desde então. — ela disse, com suavidade. — Como se a culpa fosse sua. — Porque eu estava lá. — ele respondeu. — E porque eu sobrevivi. Isadora deu um passo à frente e pousou a mão no braço dele. O toque foi leve, mas firme. — Sobreviver não é culpa, Caio. É ferida. Ele a encarou, o olhar nu, desarmado. — Você não sabe quantas vezes eu tentei apagar aquela noite da minha cabeça e falhei. — Porque ela ainda sangra. — Isadora sussurrou. A mão dela subiu até o peito dele, sentindo a rigidez sob a camisa. — Aqui também tem feridas. Caio fechou os olhos quando sentiu o toque. Não por prazer mas porque aquilo o desmontava. — Eu me tornei o que me tornei para não sentir. — confessou. — Poder, controle era a única forma de manter tudo sob rédeas. — E eu? — ela perguntou. — Eu faço você sentir. Ele abriu os olhos, presos nos dela. — Você sempre fez. Isadora se aproximou mais, encostando a testa na dele. — Então não foge dessas memórias. Elas fazem parte de quem somos. — Elas podem nos destruir. — Ou nos libertar. — corrigiu. Caio segurou o rosto dela com cuidado incomum para alguém tão acostumado à dureza. — Quando olho pra você, vejo a garota que eu não consegui salvar daquele dia e a mulher que ainda posso proteger agora. O coração dela bateu forte. — Eu não quero mais ser protegida pelo silêncio. — ela disse. — Quero a verdade. Mesmo que doa. Ele assentiu lentamente. — Então você precisa saber: Henrique não agiu sozinho naquela noite. Isadora sentiu um arrepio. — O fogo foi só uma parte. — Caio continuou. — O que veio depois foi pior. Antes que pudesse explicar mais, o som de um trovão ecoou ao longe. A chuva se intensificou, batendo contra o telhado como dedos impacientes. Isadora encostou-se nele, buscando abrigo não da chuva mas das memórias que começavam a emergir. — Eu sinto como se algo estivesse despertando dentro de mim. — ela confessou. — Lembranças, sensações estranhas. Como se meu corpo soubesse antes da minha mente. Caio a envolveu em um abraço firme, protetor. — Feridas antigas costumam avisar quando a verdade se aproxima. Ela respirou fundo, sentindo o cheiro dele, o calor, a segurança imperfeita, mas real. — Então não me solta quando doer. — Não vou. — ele prometeu, a voz baixa, carregada. — Mesmo que eu sangre junto. Lá fora, a chuva lavava a cidade. Mas algumas marcas não saem com água. Algumas memórias precisam ser enfrentadas. E algumas feridas ainda vão abrir antes de cicatrizar.
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