A chuva começou fina, quase tímida, como se Santa Marina também tivesse medo de tocar no que estava exposto.
Isadora observava as gotas escorrendo pelo vidro da janela, o corpo envolto em um silêncio inquieto.
A casa parecia diferente da luz cinzenta do dia menos acolhedora, mais honesta.
Ali, tudo parecia carregar história demais.
— Você não dormiu direito. — Caio disse atrás dela.
Ela não se virou.
— Nem você.
Ele se aproximou devagar, como fazia quando sabia que qualquer movimento brusco poderia quebrar algo invisível.
Parou a poucos centímetros, respeitando o espaço que ela ainda precisava para organizar pensamentos e memórias.
— Aquele olhar — Isadora murmurou.
— O seu. Ele me seguiu a noite inteira.
— Porque eu estava lembrando. — ele respondeu. — E lembrar dói.
Ela se virou então, apoiando as costas na janela.
— Do quê?
Caio respirou fundo, como quem decide arrancar um curativo antigo.
— Do dia em que tudo queimou.
O nome não foi dito, mas o peso dele caiu entre os dois.
— Eu vi o primeiro fogo. — ele continuou.
— Estava no porto quando senti o cheiro.
Corri, mas já era tarde demais. A casa a voz falhou por um segundo já estava perdida.
Isadora sentiu o peito apertar.
— Eu lembro da fumaça. Lembro da sirene. Mas minha mente apagou o resto.
— Porque foi assim que você sobreviveu.
— Caio disse. — Eu não tive essa opção.
Ele passou a mão pelos cabelos, inquieto.
— Quando encontrei seu pai — a frase morreu antes de terminar.
Isadora fechou os olhos.
— Ele tentou parar alguém. — Caio continuou, a voz baixa, crua.
— E eu cheguei tarde demais.
O silêncio se estendeu, pesado como chumbo.
— Você carrega isso sozinho desde então. — ela disse, com suavidade.
— Como se a culpa fosse sua.
— Porque eu estava lá. — ele respondeu.
— E porque eu sobrevivi.
Isadora deu um passo à frente e pousou a mão no braço dele. O toque foi leve, mas firme.
— Sobreviver não é culpa, Caio. É ferida.
Ele a encarou, o olhar nu, desarmado.
— Você não sabe quantas vezes eu tentei apagar aquela noite da minha cabeça e falhei.
— Porque ela ainda sangra. — Isadora sussurrou.
A mão dela subiu até o peito dele, sentindo a rigidez sob a camisa.
— Aqui também tem feridas.
Caio fechou os olhos quando sentiu o toque.
Não por prazer mas porque aquilo o desmontava.
— Eu me tornei o que me tornei para não sentir. — confessou.
— Poder, controle era a única forma de manter tudo sob rédeas.
— E eu? — ela perguntou.
— Eu faço você sentir.
Ele abriu os olhos, presos nos dela.
— Você sempre fez.
Isadora se aproximou mais, encostando a testa na dele.
— Então não foge dessas memórias. Elas fazem parte de quem somos.
— Elas podem nos destruir.
— Ou nos libertar. — corrigiu.
Caio segurou o rosto dela com cuidado incomum para alguém tão acostumado à dureza.
— Quando olho pra você, vejo a garota que eu não consegui salvar daquele dia e a mulher que ainda posso proteger agora.
O coração dela bateu forte.
— Eu não quero mais ser protegida pelo silêncio. — ela disse.
— Quero a verdade. Mesmo que doa.
Ele assentiu lentamente.
— Então você precisa saber: Henrique não agiu sozinho naquela noite.
Isadora sentiu um arrepio.
— O fogo foi só uma parte. — Caio continuou.
— O que veio depois foi pior.
Antes que pudesse explicar mais, o som de um trovão ecoou ao longe.
A chuva se intensificou, batendo contra o telhado como dedos impacientes.
Isadora encostou-se nele, buscando abrigo não da chuva mas das memórias que começavam a emergir.
— Eu sinto como se algo estivesse despertando dentro de mim. — ela confessou.
— Lembranças, sensações estranhas.
Como se meu corpo soubesse antes da minha mente.
Caio a envolveu em um abraço firme, protetor.
— Feridas antigas costumam avisar quando a verdade se aproxima.
Ela respirou fundo, sentindo o cheiro dele, o calor, a segurança imperfeita, mas real.
— Então não me solta quando doer.
— Não vou. — ele prometeu, a voz baixa, carregada.
— Mesmo que eu sangre junto.
Lá fora, a chuva lavava a cidade.
Mas algumas marcas não saem com água.
Algumas memórias precisam ser enfrentadas.
E algumas feridas ainda vão abrir antes de cicatrizar.